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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Em Defesa do Romance Histórico






Moisés nasceu de uma pulada de cerca de seu pai, um hebreu que trabalhava em uma obra pública no Egito e sua mãe era uma mulher da corte do faraó egípcio. A passagem do Mar Vermelho não passou de uma travessia em um brejo onde a água não passava da canela, os soldados do Faraó tiveram o azar de atravessar na hora em que a maré subiu. Pelo menos esta é a versão imaginada por Gerald Messadié em seu romance “Moisés”. 

 

Mas o maior expoente contemporâneo da fértil imaginação de alguns romancistas, que exploram personagens e eventos históricos, talvez seja “O código Da Vinci” de Dan Brown. Neste best-seller, o escritor, embasado em algumas teses históricas e outras nem tanto, imaginou um Jesus Cristo muito diferente do casto senhor responsável pelo surgimento do cristianismo. No livro de Dan Brown, Jesus tinha uma mulher, Maria Madalena, e até mesmo gerou uma prole, cujos descendentes foram governantes de grandes impérios. Como todo livro mundialmente conhecido, já nasce como um roteiro de Hollywood, “O Código Da Vinci” foi parar rapidamente nas telonas, estrelado por Tom Hanks e a belíssima atriz francesa Audrei Tautou.

        

Apesar da polêmica provocada pelo fenômeno “Código Da Vinci”, Dan Brown não foi o primeiro a usar sua imaginação para falar de um Jesus diferente daquele que apregoam os líderes cristãos. Andrew Lloyd Webber em seu musical para o cinema “Jesus Cristo Superstar” imaginou Jesus como uma estrela pop. Até mesmo os humoristas do grupo “Monty Python” usaram de seu humor britânico para criar um Jesus Cristo com super poderes, nos moldes dos super-heróis dos quadrinhos.

        

Como podemos notar, quando se conta a saga de um personagem histórico muito conhecido, cabe a quem a conta, usar de sua criatividade para temperar a biografia destas figuras. Como historiador, eu deveria - na opinião de muitos de meus colegas – execrar esses escritores e roteiristas que escrevem coisas muitas vezes absurdas distorcendo a “realidade”.  Mas vou me abster de criticá-los neste texto, pois acredito que a criatividade artística não deve ser negligenciada, até mesmo por nós, que nos fazemos acreditar como cientistas da história e ao contrário, gostaria de exaltar o talento de alguns dos autores que estão inseridos dentro do rótulo "romancista histórico".

 

Se você é um leitor de romances em geral, saiba que é difícil para um leigo saber quando um texto literário se utiliza de elementos históricos ou até mesmo quando um livro de história passa a se utilizar de uma narrativa hipotética para preencher lacunas que as pesquisas históricas por ora não revelam. A questão é que, de toda forma você tem algo a ganhar lendo romances históricos, ou não, isso depende do seu propósito ao lê-lo. Caso você busque entretenimento, leia o romance como se fosse uma obra de ficção, afinal por mais que um romance tente se aproximar dos fatos ele será no final sempre uma obra ficcional, pois um romancista não tem compromisso firmado com a ciência. Agora se quer se aprofundar, use esse romance para entender a abordagem desta obra, respondendo as seguintes questões: Por que a obra aborda este evento com esse viés? Será que há outras obras que mostram o outro lado da história? Sempre questione.

 

Por exemple, em “Jogos funerários”, Mary Renault esboça o que provavelmente ocorreu após a morte de Alexandre da Macedônia. Me deparei com esse livro na prateleira de um restaurante de beira de estrada quando era um adolescente que viaja para shows de rock e digo que me apaixonei pela obra já no primeiro capítulo. O Livro é o final de uma série que conta a história de Alexandre o Grande. Nesse livro os generais de Alexandre disputam os territórios do conquistador após a sua morte. Temos aqui a História da queda de alguns generais e a ascensão de outros como Ptolomeu que se instalou no Egito e criou a dinastia Ptolomaica que se findou cerca de 3 séculos depois com Cleópatra a última soberana desta linhagem.

 

Mary Renault
Mary Renault foi uma autora que elegeu o período helenístico como fonte de inspiração para seus textos e chegou a escreve uma biografia de Alexandre, onde ela tentou ser imparcial o suficiente para não deixar sua veia de romancista intrometer em suas convicções sobre esse personagem histórico, mas a crítica não perdoou sua predileção a declarar abertamente que Alexandre o Grande era um líder de primeira grandeza, quase imaculado.

O que quero dizer é que se você ler “Jogos Funerários” como uma obra de ficção e puro entretenimento, você terá seu desejo atendido, no entanto, se você quiser se aprofundar nos fatos descritos ali, terá que ler textos acadêmicos que corroboram ou não tal história e é justamente isso que torna os romances históricos fascinantes, vocês não têm compromisso com o fato e sim com uma boa forma de contar uma história.

 

Erich Maria Remarque
Em “Nada de Novo no Front” de Erich Maria Remarque, o protagonista descreve detalhadamente a vida nas trincheiras entre a Alemanha e a França onde os soldados de ambos os lados tinham que urinar em suas armas quando acabava a água do sistema de refrigeração - algumas armas deste período tinham uma especie de radiador - porque eles ficaram com sede e não havia onde conseguir água durante os sangrentos conflitos da primeira guerra mundial.

 

O autor viveu de perto os horrores desse conflito quando era um soldado do exército alemão e descreve detalhadamente todos os pormenores vividos pelos soldados nas trincheiras. Ou seja, neste caso temos um romance baseado em uma experiencia pessoal vivida pelo autor, em alguns momentos parece um diário, mas Maria Remarque é um romancista e estamos falando de uma obra de ficção, mas é a descrição mais realista que temos da vida nas trincheiras da primeira guerra mundial.

 

A conclusão é a seguinte. Os romances históricos não nos dizem o que realmente aconteceu, mas nos apresentam, na melhor das hipóteses, uma ideia do que poderia ter ocorrido e cabe aos historiadores se aprofundarem nos documentos históricos e corroborarem as versões apresentadas pelos romancistas ou negarem completamente. No final, mesmo que uma ideia apresentada por um autor seja descartada completamente pela ciência, o seu valor ainda permanece vivo como texto literário e literatura é sobretudo a arte de criar histórias que nos dizem algo sobre nós mesmos.

 

Diga ai o que você pensa. Você gosta de romances históricos? Tem algum para sugerir?

 




André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Lolita – A obra controversa de Vladimir Nabokov


Imagem André Stanley


Ficha técnica:
Livro: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Ano de Lançamento: 1955
País: EUA
Gênero: Romance Americano/Ficção

Trata-se de um clássico da literatura mundial, portanto, muito já foi escrito a respeito desse livro e muito ainda o será. Baseado nas resenhas jornalísticas e críticas sobre essa obra muitas pessoas se recusam a ler o livro, talvez por um pudor exacerbado, ou pelo desconforto que o enredo poderá gerar. É compreensível que se sintam assim, mas do outro lado da balnça está a privação a um romance altamente técnico e bem construído. O  fato de o autor, ter tratado das aventuras sexuais de um homem de meia idade com uma menina de 12 anos, com tamanha maestria parece absurdo. Ao mesmo tempo é compreensivel que a literatura conte histórias absurdas e chocantes.

A literatura como arte não serve – ou não deveria servir – à consolidação dos anseios sócias. Ela deve sim criar mundos. Criar histórias verossímeis para que cada leitor se aproprie desse mundo que de outra forma não conseguiriam ter contato. E a matéria prima da literatura é o próprio homem, e as relações que ele estabelece com os outros. Nesse sentido, Nabokov buscou suas fontes não no mundo que ele gostaria que existisse, mas no mundo que já existe. Sendo assim, o autor foi feliz em explorar uma faceta obscura do ser humano de forma realista. Quando digo realista, quero dizer que ele não se deixou levar pelo moralismo exacerbado de sua época e deu voz a um personagem patologicamente obscuro, com todos seus demônios interiores sendo expostos em primeira pessoa. Ao fim e ao cabo o que queremos definir como literatura? Um romance que constrange as regras sociais, ou um manual de bons costumes? Isso pode variar de leitor para leitor, e até mesmo entre os críticos poficionais, mas, a meu ver, a arte de contar histórias não deve se comprometer com a auto ajuda ou com um mero moralismo.

Sobre a obra, é preciso dizer que a narrativa é precisa, a genialidade de Nabokov é evidenciada a cada capítulo. As passagens mais geniais são uma sucessão de coincidências tragicômicas que marcam estrategicamente o enredo, dando uma dinâmica essencial ao desfecho de cada situação. Se trata de uma narração em primeira pessoa das memórias do professor universitário francês Humbert Humbert que vive nos EUA. Humbert se apaixona pela filha de sua anfitriã, uma garota de 12 anos. Paixão que vai levar o protagonista a fazer qualquer coisa para possuí-la. Sua conduta criminosa é narrada de forma crua e detalhada por ele próprio. Como se trata de suas memórias a respeito dessa paixão incontrolável que vai leva-los a uma viagem pelas estradas de alguns estados americanos, a história se assemelha a uma narrativa de viagem com a adção de fortes elementos subversivos. 

Em alguns momentos o narrador protagonista tenta justificar suas ações, como se estivesse conversando com o leitor, mas ele próprio não parece ter a intenção de se redimir de seus crimes, em várias passagens ele se auto intitula como um pervertido sexual. Com essa obra Nabokov introduz – ou pelo menos populariza – uma nova palavra ao dicionário de língua inglesa. O termo nymphet – traduzido para o português como ninfeta – é cunhado pelo narrador como um título que representaria a mulher precocemente preparada para desempenhar sua plena atividade sexual. No entanto, para a concepção pedófila do personagem de Nabokov esse adjetivo se aplica especificamente a meninas pré-adolescentes, pois o termo vai perdendo o sentido conforme elas envelhecem.

As questões sempre levantadas a cada uma de suas ações parecem ser: Será que Humbert é um doente que precisa de tratamento? Será que ele está simplesmente apaixonado? Ou será que ele é um monstro? O livro não se presa a responder essas questões, deixando ao leitor essas reflexões. Ou seja, se você está com receio de ler o livro devido as polemicas que ele levanta, saiba que esse não é um bom argumento, é importante conhecer, um pouco, de como funciona a cabeça de um criminoso, isso enriquecerá seu repertório de personagens que carregam mundos complexos dentro de si e que por isso nos fazem pensar sobre nós mesmos e nossas relações com os outros.




    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Visita Cruel do Tempo: Livro utiliza elementos da cultura punk e cria uma caótica história onde o tempo é o protagonista.


Ficha técnica:
Título: A Visita Cruel do Tempo
Autor (a): Jennifer Egan
Editora: Intrinseca
País de origem: EUA
Título original: A Visit from the Goon Squad
Lançado no Brasil: 2012
Gênero: Romance Americano/Ficção

Li esse livro duas vezes e ainda acho que poderia ler novamente para reviver cada momento desse caleidoscópio caótico criado pela autora. Jennifer Egan criou uma história forte com uma temática que interessa a todos depois de uma certa idade. Digo isso, pois não é um livro fácil. Mas te faz refletir sobre sua própria vida. Sobre o que já fez e o que ainda pode fazer.

A Visita Cruel do Tempo é uma obra que esbanja pós-modernidade, tanto na história que é bem contemporânea quanto na forma de escrever. Egan cria um set de personagens que não vivem diretamente uma mesma história, mas que sempre em algum momento de suas vidas entram em contato e dividem o mesmo espaço e tempo de forma direta ou indireta.

Em um capitulo inteiro Egan se utiliza de gráficos criados no “Power Point” que na história foram feitos por uma personagem infantil para explicar de forma simplista um momento chave de uma das protagonistas do livro, Sasha Blake. Ou seja, um livro de primeira qualidade e que certamente mereceu ter recebido o premio Pulitzer de ficção em 2011. Fazendo um paralelo com minha forma de escrever, sem querer me comparar a essa bela autora contemporânea, diria que também sou adepto dessa forma caótica e desconexa de criar histórias. 

Ainda não fui capaz de criar uma história retilínea com começo meio e fim. Prefiro o caos.

Esse romance desafia o leitor a construir a história em sua memória através de fragmentos perdidos no tempo vivido por pessoas diferentes que eventualmente se encontram. Por isso não leia-o apenas uma vez. Esse livro merece uma reflexão mais ampla e uma maior dedicação. Jennifer Egan o conduz por uma série de pontos de vistas e de historietas subjetivas para que você caro leitor consiga adicionar sua própria reflexão sobre a crueldade do tempo. 

Para isso Egan se utilizou de vários elementos da cultura pop e underground, como bandas punk tentando seu lugar ao sol, roqueiros decaídos tentando reviver suas carreiras. Mostra também alguns bastidores da industria fonográfica e também do jornalismo. Sintetizando, é uma obra verdadeiramente deslumbrante. O efeito inovador utilizado pela autora faz você sentir nostalgia por momentos vividos por certos personagens que sempre reaparecem vivendo algum outro fragmento de sua vida.

                                Jennifer Egan site ofical: http://jenniferegan.com/






André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.


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