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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Lolita - Como criar uma capa para uma obra tão controversa?





Este texto foi inspirado no artigo de Isabel Zapata, "Juzgar Lolita por su portada" publicado no site "Letras Libres" em 2018.

Será que podemos julgar um livro clássico como Lolita pela capa?

Neste artigo vamos averiguar algumas capas produzidas para "Lolita", o polêmico livro de Vladimir Nabokov e analisaremos a relação da mensagem visual com o romance.

Quando visitamos uma livraria, física ou online, geralmente já temos em mente o tipo de livro que estamos procurando. Um best-seller que todo mundo está lendo, um livro técnico que o professor da universidade recomendou ou um clássico que sempre queremos ler e dificilmente encontramos tempo para isso, mas é acolhedor vê-lo na prateleira junto aos outros. No entanto, há situações em que a capa nos chama para ler a resenha da contracapa e caso nos interessamos pelo conteúdo acabamos comprando.

1955 FR France – Olympia Press 
(The Traveller's Companion, Nr. 66) 
Paris
A capa geralmente não é a protagonista de nossa escolha, mas é o elemento que primeiro nos atiça. Muitos não notam a importância da capa para uma obra clássica que atravessou décadas sendo discutida e questionada pela crítica literária e pela opinião pública de cada período. 

No caso de Lolita, o romance mais aclamado de Vladimir Nabokov, este elemento ganhou uma importância retumbante, já que a história toca em um tema que nunca deixou de ser polêmico, por isso gera desconforto desde seu lançamento em 1955.

As tentativas de traduzir em elementos gráficos a complexidade deste romance foram cerceadas pelo próprio autor que não admitiu que sua publicação original - pela editora especializada em publicações eróticas, “Olympia Press” de Paris - trouxesse na capa qualquer imagem, nem mesmo uma representação pictórica de Lolita; talvez temendo por sua reputação. O que fez com que o livro saísse apenas com os dizeres “LOLITA” e o nome do autor em um fundo padrão verde neutro sem chamarizes. 

No entanto, o elemento sexual do livro foi motivo de escândalo e isso era forte demais para não ser explorado por capistas de diversas editoras mundo afora nos anos posteriores, chegando à beira da pornografia explícita na edição de uma editora finlandesa dos anos 90s. No entanto, essas imagens pareciam estar mais em sintonia com o mercado de itens eróticos do que com o conteúdo literário. 


1964? TUR Altin Kitaplar Yayinevi, 
Istanbul
Na edição turca de 1964 podemos ver uma mulher nua em uma pose clássica.  Uma imagem genérica, talvez saída de um estudo do corpo feminino, feito por algum pintor iniciante. Apesar de charmosa, esta capa n
ão corresponde ao estereótipo criado pelo romance, de uma pré-adolescente precocemente sexualizada e abusada pelo seu padrasto quarentão.









1959 TUR Turkey – Aydin Yayinevi, 
Istanbul (unauthorized)
Uma outra publicação turca anterior (1959) mostra um casal se abraçando ternamente. Apesar de o artista ter tentado dar um aspecto juvenil à mulher, nada impediria a quem visse esse livro na prateleira, de pensar que se tratava de um romance trivial, daqueles de bancas de jornal. O que, volto a dizer, não corresponde ao aspecto abusivo contido no livro.

Ou seja, Lolita, para alguém que olhava para essas capas, parecia uma mulher crescida, plenamente responsável pelos seus atos. É interessante imaginar a perplexidade do leitor médio da época do "Amrerican way of life" ao descobrir que a personagem que dá nome ao livro é uma menina de 12 anos que tem um relacionamento amoroso com seu padrasto, um pedófilo confesso.




1962 US U.S.A. - Movie theater 
poster for für 
Stanley Kubrick's film
A imagem mais icônica e que se tornou lugar comum nas representações de Lolita, foi propagada pelo filme de Stanley Kubrick de 1962 que teve a audácia de levar o romance para as telas do cinema, com Sue Lyon no papel de Lolita.

Nesta representação gráfica, Lolita é representada de óculos escuros em formato de coração chupando um pirulito. Uma cena que não pode ser encontrada em nenhum momento do filme, no entanto, ajudou a consolidar a imagem da adolescente precocemente sexualizada - quase uma predadora sexual - que iria ser parte do imaginário popular desde então.






1970s NL Netherlands – Title 'Lolita:
Door begeerte gedreven'
[Lolita: Driven by desire] –
Omega Boek, Amsterdam–
Translation, M. Coutinho –
 Cover Erik Handgraaf –
ISBN 90-6057-418-4

Uma edição publicada na Holanda em 1970 já deixava explícito o caráter sexual do romance, algo que sempre fora recorrente, mas que será mais abundante nas décadas de 1970 e 1980, quando os designers de capas utilizavam fotos de modelos reais para ilustrar as capas dos livros. Isso se tornou tendência no meio erótico. 











1974 TUR Turkey –Altin Kitaplar
 Yayinevi,
Istanbul (unauthorized) –
Translation, Gönül Suveren

Esta outra edição turca de 1974 mostra uma garota nua de costas mordendo uma maçã. Neste caso a ousadia do designer foi muito além, pois a modelo apresenta traços explicitamente juvenis. Hoje em dia creio que em qualquer país ocidental esta imagem não passaria pelo crivo das grandes editoras pois seria execrada pela opinião pública. Mas, nos anos 70s, surpreendentemente parecia haver certa tolerância a esse tipo de representação na cultura pop, pelo menos em alguns países.







Virgin Killer (1976) Scorpions
Capa censurada

Mais ou menos nesta mesma época a banda de Hard Rock alemã Scorpions, lançava seu álbum "Virgin Killer" que mostrava uma adolescente nua na capa. Eles foram obrigados a lançar capas alternativas para que que o álbum fosse vendido fora da Alemanha. O que demonstra que a censura de uma imagem está ligada não só ao período histórico em que ela circula, mas também ao território geográfico.





1980 IT Italy – Mondadori
(Gli Oscar), Milano –
Translation, Bruno Oddera –
 Cover painting Le lever by
Balthus (1975-78) – no ISBN

Nesta edição italiana de 1980, temos uma pintura que mostra elementos que poderiam ilustrar a capa de um livro infantil de fantasia, todavia ao ler o livro o leitor irá perceber que o que vemos em primeiro plano não é um cupido asexuado, mas sim uma menina nua sensualizada. Apesar de chocante, esta imagem certamente traduz a atmosfera complexa desta história de uma adolescente que é iludida por um homem adulto. 








1992 FIN (1) Finland – Gummerus, 
Jyväskylä, vol.1 – 
Translation, 
Eila Pennanen and Juhani Jaskari –
 ISBN 951-20-4102-2

1992 FIN (02) Finland – Gummerus, 
Jyväskylä, vol.2 – 
Translation,
 Eila Pennanen and Juhani Jaskari – 
ISBN 951-20-4103-0

Em 1992 uma editora finlandesa lança o romance em dois volumes exaltando a nudez de uma modelo adulta, o que não o diferenciava em nada das capas de revistas baratas de pornografia que eram facilmente encontradas nas bancas de jornais desta época.




















2004 RU Russia – 'Lolita' / 'Drugie berega'
[Speak, Memory] – EKSMO-Press
(Krasnaya kniga russkoi prozy),
Moskau – ISBN 5-699-07566-6

Já nos anos 2000, sob a influência do "politicamente correto" as  representações gráficas nas capas de Lolita, ficaram menos explícitas, mostrando muitas das vezes, uma foto do autor ou elementos gráficos implicitamente sugestivos já que a história já era conhecida o bastante para que uma mensagem subliminar fosse o suficiente.


2002 TUR Turkey – İletişim Yayınları,

Istanbul – Translation, Fatih Özgüven –
ISBN 978-9-7547-0101-2












Recentemente, a editora espanhola “Anagrama” recrutou a artista plástica coreana Henn Kim para idealizar a capa de uma nova edição de Lolita. A capa de Henn Kim é minimalista e mostra uma Lolita sendo trespassada por uma chave metálica daquelas de dar corda em relógio ou algum brinquedo a corda antigo. A veia feminista da artista está fortemente representada nesta figura, afinal pela primeira vez vemos uma menina em uma posição de sofrimento deixando explícito o abuso sofrido nas mãos de seu algoz. 

A “evolução” das capas de Lolita mostra que o elemento gráfico pode traduzir uma história clássica para os debates de seu tempo. A história é a mesma, mas a forma como a enxergamos muda no decorrer da história. A capa de Henn Kim não poderia ser mais apropriada para uma Lolita vista pelos olhos atuais. 

Se um leitor contemporâneo que nunca teve a chance de ler o romance lê-lo a partir da visão desta capa, poderá ter uma percepção diversa daqueles que o leram nas décadas anteriores. Afinal as capas com uma garota feliz chupando um pirulito pressupõe uma história de amor entre Humbert e Dolores (Lolita). Uma história de amor nos induz a pensar que ambos os personagens estão em pé de igualdade em seu afeto um pelo outro. Ou seja, vemos a história sob a ótica do narrador que é o próprio Humbert, e é ele que enxerga Lolita como uma "Femme Fatale".  Será que Lolita em seus 12 anos de vida nutre o mesmo sentimento por seu padrastro?

O que a capa de Kim propõe é olhar a história contada por um adulto pedófilo sob o ponto de vista de uma criança que serviu de brinquedo em suas mãos. 

Com isso não quero dizer que esta é a melhor capa na escala evolutiva que mostrei aqui, apenas quero pontuar que as capas de um livro não são meros protetores contra a poeira. Há uma razão para uma editora escolher um determinado designer de capas. E há portanto, um motivo para um capista usar uma configuração de cor, uma textura ou uma imagem ao invés de outra e a capa de Henn Kim ilustra muito bem esse aspecto.

Se podemos tirar alguma lição desta viagem por diversas capas de Lolita, é o fato de que o livro é um elemento vivo, que passa por transformações no decorrer da história e a capa é uma maneira de demonstrar os vários tipos de leituras possíveis de uma mesma história. 



Publicação espanhola - 2018 tradução: Francesc RocaI - SBN978-84-339-6017-7




Para saber mais:

  • As capas utilizada para ilustrar esse artigo foram retiradas deste site que tem uma compilação com 210 capas de Lolita de 40 diferentes países. 
  • Leia a resenha que escrevi sobre Lolita neste blog aqui.
  • Leia o artigo de Isabela Zapata, que inspirou este texto aqui


Fontes: 

Covering Lolita - 210 book and media covers from 40 countries and 58 years: http://www.dezimmer.net/Covering%20Lolita/LoCov.html

Arquivo: https://archive.vn/o1Chg

Letras Libres - Juzgar Lolita por su portada: https://www.letraslibres.com/mexico/cultura/juzgar-lolita-por-su-portada

Arquivo: https://archive.vn/Yt6EQ

Lolita Repaginada - La Espanhoteca: https://laespanhoteca.wordpress.com/2018/03/25/uma-nova-roupa-para-lolita/



    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

Lolita – A obra controversa de Vladimir Nabokov (Resumo)

Imagem André Stanley


Versão resumida

Ficha técnica:
Livro: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Ano de Lançamento: 1955
País: EUA
Gênero: Romance Americano/Ficção

A genialidade de Nabokov é evidenciada a cada capítulo. As passagens mais geniais são uma sucessão de coincidências tragicômicas que marcam estrategicamente o enredo, dando uma dinâmica essencial ao desfecho de cada situação. Se trata de uma narração em primeira pessoa das memórias do professor universitário francês Humbert Humbert que vive nos EUA. Humbert se apaixona pela filha de sua anfitriã, uma garota de 12 anos. Paixão que vai levar o protagonista a fazer qualquer coisa para possuí-la. Sua conduta criminosa é narrada de forma crua e detalhada por ele próprio. Como se trata de suas memórias a respeito dessa paixão incontrolável que vai leva-los a uma viagem pelas estradas de alguns estados americanos, a história se assemelha a uma narrativa de viagem com fortes elementos subversivos. Em alguns momentos o narrador protagonista tenta justificar suas ações, como se estivesse conversando com o leitor, mas ele próprio não parece ter a intenção de se redimir de seus crimes, em várias passagens ele se auto intitula como um pervertido sexual.
As questões sempre levantadas a cada uma de suas ações parecem ser: Será que Humbert é um doente que precisa de tratamento? Será que ele está simplesmente apaixonado? Ou será que ele é um monstro? O livro não se presa a responder essas questões, deixando ao leitor essas reflexões. Ou seja, se você está com receio de ler o livro devido as polemicas que ele levanta, saiba que esse não é um bom argumento, é importante conhecer, um pouco, de como funciona a cabeça de um criminoso, isso enriquecerá seu repertório de personagens que carregam mundos complexos dentro de si e que por isso nos fazem pensar sobre nós mesmos e nossas relações com os outros.

Leia o artigo inteiro




    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

Lolita – A obra controversa de Vladimir Nabokov


Imagem André Stanley


Ficha técnica:
Livro: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Ano de Lançamento: 1955
País: EUA
Gênero: Romance Americano/Ficção

Trata-se de um clássico da literatura mundial, portanto, muito já foi escrito a respeito desse livro e muito ainda o será. Baseado nas resenhas jornalísticas e críticas sobre essa obra muitas pessoas se recusam a ler o livro, talvez por um pudor exacerbado, ou pelo desconforto que o enredo poderá gerar. É compreensível que se sintam assim, mas do outro lado da balnça está a privação a um romance altamente técnico e bem construído. O  fato de o autor, ter tratado das aventuras sexuais de um homem de meia idade com uma menina de 12 anos, com tamanha maestria parece absurdo. Ao mesmo tempo é compreensivel que a literatura conte histórias absurdas e chocantes.

A literatura como arte não serve – ou não deveria servir – à consolidação dos anseios sócias. Ela deve sim criar mundos. Criar histórias verossímeis para que cada leitor se aproprie desse mundo que de outra forma não conseguiriam ter contato. E a matéria prima da literatura é o próprio homem, e as relações que ele estabelece com os outros. Nesse sentido, Nabokov buscou suas fontes não no mundo que ele gostaria que existisse, mas no mundo que já existe. Sendo assim, o autor foi feliz em explorar uma faceta obscura do ser humano de forma realista. Quando digo realista, quero dizer que ele não se deixou levar pelo moralismo exacerbado de sua época e deu voz a um personagem patologicamente obscuro, com todos seus demônios interiores sendo expostos em primeira pessoa. Ao fim e ao cabo o que queremos definir como literatura? Um romance que constrange as regras sociais, ou um manual de bons costumes? Isso pode variar de leitor para leitor, e até mesmo entre os críticos poficionais, mas, a meu ver, a arte de contar histórias não deve se comprometer com a auto ajuda ou com um mero moralismo.

Sobre a obra, é preciso dizer que a narrativa é precisa, a genialidade de Nabokov é evidenciada a cada capítulo. As passagens mais geniais são uma sucessão de coincidências tragicômicas que marcam estrategicamente o enredo, dando uma dinâmica essencial ao desfecho de cada situação. Se trata de uma narração em primeira pessoa das memórias do professor universitário francês Humbert Humbert que vive nos EUA. Humbert se apaixona pela filha de sua anfitriã, uma garota de 12 anos. Paixão que vai levar o protagonista a fazer qualquer coisa para possuí-la. Sua conduta criminosa é narrada de forma crua e detalhada por ele próprio. Como se trata de suas memórias a respeito dessa paixão incontrolável que vai leva-los a uma viagem pelas estradas de alguns estados americanos, a história se assemelha a uma narrativa de viagem com a adção de fortes elementos subversivos. 

Em alguns momentos o narrador protagonista tenta justificar suas ações, como se estivesse conversando com o leitor, mas ele próprio não parece ter a intenção de se redimir de seus crimes, em várias passagens ele se auto intitula como um pervertido sexual. Com essa obra Nabokov introduz – ou pelo menos populariza – uma nova palavra ao dicionário de língua inglesa. O termo nymphet – traduzido para o português como ninfeta – é cunhado pelo narrador como um título que representaria a mulher precocemente preparada para desempenhar sua plena atividade sexual. No entanto, para a concepção pedófila do personagem de Nabokov esse adjetivo se aplica especificamente a meninas pré-adolescentes, pois o termo vai perdendo o sentido conforme elas envelhecem.

As questões sempre levantadas a cada uma de suas ações parecem ser: Será que Humbert é um doente que precisa de tratamento? Será que ele está simplesmente apaixonado? Ou será que ele é um monstro? O livro não se presa a responder essas questões, deixando ao leitor essas reflexões. Ou seja, se você está com receio de ler o livro devido as polemicas que ele levanta, saiba que esse não é um bom argumento, é importante conhecer, um pouco, de como funciona a cabeça de um criminoso, isso enriquecerá seu repertório de personagens que carregam mundos complexos dentro de si e que por isso nos fazem pensar sobre nós mesmos e nossas relações com os outros.




    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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