quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Patinho Feio – Qual o significado social do conto para o desenvolvimento da criança?

Imagem Angeline Valentius (Deviant art)

O patinho Feio de Hans Christian Andersen já foi tema de vários estudos e teses diversas em muitas das áreas do conhecimento. O termo Patinho Feio hoje já está inserido no inconsciente coletivo do mundo ocidental.  É um daqueles termos oriundos de fabulas populares, que se concretizaram como expressões idiomáticas alegóricas para descrever o comportamento humano. Por exemplo, quando atribuímos a uma pessoa o adjetivo “ovelha negra” todos sabemos que estamos dizendo que essa pessoa não compartilha dos mesmos ideais e interesses daqueles que o cerca – amigos e familiares. Sabemos isso sem nunca ter lido ou ouvido a popular fábula de onde essa expressão certamente se originou. O Patinho feio se tornou um adjetivo muito recorrente em blogs e websites. Encontramos várias matérias que usam esse termo no título. Como: ‘Não somos mais o patinho feio’, diz Atalasobre gastronomia latina” esse é o título da matéria onde o chef brasileiro defende a culinária latino-americana. Uma rápida procura no google vai nos mostrar que muitos blogueiro se utilizam dessa expressão para tentar fazer seus leitores entenderem que estão falando de uma condição que já sofreram, o fato de terem sido feios. “Ontem meu pai dissepenalizado à minha madrasta, que eu sempre fui o patinho feio da família...”ou então “Sou o patinho feio da família literalmente”. Outro exemplo é a matéria se referindo a Top model Gisele Bündchen: “De patinho feio na escola amodelo mais bem paga no mundo. ”
Podemos notar que o conto de Andersen criou uma possibilidade de expressão linguística muito coerente e dotada de um significado bem claro. Diferentemente do termo “ovelha negra” que tem hoje um significado exclusivamente pejorativo, “Patinho feio” nos remete a alguém que supera sua “feiura” ou que descobre sua beleza em algum momento de sua vida.
Como o conto de Andersen trata especificamente do paradigma da beleza e da feiura, acho que o mundo da moda oferece os melhores exemplos onde essa alegoria pode ser utilizada. Vemos que as modelos seguem um padrão de beleza rígido, onde não é incomum vermos notícias de modelos que se adoentaram ou morreram por conta de um compromisso extremo com o padrão de beleza preestabelecido pela indústria da moda. Nem todas as modelos nasceram belas. A maioria teve uma infância e adolescência muito ordinária onde raramente tinham sua beleza notada. Elas se descobrem belas quando tem a chance de entrar para o mundo da moda. O conto de Andersen expõe de forma muito eloquente a incoerência dos padrões de beleza preestabelecidos, pois os irmãos do Patinho Feio, que era na verdade um cisne em um ninho de patos, caçoavam dele por ser muito “grande” e “desengonçado” diferente de todos os outros. Se você julga a diferença do outro baseado em seus próprios conceitos, você corre o risco de cair na mesma armadilha dos patinhos que eram todos iguais, pois iremos julgar utilizando parâmetros pessoais e preconceituosos. Os irmãos estavam cegos ao fato de aquele Patinho desengonçado ser na verdade uma outra espécie de ave. Ou seja esses irmãos tinham uma visão muito rasa da realidade.
Esse conto é uma forma de introduzirmos na criança de uma forma lúdica, a noção de preconceito, prejulgamento, padrões abstratos e exclusão. Aspectos que toda criança terá que enfrentar no decorrer de sua vida.
Segundo o psicanalista Bruno Bettelheim, “a tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajuda-la encontrar significado na vida” (BETTELHEIM, 1980, p.11). Devemos lembrar que Bettelheim é o autor da clássica obra “A Psicanálise dos contos de fadas”, onde fez uma análise psicológica de diversos contos de fadas. Munido de um referencial teórico profundamente freudiano, Bettelheim apresenta um padrão psicológico recorrente em todos os contos mostrando que os contos de fadas são histórias que procuram nos dar um significado para os problemas que enfrentamos na vida. O patinho feio poderia entrar nesse tipo de análise psicológica. Elementos como o pai que pode, vez ou outra, pensar que seu filho fora trocado na maternidade e a própria criança que pode também sofrer a angustia de achar que um dia lhe será dito que não é filho de seus pais e que vive uma mentira.
No entanto, não é o objetivo desse artigo analisar a psicologia do conto, mas sim os aspectos sociais que envolve essa história. A literatura infantil nos dá a oportunidade de entrar em contato com os desafios mais básicos que enfrentamos durante a vida, por isso as histórias são muito simples, pois as crianças ainda não possuem uma capacidade de abstração desenvolvida. Por isso devemos ajudá-la a construir seu mundo psicológico de uma forma simbólica.
Em certo grau todos nos identificamos com alguns de seus personagens. O Patinho Feio é o típico personagem que sofre a exclusão de seus irmãos, por ser o único dentre eles com características físicas distintas das do restante da família. Muitos de nós nos sentimos excluídos. E muitas vezes o motivo da exclusão é uma característica pessoal que nos faz diferir dos outros membros da família ou do nosso grupo de convivência social. Podemos usar como exemplo um imigrante que tem que lidar com seu exotismo momentâneo por ser praticante de um modo de vida diferente daquele que está inserido, ou o filho homossexual que sofre por não atender as idealizações tradicionais de sua família, ou o filho adotado que eventualmente tem que enfrentar a ira dos irmãos. Na bíblia encontramos algo desse gênero na história de José do Egito que é vendido como escravo por seus irmãos por que segundo eles ele era o preferido do pai e ao final da narrativa, José também consegue dar a volta por cima e se tornar um dirigente respeitado, mas para tal foi necessário que tivesse um pasto fértil onde seus talentos tivessem a chance de fazê-lo prosperar.
Podemos dizer sem exagero que o Patinho Feio de Andersen sintetiza um fenômeno universal, todos os conceitos que nos rodeiam são construções sociais abstratas, que por isso são divergentes de uma sociedade para outra. O relativismo no conceito de belo e feio é exposto por Andersen no fato de que o Patinho Feio não precisou de um beijo de uma princesa ou de uma poção mágica para se tornar uma ave de grande beleza. Ele simplesmente cresceu e todos descobriram que não era um pato. O Patinho Feio, agora um belo cisne, simplesmente descobriu quem realmente era e sua família de patos tiveram que conviver com o fato de eles estarem cegos por um padrão de beleza tão irreal.
Quando chegar a hora os pequenos leitores que se aventurarem pela leitura desse conto terão que enfrentar dilemas como esses citados acima ou ainda mais conflituosos que estes. Reside aí a importância da literatura infantil para o desenvolvimento de um indivíduo. A boa literatura para crianças não tem o intuito de poupá-las do sofrimento e das dificuldades sociais, mas mostrar a elas de uma forma simbólica, como terão que enfrentar esses desafios.

Bibliografia:
André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.



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