terça-feira, 5 de novembro de 2013

Como encarar a prática do Halloween.


Publicado Originalmente no Jornal Correio Sudoeste de Guaxupé no dia 26 de Setembro de 2013. 


De uma festa pagã comemorada basicamente nas ilhas britânicas, em especial na Irlanda, o “Halloween” se tornou no século XX uma festa comum em todo o mundo, ou pelo menos nos países que se abriram para o que se chama comumente de “ocidentalização” da cultura. Os Europeus mais românticos podem atribuir as comemorações de “Halloween” como sendo proveniente de suas origens pagãs, e até certo ponto assim o é, para os camponeses nas vilas mais remotas da Europa que ainda acendem uma vela no dia 31 de outubro para espantar os maus espíritos. No entanto o “Halloween” praticado nos grandes centros urbanos europeus hoje possui os mesmos elementos que se originaram na América do Norte, como as brincadeiras infantis de “Trick or Treat” e as abóboras sorridentes.

Não se sabe porquê em Portugal não é utilizado o termo “Halloween” sendo esta festa conhecida, assim como no Brasil, por Dia das Bruxas. O Dia das Bruxas em Portugal é também recente naquelas terras como diz a geógrafa portuguesa Ana Cravino:

"Halloween é uma palavra recente em Portugal. Traduzida por dia das bruxas, ou mais corretamente, Noite das Bruxas e é celebrada a 31 de outubro. Véspera de Todos os Santos. Por lado a lado se vão começando a ver fatos de fantasmas, vampiros, bruxas, múmias e monstros. São estes os disfarces favoritos da garotada e, as abóboras recortadas para parecerem uma cara são ex-libris!"


Como podemos notar a indústria cultural norte-americana criou um padrão comum para as comemorações do “Halloween” em âmbito mundial.

A prática do “Halloween” no Brasil está vinculada diretamente à iniciativa dos cursos de língua inglesa em familiarizar os alunos brasileiros com a cultura e as tradições que envolvem o idioma em estudo. Portanto, o “Halloween” foi introduzido no país como atividade pedagógica complementar nesses tipos de escola. De uma forma geral, esta prática só é evidente nas escolas particulares de idiomas, mas pode ser observada com uma freqüência cada vez maior também no ensino público através da iniciativa de professores de inglês.

O “Halloween” sofre grande pressão de tendências nacionalistas dos alunos que já buscam criar uma opinião própria ou simplesmente queiram tumultuar a aula. No entanto, a maior incidência de casos de resistência ao “Halloween” ocorre por parte de pais evangélicos. Há casos de pais protestantes que proíbem os filhos de participarem das comemorações de “Halloween” organizados pelos professores.

A comemoração do “Halloween” em uma cidade como Guaxupé, é parte de um processo que envolve uma série de indagações que nos leva a ter que analisar uma série de terminologias que estão muito em voga na nossa sociedade atual, como globalização, imperialismo, multiculturalismo, dentre outras. Que tipo de evidências as manifestações relatadas acima nos traz? Octavio Ianni nos mostra que:


“Na maioria dos países da América Latina, o conteúdo dos meios de comunicação em massa, isto é da indústria cultural, é amplamente produzido nos Estados Unidos ou influenciados pelos programas, agências e empresas de origem norte-americana”

Ou seja, as nações imperialistas, se utilizam de meios diversos para expandir sua cultura nos países periféricos, e foram estes meios que nos trouxeram a comemoração do “Halloween” que de alguma forma nos dá uma sensação de modernidade enquanto nossas culturas populares cada vez mais assumem um papel secundário. Será essa uma evidência da “sociedade global” que se constrói a nosso redor?

O que parece um tanto desfocado e até mesmo um tanto anacrônico é a cruzada “Anti-Halloween” levada a cabo por políticos nacionalistas. Aldo Rebelo do PC do B propôs em 2004 a instituição do “Dia do Saci” no Brasil, a ser comemorada no dia 31 de outubro (dia do Halloween – justamente como contraponto à essa comemoração) . Atitude que se analisada dentro do âmbito do processo de globalização em que o mundo chegou hoje, chega ser no mínimo ingênua. Não creio que podemos combater uma prática cultural globalizada através de um simples decreto. Tentar barrar a globalização é como tentar tapar a nascente de um rio com as mãos.

Manifestações como estas abordadas acima quase sempre de cunho nacionalista ou regionalista, muitas vezes pecam pela falta de critérios críticos na abordagem do “Halloween” como prática cultural. O “Halloween” é tido pelos adeptos de um nacionalismo exacerbado, como sendo uma imposição do imperialismo norte-americano, o que a meu ver parece uma afirmação inegável. O que me parece um tanto forçado, no entanto, é demonizar uma manifestação cultural milenar taxando-a como protagonista da destruição das culturas regionais, o que para tal é necessário que se esqueça de todo o processo histórico que a formou, deixando como fundamento crítico apenas os aspectos desta manifestação que surgiram já em um mundo globalizado. Como se o “Halloween” tivesse surgido em nossos tempos. Não vejo problema em ver nossas crianças comemorarem o “Halloween”. O que me preocupa é a falta de uma abordagem crítica do processo que tornou essa prática tão popular por aqui.


André Stanley

 
André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); presidiu o Centro acadêmico do curso de História no UNIFEG em 2007, é membro efetivo da Ass. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência.

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