sábado, 4 de janeiro de 2014

Por que eu estudo História?




Muitos me perguntam “Por que você escolheu a história? O engraçado é que sempre fico pasmo quando isso ocorre, porque talvez não se tem a medida correta da utilidade da História para a humanidade. Desde Marc Bloch vem se tentando de diversas formas definir a relevância da história. Pois confesso que a aptidão de muitos de meus colegas para história passa pelo crivo da curiosidade. Muitos até são atraídos pela imaginação fértil de alguns escritores de romances históricos que desviam liricamente os rumos dos acontecimentos para criar um romance usando vultos históricos que tiveram certa relevância. 

O fato é que fosse essa curiosidade o único elemento atrativo da história – afinal a curiosidade é que levou o homem a grandes feitos – seria uma razão sublime, principalmente no campo da literatura. Mas podemos identificar um fator mais potente no estudo da história do homem e sua ação no mundo. As grandes religiões por exemplo - óbvio que é um lugar comum sempre trabalhar com as três grandes religiões, apenas por uma questão didática, mas isso se aplicaria a todas a religiões - são fundamentadas sobre bases históricas que a legitimam entre seus praticantes. Essa utilização da história como fundação e legitimação de uma crença é um exemplo de como ela – a história – é poderosa.

Por que os religiosos são tão bem sucedidos na utilização da história? – a própria história nos mostra o quanto essas instituições são poderosas mesmo hoje em dia. Uma das possíveis respostas e justamente a falta de conhecimento histórico da sociedade. Isso não é exclusividade de nossos tempos, pois desde a antiguidade já se destacavam alguns vultos sociais que ao se utilizar de uma história fundadora puderam criar um embrião que por vezes se tornou um credo em comum em toda a sociedade – falo dos grandes profetas que mesmo não tendo a intenção de criar uma religião foram responsáveis pelo surgimento delas. 

Mas a maior causa do surgimento de ideais espiritualistas no meio das sociedades não vem de cima, é a própria incapacidade das pessoas de questionar suas praticas e modos de vida que as tornam suscetíveis a serem guiadas por mentes muitas vezes doentias demais para notarem sua interferência na vida social de suas comunidades. 

Meu interesse pelo conhecimento histórico surge justamente da capacidade que adquiri de questionar a legitimidade de livros sagrados e da história oficial das nações. O selo do sagrado e do oficial são formas de engessar a história. Há de se notar que se a história for sempre vista como uma corrente de fatos retos e inquestionáveis, sempre haverá um tirano ascendendo ao poder e religiosos cometendo atrocidades que desafiam a compreensão. A passividade do homem é uma doença perigosa e fatal não somente por fazer do homem uma ovelha amestrada, mas principalmente por cegá-los a ponto de considerarem aqueles que conseguem se livrar das garras estreitas de seus pastores – analogia mais que pertinente – como insanos.

Quem escolhe ser historiador simplesmente por curiosidade já pode ser considerado um questionador, mas isso somente ainda não faz dele verdadeiramente um historiador. O que conduz alguém a se embrenhar pelo território mágico da história é, sobretudo seu espírito contestador. Questionar as ações do homem é tarefa fundamental de cada historiador que se preze. 

Há uma razão histórica para sermos o que somos, e vivermos no mundo em que vivemos. Somos herdeiros de um processo histórico que jamais acaba. Mas o que devemos ter em mente é o fato de sermos os atores no palco da história. O homem é aquele que age e cria. Não haveria história se não houvesse o homem. O que parece uma redundância as vezes é o que tem de ser dito, pois notamos atualmente uma atrofia do homem em relação a sua história. Um homem apático demais para almejar fazer história. 

Escolhi estudar história por não estar satisfeito com as explicações oficiais. Por não concordar com a tirania de alguns. E principalmente para notar, olhando do lado de fora dos acontecimentos o que realmente ocorreu e como agir mediante esses acontecimentos.

A história que foi por muito tempo pejorativamente tachada de uma simples arte, em detrimento de considera-la ciência, pode ser sim considerada uma arte sem nenhum constrangimento. A História nada mais é do que a arte de questionar e contestar o que está escrito. É a arte da  não aceitação do que lhe é imposto como verdade. Pensem nisso.




André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); presidiu o Centro acadêmico do curso de História no UNIFEG em 2007, é membro efetivo da Ass. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens Populares