domingo, 14 de outubro de 2018

"Vencereis mas não convencereis" - O dia Que Unamuno enfrentou a ditadura de Franco.

Unamuno (ao centro de barba) deixando a Universidade de Salamanca sob manifestação de partidários de Franco, após embate com General franquista em 12 de outubro de 1936.


Diz a lenda que em 12 de outubro de 1936 o filosofo e escritor espanhol Miguel de Unamuno enquanto reitor da Universidade de Salamanca presidia um ato comemorativo no salão desta universidade e ouvia calado os discursos fervorosos de seus colegas lançando ataques raivosos contra a população do País Basco e da Catalunha. 



Dentre eles Francisco Maldonado de Guevara, que os chamou de "anti-Espanha e de tumores no sadio corpo da nação" e asseverando que "o fascismo redentor da Espanha saberá como exterminá-los, cortando na própria carne, como um decidido cirurgião, livre de falsos sentimentalismos". 


Ao concluir, elogiou o papel do Exército, que segundo ele, havia se empenhado em "uma nova e verdadeira cruzada nacional e afirmando que catalães e bascos "exploradores do homem e do nome da Espanha estão vivendo até agora, em meio a este mundo necessitado e miserável do pós-guerra, em um paraíso de fiscalidade e de altos salários, às custas do povo espanhol".

Do meio do público ouve-se o o lema dos falangistas "Viva la Muerte" o general José Millán-Astray responde com os gritos que usualmente se usava para insuflar o povo que apoiava a acensão de Franco. "España..." e o povo dizia "Una..."

Os estudantes e todos presentes aplaudiram e em uníssono respondiam os chamados do general.

Unamuno, que já havia apoiado os outrora rebeldes franquistas, então ao tomar a palavra profere o seguinte discurso:

"Estais esperando que vos fale. Conhecei-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. As vezes, permanecer calado equivale a mentir porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Quero fazer alguns comentários ao discurso - se posso chamá-lo assim - do professor Maldonado, que se encontra entre nós. Falou-se aqui da guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu mesmo já fiz isso em outras oportunidades. Mas não, a nossa é tão somente uma guerra incivil. Vencer não é convencer, e há, sobretudo, que convencer. O ódio - que não deixa lugar à compaixão - não pode convencer. Um dos oradores aqui presentes é catalão, nascido em Barcelona e está aqui para ensinar a doutrina cristã, que vós não quereis conhecer. Eu mesmo nasci em Bilbao e passei a minha vida ensinando a língua espanhola, a qual desconheceis [...] Deixarei de lado a ofensa pessoal que se deduz da repentina explosão contra bascos e catalães, chamando-os de anti-Espanha até porque com a mesma razão poderiam eles dizer o mesmo."

Depois, Unamuno desfere sua raiva diretamente ao general que o acompanhava na mesa;

"Bem agora ouvi um grito necrófilo e sem sentido: ‘Viva a morte!’ E eu, que passei a vida criando paradoxos, devo dizer-lhes, com autoridade de especialista, que este paradoxo estranhíssimo me é repulsivo. O general Millán Astray é um aleijado [havia perdido um braço e era cego de um olho]. Vamos dizê-lo sem rodeios. É um aleijado de guerra. Cervantes também era."

“Infelizmente há aleijados demais na Espanha hoje em dia. E logo haverá mais ainda se Deus não vier em nosso auxílio. Dói-me pensar que o general Millán Astray deva ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado sem a grandeza de Cervantes tende a buscar consolo calamitoso provocando mutilação à sua volta. O general Millán Astray gostaria de recriar a Espanha, uma criação negativa à sua própria imagem e semelhança; por essa razão, deseja ver a Espanha aleijada, como sem querer deixou claro”

Segundo alguns cronistas o general gritou a plenos pulmões “Muera la inteligência! Viva la muerte!” e houve uma reação instantânea dos falangistas que sacaram suas armas e apontaram para Unamuno, que não se intimidou e ainda proferiu 

“Este é o templo do intelecto e sou eu o sumo sacerdote. É o senhor que profana este recinto sagrado. O senhor vencerá, porque tem força bruta mais que suficiente. Mas não convencerá. Pois para convencer precisará do que lhe falta: a razão e o direito em sua luta. Considero inútil exortar o senhor a pensar na Espanha”.

Miguel de Unamuno foi salvo pela esposa de Francisco Franco que estava presente e o retirou do meio da multidão. Segundo consta, Franco disse que ele deveria ser fuzilado, mas não o fez devido ao prestigio e reconhecimento internacional do filosofo e da comoção mundial causada pela morte de Garcia Lorca

No entanto, seis semanas após esse discurso de afronta contra o franquismo, Unamuno morre em uma depressão profunda e com o rótulo de traidor da pátria. Somente a histórica de forma implacável foi capaz de redimi-lo e colocá-lo hoje no panteão dos intelectuais que realmente foram capazes de defender o respeito mútuo entre os povos e a incoerência das ditaduras.

Conclusão.

Se foi exatamente este o discurso proferido por Unamuno e por Millan, nunca saberemos, pois, apesar de este ato ter sido transmitido por rádio para todo país, Unamuno não contava com um microfone, tampouco o general Millan, ou seja, o que falaram não foi registrado. É muito mais provável que essas palavras, já canônicas na mitologia recente da história espanhola, foram escritas muito posteriormente por pessoas que não estavam presentes e com um viés bem mais literário do que histórico, mas a questão é que certamente houve um embate sério entre Unamuno e o general Millan naquele 12 de outubro e que isso foi a causa de sua destituição do cargo de reitor pelo General Franco naquele mesmo mês.
As palavras exatas proferidas naque dia certamente se perderam, mas o que ficou claro é que Unamuno, que outrora chegou a defender o novo regime que se instava na Espanha, usou o palanque da Universidade da qual era o governante legítimo para deixar claro e público sua discordância em relação a ditadura e seu arrependimento em te-los defendido um dia. A força narrativa criada por esse episódio fez toda uma geração de antifascistas espanhóis se engajarem em sua luta pela democracia.



Fontes: 


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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