sábado, 17 de fevereiro de 2018

Lady in red in the ocean


Ela sente o chamado do mar
Em vermelho sua paz alcança
O albatroz traz amargura a cena.
e a borboleta surge como uma lança



O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
Clarice Lispector

Lady in red in the dark forest



Ela não teme a escuridão, sua especialidade é usar a escuridão para exaltar sua beleza única. Um ponto de luz distante em uma casinha em ruínas é o suficiente para sua silhueta ser tão esbelta quanto ela quer. 

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

(Filme) A casa de Areia e de Névoa - O "bom selvagem" na "gaiola de ferro". (Resumo)




Versão resumida


Vemos uma jovem que por negligência não paga seus impostos patrimoniais e perde sua casa , enquanto outro homem se aproveita de sua displicência para comprar a casa por um preço bem abaixo do que ela realmente vale, para faturar no repasse. A garota fica judicialmente de mãos atadas, mesmo quando a prefeitura assume que errou na venda do imóvel. A trama se desenvolve neste clima de batalha judicial onde vamos nos identificando com cada um dos personagens que vão interagindo com os protagonistas. Não encontramos os vilões típicos de filmes americanos e por outro lado não vemos os mocinhos que surgem sempre como santos isentos de culpa. São personagens sobretudo humanos, como nós, que estamos do outro lado da tela. Daí me permiti uma outra analogia com o filosofo Jean Jacques Rousseau quando fala a respeito do “bom selvagem”. “ o ser humano é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”.



De um lado Behrane, que simboliza o indivíduo moldado pela cultura árabe, que busca uma aproximação com o capitalismo ocidental, entretanto sem se despir de seus conceitos religiosos. Do outro lado uma jovem inserida no mundo capitalista com todas as características pertinentes ao seu status. Divorciada, ex-alcoolatra, negligente com a burocracia de seu país. Ou seja um tipo de hedonismo tolerado pela democracia ocidental. Esta é a jovem Katty interpretada pela bela atriz Jennifer Connelly. Katty recebe uma ordem de despejo, já que esta não havia pago os impostos referentes à casa que herdara de seu pai. Como Katty nunca abria as correspondências que lhe eram entregues pelos correios, perdeu a oportunidade de recorrer contra esta decisão da justiça. A burocracia do município onde Katty mora se torna um instrumento legal para transformar-la em uma “sem teto”, da noite para o dia. Como na “gaiola de ferro” de Max Weber, Katty se vê impotente diante da máquina burocrática que rege sua vida.

Retire de Katty esta ânsia de se manter honrada. Retire de Behrane este mesmo elemento capitalista de ser um vencedor dentro do centro do capitalismo mundial, e não haveria razões para este trágico desfecho. O ser humano é o que é, segundo a sociedade que o molda. Esta máxima rousseauniana é o elemento chave desta obra.

A casa não passava de um simbolismo para a vaidade pessoal de cada um. Quando Katty encontra seu oponente morto ao lado de sua esposa depois de cometer suicídio ao saber da morte do filho, ela percebe a futilidade daquela casa que tanto desejava. Parece um final daqueles que nos querem deixar uma mensagem edificadora, mas é mais do que isto. É um filme que nos permite dialogar a respeito de nossa conduta social.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.


(Filme) A casa de Areia e de Névoa - O "bom selvagem" na "gaiola de ferro".



Nome: A Casa de Areia e de Nevoas 
Nome original: House of sand and fog
Direção: Vadim Perelman
Ano de produção: 2003
País: EUA


Ao assistir este filme não pude deixar de fazer uma analogia ao termo “gaiola de ferro” utilisado por Max Weber para definir o que acontecerá com a extrema burocratização do Estado. Pois vemos uma jovem que por negligência não paga seus impostos patrimoniais e perde sua casa , enquanto outro homem se aproveita de sua displicência para comprar a casa por um preço bem abaixo do que ela realmente vale, para faturar no repasse. A garota fica judicialmente de mãos atadas, mesmo quando a prefeitura assume que errou na venda do imóvel. A trama se desenvolve neste clima de batalha judicial onde vamos nos identificando com cada um dos personagens que vão interagindo com os protagonistas. Não encontramos os vilões típicos de filmes americanos e por outro lado não vemos os mocinhos que surgem sempre como santos isentos de culpa. São personagens sobretudo humanos, como nós, que estamos do outro lado da tela. Daí me permiti uma outra analogia com o filosofo Jean Jacques Rousseau quando fala a respeito do “bom selvagem”. “ o ser humano é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”. 

Esta obra retrata o conflito do indivíduo com as convenções que o tornam um ser social. O filme extrai da sociedade contemporânea dos EUA, duas vidas distintas, traçando assim um paralelo entre duas culturas diferentes. Cada uma delas moldada ao longo da história por convenções inerentes ao seu sistema social.

De um lado Behrane, que simboliza o indivíduo moldado pela cultura árabe, que busca uma aproximação com o capitalismo ocidental, entretanto sem se despir de seus conceitos religiosos. Do outro lado uma jovem inserida no mundo capitalista com todas as características pertinentes ao seu status. Divorciada, ex-alcoolatra, negligente com a burocracia de seu país. Ou seja um tipo de hedonismo tolerado pela democracia ocidental. Esta é a jovem Katty interpretada pela bela atriz Jennifer Connelly. Katty recebe uma ordem de despejo, já que esta não havia pago os impostos referentes à casa que herdara de seu pai. Como Katty nunca abria as correspondências que lhe eram entregues pelos correios, perdeu a oportunidade de recorrer contra esta decisão da justiça. A burocracia do município onde Katty mora se torna um instrumento legal para transformar-la em uma “sem teto”, da noite para o dia. Como na “gaiola de ferro” de Max Weber, Katty se vê impotente diante da máquina burocrática que rege sua vida.



É neste momento da trama que a vida dos dois indivíduos citados acima vão se cruzar. Behrane, o Coronel iraniano que tem cidadania norte-americana se utilizando de suas últimas economias, compra uma casa leiloada pelo município. Esta é a mesma casa tomada de Katty pelo município. Esta casa neste momento é um instrumento de que os dois precisam para manter as aparências. Mesmo depois de ter conseguido que o município assumisse o erro no processo de venda daquele imóvel e oferecer pagar o ao comprador o mesmo valor que este pagou pela casa, Katty encontra um grande empecilho. O coronel Behrane se mostra inflexível à proposta do município e só aceita vender a casa por um preço quatro vezes maior. Ou seja Behrane deseja a casa sobretudo como investimento para obter um bom lucro com a venda desta, assim mantém seu status de imigrante que prosperou na América. Aliás vemos em todo o filme que esta é a bandeira empunhada por Behrane. Katty por sua vez olhava para aquela casa como um troféu familiar, pois seu pai havia lutado muito para conseguir comprar aquela casa e deixa-la de herança, e em pouco tempo ela perde este que é o seu maior bem. Vemos uma questão de honra tanto para Katty, quanto para Behrane, em termos diferentes. Mas em ambos os casos o intuito é manter as aparências. 


Notamos que os fatores externos que a sociedade agregou a estes dois indivíduos são preponderantes no empasse que enfrentaram neste momento. Empasse que será o estopim de uma verdadeira “tragédia grega”, onde mais uma vez as convenções convencionais serão responsáveis pelo desfecho trágico da trama. Além do aspecto burocrático que nos remete aos textos de Weber, que afirma que com a extrema burocratização do Estado este tende a se fechar em uma “gaiola de ferro”, algo também pode ser análogo à teoria de Rousseau sobre o “bom selvagem”. Na última cena podemos notar com mais nitidez que praticamente todos os personagens desta trama possuem o que podemos chamar de boa índole. A humanidade escondida por detrás dos atos impiedosos que estes praticam uns aos outros é desnudada com o remorso que cada um expressa ao termino do filme. Vemos ali suas fraquezas humanas, e até nos identificamos com elas. O pai que abandona sua família para viver com outra, o ex-militar fugido de seu país que violenta sua esposa em nome de sua honra doentia, o envolvimento com álcool, a tentativa de resolver tudo por intermédio da força, são todos estes, elementos que nos pertencem, e parecem ser inerentes à sociedade moderna. Notamos no final do filme pessoas que praticaram atos desleais e desnecessários com outras pessoas, mas que nunca moveriam uma palha para prejudicarem alguém se não fosse a necessidade de manterem suas aparências mediante as convenções sociais que tem por verdades. 



Retire de Katty esta ânsia de se manter honrada. Retire de Behrane este mesmo elemento capitalista de ser um vencedor dentro do centro do capitalismo mundial, e não haveria razões para este trágico desfecho. O ser humano é o que é, segundo a sociedade que o molda. Esta máxima rousseauniana é o elemento chave desta obra. Ao notarmos que estas pessoas só são más quando inseridas nos conflitos sociais que diariamente travam para manterem suas aparências em uma sociedade onde a razão de viver esta no quanto podemos parecer bem-sucedidos, também vemos que naturalmente não passam de pais amáveis, que buscam o melhor para seus filhos, mesmo que em detrimento de si próprio, ou alguém que busca se livrar do vício do álcool para melhorar a qualidade de vida, um homem que é respeitado como excelente policial. Mas a obra ainda possui muitos elementos a serem refletidos, pelo espectador. 

Este filme nos permite uma série de constatações a respeito dos mecanismos que regem a sociedade que por sua vez rege a vida dos indivíduos. O roteiro é elaborado através de fatos cotidianos dos personagens envolvido na trama. Este drama nos mostra muitos pontos que nos permite indagações a respeito da alienação social da qual somos parte. O titulo, um tanto abstrato só poderá ser compreendido após o término do filme. Quando nota-se que a casa foi o embrião de todo aquele trágico desfecho. A casa na verdade era um instrumento de que os dois protagonistas precisavam para manterem suas aparências mediante a sociedade. Não passava de um simbolismo para a vaidade pessoal de cada um. Quando Katty encontra seu oponente morto ao lado de sua esposa depois de cometer suicídio ao saber da morte do filho, ela percebe a futilidade daquela casa que tanto desejava. Parece um final daqueles que nos querem deixar uma mensagem edificadora, mas é mais do que isto. É um filme que nos permite dialogar a respeito de nossa conduta social.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.






domingo, 11 de fevereiro de 2018

(Filme) Camille Claudel






Filme: Camile Caudel
Nome original: Camille Claudel
Direção: Bruno Nuytten
Produção: Bernard Marescot
Roteiro: Bruno Nuytten e Marilyn Goldin
Direção de fotografia: Pierre Lhomme
Ano de lançamento: 1988



A história daquela que é considerada por muitos a mais criativa escultora francesa de todos os tempos esta repleta de indagações a respeito da arte, da loucura e da sociedade francesa do final do século XIX. Camille Claudel teve uma vida conturbada. Em uma sociedade conservadora, a França da virada do século XIX para o XX, uma mulher de caráter libertário se expressa através da arte. Não bastasse ser incomum uma mulher apostar em uma carreira artística, Camille Claudel optou por uma arte que não era condizente com a feminilidade. A escultura era vista como uma arte de prática bruta, onde necessitava de manipular instrumentos de características masculinas como o formão e o martelo. Camille nunca se sentia constrangida por praticar arte tão robusta. E tinha total apoio do pai que fez de tudo para consagrar a carreira da filha. O mesmo empenho não foi mostrado pela mãe que ao contrário odiava a filha por suas praticas “subversivas”. Este paradoxo familiar perseguiu Camille por toda sua vida.

Seu irmão casula Paul Claudel, tinha fixação pela irmã, que o iniciou nas suas leituras. Paul Claudel se tornou mais tarde um escritor respeitado, principalmente no meio católico, religião que abraçou com vigor aos trinta e poucos anos. O filme mostra esta conversão em um diálogo com Camille. O fato mais marcante da carreira e também da vida de Camille Claudel, foi seu romance com o maior escultor francês de todos os tempos, Auguste Rodin. Este era mais conhecido pelos seus casos amorosos. Rodin certamente influenciou Camille como escultora mas como o próprio Rodin disse em uma cena “eu apenas mostrei o caminho, o que ela tem agora é dela mesma”. Este caso de Camille com Rodin , que já era casado acirrou ainda mais a hostilidade da mãe em relação a Camille. Hostilidade que conduzira Camille ao asilo que veio a morrer em 1942.

Camille desenvolveu uma paranoia constante que ira leva-la a perder o controle de sua vida. Alegava sempre estar sendo perseguida pelos homens de Rodin que queriam roubar suas obras, chagando ao ápice de destruir grande parte de suas esculturas em uma crise de loucura, fato que certamente privou a humanidade de muitas obras magníficas. Passou a ficar cada vez mais confinada dentro de seu ateliê para que pudesse tomar conta de seus pertences, se recusava a se pronunciar publicamente e até mesmo pregou as janelas com tábuas para impedir a visão interna de seu ateliê. Esta paranoia foi crescendo, pois cada vez menos Paul a visitava, pois este exercia sua carreira de diplomata viajando por todo o mundo. De sua mãe Camille nunca poderia esperar nada de afetivo. Seu pai já não gozava mais de seu vigor físico e intelectual para protege-la, e para piorar a situação da escultora, seu pai veio a falecer. Camille está totalmente perdida em sua loucura. Ao irmão e a mãe só resta uma atitude. Confinar Camille em um asilo para doentes mentais. 

Foram 30 anos de internação onde Camille nunca mais esculpiu novamente. Esta obra mostra uma mulher de família burguesa que se manifestou no mundo da arte em um época onde isto era um fato extraordinário para uma mulher. Tinha vocação desde criança pra a arte da escultura e o pai que a amava a apoiou desde o principio. No entanto, foi vítima de uma doença psiquiátrica que a levou ao isolamento. Sobre o seu estado psíquico, não ha evidencias do garu de alucinação a que chegou essa escultora, mas seu problema hoje em dia seria visto como uma excentricidade e talvez não seria motivo para uma internação. O filme faz um recorte da fase criativa de Camille e não foca em seu claustro. 


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.





quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O que é Aculturação? Como pesquisar e entender o choque entre culturas utilizando o conceito de Aculturação.

Créditos: Imagem extraída do google imagens



Entendendo o termo Aculturação dentro da abordagem de Nathan Wachtel


A "Aculturação" se tornou um termo muito utilizado na antropologia e na sociologia, mas também muito recorrente em história, principalmente quando se trata do período colonial, onde temos geralmente uma cultura subjugada por uma cultura dominante. No entanto, seria muito simplista dizer que a aculturação diz respeito apenas a esta forma de dominação. Falar de aculturação em história chega a ser quase uma intervenção filosófica, tamanha a complexidade léxica desse conceito. O termo aculturação tem a função de conceituar o processo resultante do contato entre duas ou mais culturas. No entanto, esse processo nunca segue uma regra geral, ou seja, não há um conceito de aculturação que se encerra em si mesmo. 



Natan Wchtel - imagem divulgação

Os primeiros estudos de aculturação tinham em voga o período colonial e havia uma conotação evolutiva nesse termo, ou seja, esboçava a ideia de uma supremacia da cultura européia. Sendo que o adjetivo “aculturado” significava claramente “evoluído” evocando a ideia de que o processo de aculturação correspondia a um progresso da sociedade dirigindo-se a um modelo ocidental. Essa noção de aculturação está evidentemente superada. Como observa Nathan Wachtel:

Com efeito, a aculturação não se reduz a uma única marcha, à simples passagem da cultura indígena à cultura ocidental; existe um processo inverso, pelo qual a cultura indígena integra os elementos europeus sem perder suas características originais. Essa dupla polaridade confirma que a aculturação não pode ser reduzida à difusão, no espaço e no tempo, de traços culturais arbitrariamente isolados: trata-se de um fenômeno global que compromete toda a sociedade.  (WACHTEL, 1976 ,p 114)
            Ainda que a noção - nos dizeres de Nathan Wachtel  -  “conserve de sua origem colonial duas características complementares: uma interna, a heterogeneidade das culturas em presença, outra externa, a dominação de uma pela outra.”(WACHTEL 1976, p. 114). Wachtel ainda sugere que essas duas noções devem ser consideradas e deve ser aplicada na pesquisa sobre aculturação para depois termos elementos nos quais possamos fazer alguma generalização, no entanto, o próprio autor desmistifica tal abordagem dizendo que:

Mesmo se limitarmos a aculturação ao campo restrito da situação colonial, a extrema complexidade de processos e resultados parece, contudo, desafiar toda tentativa de generalização: nada mais arbitrário que isolar uma seqüência ou uma evolução que é declarada válida para todos os casos. Tantos quanto forem os exemplos concretos, tantas serão as aculturações diferentes.  (WACHTEL, 1976, p. 114)


            Sendo assim para cada abordagem sobre aculturação, um método deve ser utilizado caso não haja nenhum modelo na literatura, deve-se realmente criar uma metodologia. Wachtel estudou a fundo a dominação espanhola na América e para ele a aculturação pode ser imposta, ou espontânea. A primeira é quando a dominação estrangeira se dá de forma completa, no campo político, econômico e religioso, esse sistema é baseado na violência. A cultura dominante se impõe em detrimento da cultura dominada. Já a aculturação espontânea ocorre através de contatos comercias e pacíficos.
Ainda considerando os diversos fenômenos de aculturação, podemos distinguir uma outra divisão no seu processo. Trata-se – ainda usando Wachtel – da “integração” e no pólo oposto a “assimilação”: “No processo de integração os modos de uma cultura estrangeira são incorporados pela cultura dominada, que por sua vez modela esses elementos de acordos com seus próprios meios de vida. Wachtel nos dá um exemplo ao abordar a dominação espanhola da America:

Os elementos estranhos são incorporados ao sistema indígena que os submete a seus próprios esquemas e categorias; e mesmo se provocam mudanças no conjunto da sociedade, essa reorganização adquire sentido no interior dos modelos e valores autóctones ... Os navajos representam o caso clássico de uma sociedade constantemente enriquecida por contribuições exteriores, livremente selecionadas; originalmente caçadores –coletores e seminômades, receberam de seu contato com os pueblos determinados elementos de agricultura que favoreceram uma relativa estabilização de seu habitat (exemplo original de aculturação entre sociedades indígenas, mas de tipos diferentes).   ( WACHTEL, 1976, p. 118)


            Já no processo de assimilação ocorre o inverso, os elementos da cultura dominante substituem os elementos tradicionais dos seus dominados, por exemplo:

A adoção de elementos europeus se acompanha da eliminação das tradições indígenas, submetendo-se aos modelos e aos valores da sociedade dominante; ao final dessa evolução, a identidade étnica se dissolve nas variantes da cultura ocidental. (WACHTEL, 1976, p. 118)


Mas, o complexo de elementos contidos no tema, aculturação não param por aí. Entre assimilação e integração podem ser identificados outros tipos intermediários de aculturação. “É o caso de diversos sincretismos, combinações de elementos saídos de culturas diferentes, mas que dão lugar a um novo sistema ordenado segundo princípios distintos daqueles que regiam os sistemas de origem. No entanto não podemos pensar que esses diversos elementos de aculturação: integração, assimilação, sincretismo, disjunção, etc, são processos únicos de uma determinada sociedade, muitas vezes são processos que se alternam dentro de uma mesma sociedade. A estabilidade cultural dentro de uma sociedade que sofreu algum tipo de aculturação não segue, entretanto, uma lei linear que vai da integração á assimilação passando necessariamente por suas intermediárias, tudo depende de suas raízes intrínsecas, ou seja, cada sociedade ou sistema cultural definirá o que introduzir, assimilar ou rejeitar.
             Temos condições nesse momento de definir alguns pontos conclusivos para o uso do conceito de aculturação em uma pesquisa sobre história. Primeiro, comparar os elementos pertinentes ao objetivo da pesquisa, com a noção de colonialismo nos termos de Nathan Wachtel – cultura dominante, cultura dominada. Segundo, identificar através da bibliografia especializada - mesmo que seja na área de sociologia - o processo pelo qual a aculturação se dá - de forma espontânea, ou imposta. Terceiro, como é concretizada a aculturação, ou seja, como é feita a assimilação ou integração de novos elementos culturais na sociedade pesquisada, como são abandonados os elementos tradicionais dessa sociedade -  para essa etapa da pesquisa acho importante a utilização de fontes orais, já que são os membros dessa sociedade que participaram e participam do processo descrito. Quarto, já que se trata de uma aculturação contemporânea, onde quem vive esse processo é minha própria geração, é necessário inserir esses elementos dentro da ótica da modernidade, onde não será possível fugir á termos como, globalização, modernização, multiculturalismo dentre outros.     

Fontes:

  • Natan Wachtel - História e Antropologia de uma America "subterrânea". Disponível em: PDF  http://www.scielo.br/pdf/sant/v4n1/2238-3875-sant-04-01-0259.pdf. Acesso em 25 de dezembro de 2017. 
  • WACHTEL, Nathan. A aculturação. In: História: novos problemas. Direção de Jacques Le Goff e Pierre Nora, tradução de Theo Santiago. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976.  


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.




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