quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem (Resumo)

Don Juan y l'estatua del Comendador.

Versão Resumida
Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina.


O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.
Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
O Don Juan de Molina não é um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. 
A figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. 

O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.
O mito de Don Juan se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.

Leia o artigo completo AQUI

Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem







Don Juan y l'estatua del Comendador.

Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina. A escolha da obra em questão está em sintonia com um recorte temporal e temático, que não visa esgotar as reflexões sobre o tema em épocas e contextos diferentes.
O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.

O protagonismo social do homem na obra de Molina
Tirso de Molina

Para analisarmos a obra devemos entender um pouco sobre seu autor. Tirso de Molina era o pseudônimo de Gabriel Téllez, um frei católico abertamente entusiasta de Lope de Vega. Se destacou na dramaturgia escrevendo peças que tinham sempre a defesa da moral cristã como pano de fundo. Ele teria escrito “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” em 1630. Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
Nosso foco, no entanto, é a obra original de Molina, considerando-a como fundadora do mito de Don Juan para a posteridade. Em “El Burlador de Sevilla” Don Juan é um protagonista caricato, sem compromisso com a visão romântica que chegou até nós pelas mãos do poeta britânico Lord Byron. O Don Juan de Molina é um personagem que está estreitamente em sintonia com sua condição privilegiada de um homem com influência na sociedade de Sevilha do século XVII. Sua performance não é de um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. Como podemos notar no verso 1315 da peça.

Sevilla a voces me llama
el burlador, y el mayor
gusto que en mí puede haber
es burlar una mujer
y dejarla sin honor.
(MOLINA, p.35)

Já no início da obra, Don Juan acobertado pela escuridão de um aposento, engana a Duquesa Isabela fingindo ser Duque Octavio, o homem que desejava se casar com ela. Neste episódio, o próprio Duque é preso injustamente pelo ato praticado por Don Juan. Em uma outra oportunidade, Don Juan sofre um naufrágio e é ajudado por uma pescadora de nome Tisbea. Don Juan a seduz e oferece amor eterno e, a pede em casamento, em seguida abandona-a para que viva completamente sem honra. Durante uma conversa com seu amigo, o Marques de Motta, Don Juan descobre que este está apaixonado por sua prima Doña Ana, o burlador não perde a oportunidade de tramar para se aproveitar da bela dama, no entanto, nessa ocasião, Don Juan é impedido pelo pai da vítima, Don Gonzalo, que é morto pelo burlador em uma luta. Isso não o detém, e vai em busca de outra vítima. Aminta é uma lavradora que já estava prometida a Batrício, Don Juan a engana dizendo que seu noivo a abandonara e que ele se casaria com ela.
Como podemos notar, a figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. Sobre isso Paulo Victo Bezerra e José Sterza Justo, ambos da área da psicologia dirão:

[...]são sempre figuras masculinas que protagonizam os diálogos resolutivos. A honra da mulher burlada é apresentada como um problema masculino, no sentido de que, uma vez tirada a honra, é o pai, ou o marido que sofre a degradação social. O grande drama nesse caso é que a mulher ficará imprestável para se casar. E não podemos deixar de enfatizar que foi por isso que Don Juan foi levado ao inferno primeiramente: porque Don Gonzalo tinha a obrigação moral de duelar com aquele que lhe ofendera a honra ao tentar cortejar sua filha. (BEZERRA, JUSTO, 2010, p.6).

O que fica evidente ao analisar essa peça, com o conforto de mais de 300 anos de história ocorridos desde então é a incapacidade das mulheres se emanciparem dentro da rigidez religiosa daquela sociedade. O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.

O contexto social da obra.
Don Juan and Haidee- Alexandre Marie Colin

Podemos notar que Don Juan se comportava como um predador, e essa forma de agir é o que dá o tom didático da peça. A honra (honor), como questão de status social, era muito cara para o espanhol do século XVII. E a mulher sem honra não se casaria, sua desonra afetaria toda sua família e sua reputação a condenaria a viver uma vida marginal, seja ela uma nobre ou uma lavradora. Ou seja, mais importante do que o que você é, é a forma como a sociedade te enxerga.  A honra é um elemento fundamental para a vida, pois entre viver uma vida sem honra (honor) e a morte, a segunda opção sempre parecerá mais atrativa. Isso fica evidente no verso 1590.

¡Ay, que me has dado la muerte! ........... .
Mas, si el honor me quitaste,
¿de qué la vida servía?
(MOLINA, p. 43)

Nessa ocasião, Don Gonzalo está agonizando após ser atingido de morte por Don Juan, ao enfrentar o burlador em defesa de sua filha Doña Ana.
Parece-nos claro que a questão primordial para Molina, era efetivar a honra como elemento crucial para a vida em sociedade, uma clara medida de valor que deve ser buscada. No entanto, o que vem a luz em nossa reflexão é o fato de que eram as ações dos homens que definiam a honra das mulheres, enquanto uma mulher desonrada sofreria as mais deprimentes consequências sociais, o mesmo não parecia ocorrer aos homens que as desonravam.
O próprio Don Juan não acreditava que seria punido – ou pelo menos não tão em breve – afinal ele nunca se mostrava cauteloso em suas práticas de burla. Apesar de sempre ser advertido por seu pai e até mesmo pelo seu criado Catalinon. Em várias ocasiões ele simplesmente respondia com sua frase mais celebre: “¡Qué largo me lo fiáis!” (Ainda  uma expressão que expressa sua indiferença em relação a seus atos presentes, pois ainda há muitos anos para ele pensar em se arrepender.
Nesse sentido, a condenação do protagonista ao inferno, é o desfecho que parecia natural desde o início da trama, afinal o propósito de Molina se mostra claro. Mesmo que você viva impune pelas leis dos homens, jamais será negligenciado pelas leis divinas. Dessa forma Don Juan paga o preço pretendido pelo catolicismo, pois é diretamente encaminhado para o inferno sem nem mesmo passar pelo purgatório. Ou seja, á Don Juan nem mesmo é dada a alternativa de se arrepender, como poderiam pretender os adeptos da reforma protestante de Martinho Lutero que à época era motivo de preocupação para os católicos – esse aspecto revela o caráter antirreformista da obra.
As mulheres enganadas por Don Juan são perdoadas ao final do espetáculo e recuperam sua honra, mas, mais uma vez, não mediante sua própria capacidade de lutar por isso, mas porque os homens assim o fizeram. Nesse sentido a obra de Molina perpetua o protagonismo social do homem como sujeito de ação, enquanto a mulher é o objeto que sempre sofre a ação.

Considerações finais.
As mulheres burladas pelo protagonista desempenhavam papéis secundários naquela sociedade, e sua total submissão ao domínio masculino permitiu que Don Juan desempenhasse suas práticas. Don Juan agia movido simplesmente pelo desejo de burla. Todas os seus atos não tinham um propósito que não fosse o de enganar mais uma vítima. Nesse diálogo entre Don Juan e seu criado Catalinon, o burlador é claro:

CATALINON: ¿Al fin pretendes gozar a Tisbea? (890)
JUAN: ..............                .Si el burlar es hábito antiguo mío,
¿qué me preguntas, sabiendo mi condición?
CATALINON: ..........      Ya sé que eres castigo de las mujeres.
(MOLINA, p. 24)

No entanto, todo o contexto social vivido por Don Juan lhe dava certo conforto. Don Juan era aparentado de pessoas influentes na corte espanhola e desfrutava de toda regalia de um nobre. Por outro lado, a passividade feminina na obra, demonstra com clareza, a total dependência destas em relação aos homens. Afinal não foi dada a nenhuma delas a prerrogativa de se vingar do burlador. Quem defendia e se via socialmente no dever de vinga-las eram seus familiares homens.
O mito de Don Juan se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra. O que a adaptação de Byron revela não é somente uma transformação estética, mas sim uma necessidade de equiparar a mulher e o homem no campo da paixão. Agora Don Juan também poderia ser vítima da beleza feminina. Visão esta, que era impossível na época de Molina e que no século XIX timidamente já encontrava seus algozes dentro do movimento romântico, e no século XX iria se amplificar com os movimentos de emancipação feministas.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.


Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.

André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A psicanalise contida no conto de Simbad. (Segundo Bruno Betthelheim)



Bruno Betthelheim em sua obra mais clássica A psicanalise dos Contos de Fadas, dedica um capitulo de seu livro à explicar o significado do conto Simbad e o marujo. Começa o capítulo explicando sobre os vários títulos encontrados para nomear essa mesma estória. Diz que as pessoas que se propuseram a fazer essas modificações se atentaram para o que há de fantástico e maravilhoso na estória e não se atentaram aos aspectos psicológicos que está muito claramente explicito no título original – Simbad o marujo e Simbad o carregador.

Esse título indica que se trata de características opostas de uma mesma pessoa, faz uma possível relação com o conceito freudiano de ID e Ego. Depois pergunta:

“O dono desse lugar convive com todos os prazeres da vida e se delicia com perfumes agradáveis, comidas excêntricas e vinhos exóticos... Enquanto outros suportam o máximo de trabalho...como eu” (BETTELHEIM, 1980, p. 106).

“Por que o conto de fadas consiste de sete partes e por que os dois protagonistas se separam todo dia para se reunir no dia seguinte? ” (BETTELHEIM,1980, p.106)

Ele responde dizendo que o número sete é bem recorrente nos contos de fadas pois cada dia representa um dia da semana, e também é um símbolo de cada dia de nossas vidas. E a história parece contar que conforme vivemos há dois aspectos diferentes e pertinentes a cada um de nós. Os dois Simbads são na verdade personificações distintas da mesma pessoa.

Ao analisar a estória, que é parte integrante dos contos das 1001 noites, Bettelheim, diz que o próprio ato de contar estórias de contos de fadas é muito ligado a um fator terapêutico. Sherazade consegue se manter viva diante da ira de um rei que odiava as mulheres por que o manteve curioso o bastante para sempre querer ouvir o restante da estória, e com isso acaba por libertar o próprio rei de sua ira doentia.

“De acordo com a estória básica, os dois protagonistas, um homem e uma mulher, se encontram na maior crise de suas vidas; p rei desgostoso da vida e cheio de [ódio pelas mulheres, Sherazade temendo por sua vida, mas determinada a conseguir a libertação dele e dela. Ela atinge sua meta através da narrativa de muitos contos de fadas; uma única estória não poderia realiza-lo, pois, nossos problemas psicológicos são demasiados complexos e de solução difícil. Só uma grande variedade de contos de fadas poderia fornecer o ímpeto para tal catarse” (BETTELHEIM,1980, p,110).

Ou seja, “são precisos quase 3 anos de narração continua de contos de fadas para tirar o rei de sua depressão profunda" (BETTELHEIM, 1980, p.110), encontramos ai um paralelo com a psicanalise de Freud, é necessário anos de analise para que o analisado possa conseguir entender e eventualmente se livrar de seus problemas psicológicos.

“deveríamos lembrar que na medicina hindu – e ciclo de mil e uma noites é de origem hindu-persa- a pessoa mentalmente perturbada ouve uma estória de fadas cuja, meditação a ajudará a vencer sua perturbação emocional” (BETTELHEIM,1980, p.110).

Outro nível de significado que esse conto nos proporciona seria considerar os protagonistas dessa estória como representações conflitantes que ocorrem dentro de nós.

“O rei simboliza uma pessoa completamente dominada por seu Id, porque seu ego, devido a fortes decepções na vida perdeu a força para manter o id dentro dos limites. Afinal atarefa do ego é proteger-nos contra a perda devastadora, que na estória é simbolizada pela circunstância do rei ter sido traído sexualmente, se o ego não consegue fazê-lo perde seu poder de guiar nossas vidas (BETTELHEIM, 1980, p.110).

Sobre o significado atribuído a outra protagonista da história o autor diz:


“Sherazade representa o ego como é claramente sugerido pela informação de que ‘ela colecionara mil livros de crônicas de pessoas antigas e poetas passados. Além disso ela lera livros de ciência e medicina; sua memória estava cheia de versos, estórias, folclore e dos ditos de reis e sábios e ela era sábia, espirituosa e de boa formação.’ – uma enumeração exaustiva de atributos do ego. Assim o id descontrolado (o rei) através de um longo processo elaborativo torna-se finalmente civilizado pelo impacto de uma encarnação do ego. Mas é um ego muito dominado pelo superego tanto que Sherazade está determinada a arriscar sua vida (BETTELHEIM, 1980, p.p. 110,111).


Nesse trecho podemos notar que esse conto corresponde com a premissa estabelecida pelo autor de que o conto de fada é importante para o desenvolvimento psicológico da criança, pois não procura esconder dela elementos que são inerentes a condição humana, como a morte e a traição, que são recorrentes na história.


“Não pode haver maior testemunho do poder de todos os contos de fadas para mudar nossa personalidade do que o final desse conto único. A estória básica das ml e uma noites, o ódio assassino é transformado em amor duradouro (BETTELHEIM. 1980, p.111).


Segundo o autor essa integração amorosa entre Sherazade que declara seu amor ao rei no final do conto e o rei faz o mesmo á Sherazade, mostra exatamente o que psicanálise tenta assegurar como uma forma saudável de se viver. Afinal temos tendências contraditórias dentro de nós e sempre nos perguntamos para qual lado devemos seguir. A estória de Sherazade e o rei assassino mostra que devemos fazer uma integração dessas tendências dentro de nós amenizando os aspectos destrutivos de nossa vida psicológica.

Fonte:

BETTELHEIM, Bruno. A psicanalise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

El Cid - A literatura Medieval traduzida para a linguagem hollywoodiana. (Resumo)

Poster do filme El Cid de 1961
Versão Resumida

O objetivo desse artigo é analisar o filme “El Cid”, do cineasta norte-americano Anthony Mann lançado em 1961, comparando-o com o poema medieval, “Cantar de Mio Cid” o qual, a obra cinematográfica em questão traduziu para a linguagem cinematográfica. O texto que conhecemos como o “Cantar de Mio Cid” data de 1207 quando foi transcrita por um copista chamado Per Abbat provavelmente baseando-se em escritos anteriores. Não há informações sobre quem é o verdadeiro autor do poema, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição de poemas populares que eram cantados por poetas que o recitavam desde tempos mais remotos. Esta é considerada a obra fundadora da literatura de língua espanhola. 

Podemos declarar simplisticamente que o filme de Anthony Mann se trata de uma versão romanceada do poema medieval que conta a história das conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz que recebeu a alcunha de El Cid Campeador. 


A linguagem cinematográfica, no entanto, desfigura uma premissa medieval muito clara no poema, onde a mulher é praticamente uma possessão de seu marido tendo que ficar confinada longe dos olhares alheios enquanto seu marido sai a guerrear por aí. A figura de Dona Jimena, esposa de Don Rodrigo, na obra literária é secundária não tendo uma utilidade marcante como o filme veio a mostrar. Sophia Loren como a interprete de Jimena no filme, já nos dá a dica de que ela será quase uma protagonista, e assim o é. Afinal de contas, ao contar uma história medieval para um público contemporâneo sem conhecimento histórico suficiente para entender a mentalidade da época não é tarefa fácil.

A transposição da lenda de El Cid para o cinema, como era de se esperar, sofrera uma transfiguração, que eu chamaria de adequação temporal, introduzindo um elemento caro ao homem do século XX que pensa o casamento como a realização de um ideal romântico, onde duas pessoas que se apaixonam se buscam e não conseguem viver um sem o outro. 

É uma produção grandiloquente, com cenas épicas de batalhas e duelos entre cavaleiros, tem um protagonista com uma índole superior, representando tudo o que de mais virtuoso há em um homem comprometido co sua honra e seu temor à Deus. Sua bela esposa Jimena representa a mulher ideal sonhada por qualquer homem do século XX. Há também antagonistas caricatos como o rei mouro que pretende ser o senhor de todos os reinos muçulmanos e é sempre representado de preto e com o rosto semicoberto. Mostra a ascenção de um rei Alfonso frágil e dependente de El Cid. Com todos esses elementos, temos um enredo que se distancia do histórico e nos aproxima do que idealizamos como sendo uma época heroica e romântica, onde o antagonismo entre o bem e o mal era bem definido. Onde a prevalência da honra e da moral deve ser o objetivo final.


Leia o artigo completo AQUI

Fontes:

  • Cantar de Mio Cid - PDF domínio Público disponível em: http://www.biblioteca.org.ar/libros/200138.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2017.
  • Cantar de Mio Cid (POema de Mio Cid), audio libro - Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lA-_7U3pFxQ. Acesso em: 20 de Julho de 2017.
  • El Cid. Direção: Anthony Mann. Produção: Samuel Bronston Productions em associação com Dear Film Production. Itália/EUA, 1961, cor, 182 min. Lançado por: Allied Artists Pictures Corporation.
  • Montaner, A. El Cantar de Mio Cid. Real Academia Española. FUndación José Antonio de Castro, Madrid.
  • Vernon Johns Society, The El Cid(1961). Disponível em: http://www.vernonjohns.org/snuffy1186/elcid.html. Acesso em: 20 de julho de 2017.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

El Cid - A literatura Medieval traduzida para a linguagem hollywoodiana.

Poster do filme El Cid de 1961


O objetivo desse artigo é analisar o filme “El Cid”, do cineasta norte-americano Anthony Mann lançado em 1961, comparando-o com o poema medieval, “Cantar de Mio Cid” o qual, a obra cinematográfica em questão traduziu para a linguagem cinematográfica. O texto que conhecemos como o “Cantar de Mio Cid” data de 1207 quando foi transcrita por um copista chamado Per Abbat provavelmente baseando-se em escritos anteriores. Não há informações sobre quem é o verdadeiro autor do poema, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição de poemas populares que eram cantados por poetas que o recitavam desde tempos mais remotos. Esta é considerada a obra fundadora da literatura de língua espanhola. 

Podemos declarar simplisticamente que o filme de Anthony Mann se trata de uma versão romanceada do poema medieval que conta a história das conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz que recebeu a alcunha de El Cid Campeador. El Cid foi uma figura histórica que realmente existiu e é talvez o herói máximo da unificação da Espanha cristã no século XIII. O poema trata das últimas campanhas militares de El Cid que culminou com a conquista – ou reconquista – de diversos territórios que se encontravam sob domínio mouro há séculos. O manuscrito transcrito por Abbat mostra um cavaleiro medieval clássico, forte, valente, piedoso, fiel. Ou seja, catalizador das maiores virtudes atribuídas e esperadas de um guerreiro medieval cristão. 

O filme de Mann também procura munir seu protagonista com esses mesmos atributos. Como por exemplo na cena em que El Cid se oferece ao seu rei Fernando I de Leão, para duelar com o campeão de um reino com o qual disputava territórios. Na ocasião o campeão do rei Fernando I, havia rechaçado o pai de Don Rodrigo em público e diante da recusa de um pedido de perdão implorada por El Cid, ele é morto pela espada do campeador. No discurso de oferecimento de seus serviços ao rei que não acreditava na capacidade de El Cid, em duelar com um campeão que já havia matado 27 cavaleiros em duelo corpo a corpo. El Cid se oferece, pois, fora ele próprio que deixara o rei sem seu campeão e que estava agora se colocando a serviço do rei para limpar sua imagem diante da corte onde o estavam acusando de traição. El Cid declara: “ Deixe-me agora oferecer-me diante de sua alteza, se eu for culpado Deus direcionará a espada de Don Martin direto para meu coração, se eu for inocente Ele será meu escudo”. A cena mostra um homem corajoso colocando sua vida em risco em nome de sua honra e colocando seu destino na mão de seu Deus. 

O filme também retrata a aliança que El Cid esporadicamente fazia com alguns líderes mouros para lutar contra reinos que lhes eram mutuamente inimigos. Essa faceta do campeador é um ponto em comum com o poema medieval que retrata suas amizades com alguns mouros, algo que não ocorria por exemplo com os judeus. 

O poema, no entanto, começa a narrar a história após o exílio de El Cid proclamado pelo rei Alfonso VI, filho de Fernando I que ao morrer dividiu seu reino entre seus filhos. Na ocasião Alfonso sobe ao poder depois da morte de seu irmão Sancho que queria reunificar os reinos de seu pai novamente e tinha em Don Rodrigo um forte aliado. Don Rodrigo exige que Alfonso antes de ser coroado jurasse publicamente que não tinha tido participação no assassinado do irmão. A cena do juramento é um dos pontos altos do filme e é por conta dessa impertinência de exigir o juramento do rei que ele é exilado, o que ocorre já na segunda metade da trama. Os elementos que o roteirista usa para contar a história de El Cid anterior ao exílio, apesar de inverossímeis, foram também baseadas em outros escritos biográficos sobre o campeador. 

A linguagem cinematográfica, no entanto, desfigura uma premissa medieval muito clara no poema, onde a mulher é praticamente uma possessão de seu marido tendo que ficar confinada longe dos olhares alheios enquanto seu marido sai a guerrear por aí. A figura de Dona Jimena, esposa de Don Rodrigo, na obra literária é secundária não tendo uma utilidade marcante como o filme veio a mostrar. Sophia Loren como a interprete de Jimena no filme, já nos dá a dica de que ela será quase uma protagonista, e assim o é. Afinal de contas, ao contar uma história medieval para um público contemporâneo sem conhecimento histórico suficiente para entender a mentalidade da época não é tarefa fácil.

A transposição da lenda de El Cid para o cinema, como era de se esperar, sofrera uma transfiguração, que eu chamaria de adequação temporal, introduzindo um elemento caro ao homem do século XX que pensa o casamento como a realização de um ideal romântico, onde duas pessoas que se apaixonam se buscam e não conseguem viver um sem o outro. 

Enquanto a mulher do século XX está à procura de um príncipe encantado e tem ilusão de que ele será um homem ideal que vai amá-la e respeitá-la até que a morte os separe, à mulher da idade média nunca chegaria a cogitar essa possibilidade esperando passivamente que seus familiares formalizassem um contrato com uma outra família, e a partir de então, viver a vida de cárcere legada a ela. 

As tentativas de buscar o Don Rodrigo histórico foram até bem-intencionadas, com a utilização de figurinos magníficos e até de uma pesquisa histórica feita em fontes diversas, mas não podemos ser ingênuos ao ponto de declarar que o filme “El Cid” está sintonizado com as fontes que o geraram. Hollywood não está preocupado com os aspectos históricos de suas produções, mas sim com a simples tarefa de entreter. Mas não deixa de ser uma boa obra cinematográfica. 

É uma produção grandiloquente, com cenas épicas de batalhas e duelos entre cavaleiros, tem um protagonista com uma índole superior, representando tudo o que de mais virtuoso há em um homem comprometido co sua honra e seu temor à Deus. Sua bela esposa Jimena representa a mulher ideal sonhada por qualquer homem do século XX. Há também antagonistas caricatos como o rei mouro que pretende ser o senhor de todos os reinos muçulmanos e é sempre representado de preto e com o rosto semicoberto. Mostra a ascenção de um rei Alfonso frágil e dependente de El Cid. Com todos esses elementos, temos um enredo que se distancia do histórico e nos aproxima do que idealizamos como sendo uma época heroica e romântica, onde o antagonismo entre o bem e o mal era bem definido. Onde a prevalência da honra e da moral deve ser o objetivo final.

Fontes:

  • Cantar de Mio Cid - PDF domínio Público disponível em: http://www.biblioteca.org.ar/libros/200138.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2017.
  • Cantar de Mio Cid (POema de Mio Cid), audio libro - Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lA-_7U3pFxQ. Acesso em: 20 de Julho de 2017.
  • El Cid. Direção: Anthony Mann. Produção: Samuel Bronston Productions em associação com Dear Film Production. Itália/EUA, 1961, cor, 182 min. Lançado por: Allied Artists Pictures Corporation.
  • Montaner, A. El Cantar de Mio Cid. Real Academia Española. FUndación José Antonio de Castro, Madrid.
  • Vernon Johns Society, The El Cid(1961). Disponível em: http://www.vernonjohns.org/snuffy1186/elcid.html. Acesso em: 20 de julho de 2017.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

Qual o papel da obra “Cantar de Mio Cid” para a formação da Espanha? (Resumo)

Primeira folha do manuscrito "Cantar de mio Cid" conservado na Biblioteca Nacional de España.


Versão Resumida

Ao falarmos sobre a fundação do Estado espanhol, essencialmente estamos falando sobre a fundação do Estado moderno de uma forma geral. Afinal é na península ibérica que surgem os primeiros Estados nacionais da era moderna. Foi somente a partir do século XV, nas ruinas do sistema feudal, que começaram a se desenhar as unidades geográficas hoje conhecidas como estados soberanos, que consiste em um território delimitado por fronteiras físicas constituídas histórica e culturalmente, regidas por uma legislação própria e governadas por um soberano que em um primeiro momento se confunde com o próprio Estado. A figura do rei se torna a representação máxima da soberania de uma nação. Para entendermos o Estado moderno, como o conhecemos hoje, faz se necessário revisitar os elementos fundadores que tiveram relevância na formação dessa estrutura política que será uma medida recorrente na história humana a partir de então.


Um dos elementos fundadores do Estado moderno é a consolidação de uma cultura nacional compartilhada entre todos que vivem dentro das fronteiras desse território e, portanto, sob o jugo de seu soberano. Dentro dessa cultura nacional encontram-se elementos indispensáveis para a criação de uma identidade nacional que será comum a todos os vassalos de determinado governante. A religião de estado, tem nesse primeiro momento, o papel de, não somente unificar a crença da população, mas também de legitimar o papel do soberano como um detentor incontestável do poder sobre todos os seus vassalos. Afinal ninguém contestaria a legitimidade de um monarca inserido em seu posto pela vontade divina. 

A língua nacional também é elemento significativo que constitui a identidade de uma nação. É através de uma língua em comum que as pessoas de um mesmo Estado se fazem entender e serem entendidos dentro de seu território. A língua é por si só elemento excludente que permite que um forasteiro – alguém que não compartilha dos mesmos elementos culturais de determinada população – seja identificado. Nesse sentido a literatura produzida dentro desse território se torna importante propagadora da cultura local. 

O poema medieval narra de forma épica as conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz de Vivar que ficou conhecido pela história como “El Cid” o campeador. Tratasse de uma das primeiras obras literárias escritas originalmente em castelhano. A versão que chegou até nós do poema, data do século XIV e foi transcrita por um copista chamado Per Abbat. Não sabemos quem é realmente o autor do poema que é tido como anônimo, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição baseada em cantos antigos que eram executados oralmente por poetas catalães. 

1 – Como se deu a construção do arquétipo de herói medieval no poema? Pretendemos elencar no texto medieval os elementos que consolidaram a figura de El Cid como uma figura ideal e incorruptível que deverá ser tomada como modelo de homem espanhol. 

2 – Qual a relevância desse poema para a formação e consolidação de uma identidade nacional espanhola? 

Temos em “El Cantar de Mio Cid” elementos que podem comprovar que a obra teve papel relevante na formação de uma identidade espanhola. É notório que o protagonista do poema é até os dias atuais um herói nacional na Espanha e apesar de muitas controvérsias terem surgido no decorrer da história sobre sua índole, não temos a intenção de discutir a figura histórica do homem, El Cid, mas sim o herói mitológico que se tornou arquétipo de valentia, lealdade e piedade cristã. 



O poema é fruto da necessidade, ainda embrionária, de se ter um modelo de homem virtuoso. Um homem que fosse a medida essencial de piedade, justiça e valentia. Formou-se em torno desse personagem a imagem fundamental e incontestável do cavaleiro medieval cristão. El Cid inaugura essa figura arquetípica, que fora construída a partir dos confrontos políticos de afirmação do poder na região ibérica. O ingrediente religioso que deu a El Cid a faceta piedosa e temente a Cristo, está no cerne da retomada do domínio cristão na região em detrimento do islamismo. O mito surge para autenticar a vitória cristã como sendo algo determinado pelo sagrado, mas efetuado por homens de carne e osso. 

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Bibliografia sugerida


  • BURKE, P. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.EL CANTAR de Mio Cid. – Domínio Público, disponível em:http://www.biblioteca.org.ar/livros/200138.pdf. Acesso em: 30 de agosto de 2016.
  • HOBSBAWN, E; RANGER, T. La Invención de la Tradición. Barcelona, Crítica, 2002.
  • MONGELLI, L.M. (Coord). Mudanças e Rumos: O Ocidente Medieval (Séculos XI-XIII), Ibis, Cotia SP, 1997


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

Qual o papel da obra “Cantar de Mio Cid” para a formação da Espanha?

Primeira folha do manuscrito "Cantar de mio Cid" conservado na Biblioteca Nacional de España.


Ao falarmos sobre a fundação do Estado espanhol, essencialmente estamos falando sobre a fundação do Estado moderno de uma forma geral. Afinal é na península ibérica que surgem os primeiros Estados nacionais da era moderna. Mas foi somente a partir do século XV, nas ruínas do sistema feudal, que começaram a se desenhar as unidades geográficas hoje conhecidas como estados soberanos, que consiste em um território delimitado por fronteiras físicas constituídas histórica e culturalmente, regidas por uma legislação própria e governadas por um soberano que em um primeiro momento se confunde com o próprio Estado. A figura do rei se torna a representação máxima da soberania de uma nação. Roger Chartier ao prefaciar uma obra de Norbert Elias diz que, “à medida que subjuga seus concorrentes, externos ou internos, a unidade de dominação tornada hegemônica se transforma a partir do interior: o senhor central [...], qualquer que seja seu título (rei, príncipe, autocrata etc.), se apodera pessoalmente do monopólio de dominação (CHARTIER, 2003, p.17). ” Para entendermos o Estado Moderno, como o conhecemos hoje, faz se necessário revisitar os elementos fundadores que tiveram relevância na formação dessa estrutura política que será uma medida recorrente na história humana a partir de então.

Além da unificação do poder nas mãos de um único soberano, outro elemento fundador do Estado moderno é a consolidação de uma cultura em comum, compartilhada entre todos que vivem dentro das fronteiras desse território, portanto, sob o jugo de seu soberano. Dentro dessa cultura comum – que posteriormente será chamada de cultura nacional – encontram-se elementos indispensáveis para a criação de uma identidade que será comum a todos os súditos de determinado governante. Outro elemento é a religião de Estado, que tem nesse primeiro momento, o papel de, não somente unificar a crença da população, mas também de legitimar o papel do soberano como um detentor incontestável do poder sobre todos os seus governados. Afinal ninguém contestaria a legitimidade de um monarca inserido em seu posto pela vontade divina. Veremos, no entanto, que a Península Ibérica no período em questão estava longe de ser uma unidade religiosa homogênea. Cristãos, muçulmanos e até mesmo judeus dividiam o mesmo espaço físico.

A língua também é elemento significativo que constitui a identidade de uma nação. É através de uma língua em comum que as pessoas de um mesmo Estado se fazem entender e serem entendidos dentro de seu território. A língua é, por si só, elemento excludente que permite que um forasteiro – alguém que não compartilha dos mesmos elementos culturais de determinada população – seja identificado. Nesse sentido a literatura produzida dentro desse território se torna importante propagadora dos modos de vida e das tradições partilhadas dentro de uma comunidade.

Cantar de Mio Cid como fonte principal.

O objetivo desse artigo é analisar o papel difusor e consolidador da obra “O Cantar de Mio Cid”. Poema épico produzido dentro do processo histórico que levou à formação do Estado espanhol. Buscaremos identificar sua eficiência na construção de um “mito fundador” e da construção de um modelo ideal de herói que catalisará todas as virtudes esperadas e exigidas de um habitante em suas relações sociais com os demais.
O poema medieval narra de forma épica as conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz de Vivar que ficou conhecido pela história como “El Cid” o campeador. Tratasse de uma das primeiras obras literárias escritas originalmente em castelhano. A versão que chegou até nós do poema, data do século XIV e foi transcrita por um copista chamado Per Abbat. Não sabemos quem é realmente o autor do poema que é tido como anônimo, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição baseada em cantos antigos que eram executados oralmente por poetas castelhanos. 
Os seguintes questionamentos são relevantes para nos aprofundar no assunto: 

1 – Como se deu a construção do arquétipo de herói medieval no poema? Pretendemos elencar no texto épico os elementos que consolidaram a figura de El Cid como uma figura ideal e incorruptível que deverá ser tomada como modelo de homem espanhol. 
2 – Qual a relevância desse poema para a formação e consolidação de uma identidade nacional espanhola? 

É notório que o protagonista do poema é até os dias atuais um herói nacional na Espanha e apesar de muitas controvérsias terem surgido no decorrer da história sobre sua índole, não tenho a intenção de discutir a figura histórica do homem, El Cid, mas sim o herói mitológico que se tornou arquétipo de valentia, lealdade e piedade cristã. 

A Formação da Espanha



A Espanha como a conhecemos hoje começou a ser formada a partir da unificação dos dois mais importantes reinos da península. Castela e Aragão que se uniram por meio do casamento dos reis católicos Isabel (Castela) e Fernando (Aragão) em 1469. Mas anterior a isso, já poderíamos identificar o processo que levou a essa unificação. A península Ibérica foi palco de diversas invasões no decorrer de sua história. No século I a.C, depois de séculos de resistência, foi finalmente anexada ao império romano por conta das campanhas militares de Júlio César – foram os romanos por exemplo, que designaram toda a extensão da Península Ibérica pelo termo genérico de Hispania. 

No século IV d.C, iniciou-se um período conhecido como “invasões Bárbaras” que, juntamente com outros fatores, ajudou a derrubar o vasto império romano e com isso foram estabelecidos na região, diversos reinos dos chamados povos bárbaros, onde se destacaram os povos Visigóticos. Essa fragmentação política propiciou a invasão dos mouros a partir do século VII. Os mouros eram povos árabes que chegaram a região pelo norte da África conquistando grande parte da península difundindo sua cultura por onde passavam. A religião muçulmana passa a ser soberana nos diversos reinos estabelecidos pelos mouros na região. Por isso “tratar da Espanha entre os séculos XI e XIII é tratar da fronteira entre o Islã e a cristandade” (p.151). Como afirma Maria de la Concepción Piñero Valverde.

Foi a partir do século XI que os reinos cristãos, do Norte da península, passaram a sustentar uma luta ostensiva contra os árabes. As disputas territoriais entre cristão e muçulmanos ficaram conhecidas como “guerras de reconquista”, ou simplesmente “reconquista”, afinal, por mais que os árabes já estivessem acomodados na região por alguns séculos, onde já haviam criado um verdadeiro centros propagadores de sua cultura, na visão cristã os eles eram os invasores de suas terras e deveriam ser expulsos. 

Foi nesse senário de conflitos territoriais e religiosos, quando os cristãos começavam a tomar a ofensiva, que se sobressai a figura emblemática de Rodrigo Díaz de Vivar, um nobre guerreiro castelhano que daria origem ao mito que conhecemos hoje como El Cid Campeador. 


El Cid – a figura histórica.


Estátua de El Cid em Burgos
Como dito antes, não cabe ao formato desse artigo analisar a figura histórica de Rodrigo de Vivar, mas, julgamos importante fazer uma breve introdução, como forma de contraste entre o mito e o homem. Rodrigo Díaz de Vivar nasceu em Burgos capital do reino de Castela, provavelmente no ano de 1043. Sua trajetória na corte de Fernando I o levou a ter o status de grande campeão. Com a morte de Fernando I, seu reino é dividido entre seus três filhos, Sancho – amigo pessoal de Rodrigo Díaz –, Alfonso e Urraca. Depois da divisão, Alfonso trava uma luta contra os irmãos para reunificar o reino do pai. Durante esses conflitos familiares, Sancho é assassinado – segundo alguns a mando de Alfonso, que passa a ser o novo rei de Castela. Foi sob o reinado de Alfonso VI que Rodrigo Díaz ganhou reconhecimento como líder militar que lutou não só ao lado de cristãos, como também em muitas situações se aliou a reis muçulmanos para derrotar inimigos em comum. Rodrigo de Vivar passa a ser uma figura central durante esse período devido ao seu prestígio. Recentes pesquisas buscaram reconstruir o homem por traz do mito. 

Durante a década de 1990 uma nova faceta do herói passou a ser evidenciada por historiadores medievalistas. Richard Fletcher foi talvez o que ficou mais conhecido ao nos mostrar um Rodrigo de Vivar mais distante do guerreiro cristão incorruptível e se aproximando mais de um ser humano comum e oportunista, que prestava serviços à diversos reinos que o pagavam bem para isso.


O Cantar de Mio Cid e a construção do arquétipo do guerreiro cristão.


Para identificar a influência do mito de El Cid na construção da identidade do povo espanhol, vamos nos ater ao poema épico “Cantar de Mio Cid”. O poema é um “cantar de gesta” que narra as últimas campanhas militares de El Cid, que culminou com a conquista – ou reconquista – de diversos territórios para o reino de Castela. O manuscrito transcrito por Abbat, como é característica dos cantares de gesta da Europa Medieval, mostra um guerreiro clássico, forte, valente, piedoso e fiel. Ou seja, catalizador das maiores virtudes atribuídas e esperadas de um cavaleiro medieval cristão. Podemos dizer que este é o embrião do arquétipo do herói medieval que se tornou um exemplo a ser seguido por todos aqueles que almejam se encaixar no ideal de homem espanhol. Segundo Ana Lucia Santana:

Os símbolos arquetípicos são encontrados nos mitos originais, nas mais variadas religiões, em lendas que já fazem parte da bagagem cultural coletiva, os quais marcam definitivamente a consciência e particularmente a esfera do inconsciente humano. Alguns destes arquétipos: a figura materna, a imagem do pai, a criança, o herói, o divino, entre outros.

O Cantar de Mio Cid de certa forma inaugura essa “bagagem cultural” no ideário coletivo do povo espanhol, que a partir de então terá uma imagem nítida a ser espelhada. O poema se inicia com o desterro sofrido pelo protagonista. El Cid é expulso de suas terras pelo rei Alfonso VI. 


El Cid convoca a sus vasallos; éstos se destierran con él.

Adiós del Cid a Vivar.

(Envió a buscar a todos sus parientes y vasallos, y les dijo cómo el rey le mandaba salir

de todas sus tierras y no le daba de plazo más que nueve días y que quería saber quiénes

de ellos querían ir con él y quiénes quedarse

(Cantar de Mio Cid en Castellano Moderno – Tirada 1)



Notamos que El Cid se empenha para deixar suas terras em menos de 9 dias, prazo dado por Alfonso para que ele se desterrasse. El Cid, mesmo com toda reputação de guerreiro exemplar que desfrutava na corte de Don Alfonso, é fiel a seu rei e acata passivamente a ordem real. Já podemos notar aqui a extrema fidelidade de El Cid a seu rei. Um exemplo de como as instituições de poder das cortes espanholas se encontravam em pleno funcionamento nesse período. Como disse Chartier ainda em seu prefácio de uma obra de Norbert Elias, 

[...] a sociedade de corte está indissoluvelmente ligada à construção do Estado absolutista, caracterizado por um duplo monopólio do soberano: o monopólio fiscal, que centraliza o imposto e dá ao príncipe a possibilidade de retribuir em dinheiro, e não mais em terras, seus fiéis e servidores, e o monopólio sobre a violência legítima que atribui exclusivamente ao rei a força militar, portanto tornando-o senhor e avalista da pacificação de todo o espaço social. (CHARTIER, 2001, p.16)


El Cid, como figura legitimadora do poder real, é incumbido de recolher impostos devidos à seu rei, por territórios sob o seu julgo, o que evidencia o “monopólio fiscal” citado por Chartier. 


De cobrar parias a moros el rey al Cid le ha encargado,

grandes riquezas cogió, y caudales muy preciados,

pero luego se quedó con lo que valía algo,

y por eso se ve ahora de tanto mal acusado

(Cantar de Mio Cid en Castellano Moderno – Tirada 9)


O poema em nenhum momento questiona a ética de El Cid, que notoriamente tomou parte dos impostos recebidos para si, o que motivou seu desterro. Devemos lembrar que mesmo a ética é uma construção histórica, e no período medieval essa prática era legitimada. O fato de ele ser o cobrador de impostos oficial do rei – assim como o apostolo Mateus o era para os romanos – coloca o Campeador em uma função indigna sob a ótica cristã. Se El Cid se apropriou de alguma coisa é pelo fato de que ele próprio julgou que isso era seu por direito, remetendo a máxima cristã “ a César o que é de César, a Deus o que é de Deus. ” A causa do campeador era portanto, vista como superior ao poder mundano do rei. No entanto, a fidelidade de El Cid ao se rei não sofre nenhum dano.

El Cid se mostra um cavaleiro moldado dentro das estruturas de poder vigentes, e essa característica será ponto recorrente durante todo o poema. Essa narrativa, além de legitimar o poder do soberano, insere o protagonista dentro do arquétipo persecutório cristão. Pois ao ser rechaçados pelo poder constituído, El Cid se aproxima do cristão, que mesmo sendo fiel a seu Deus – e talvez justamente por isso – sofre retaliação por parte do poder constituído. O que se consolida como uma representação, cara aos cristãos, que foram perseguidos pelo império romano em seus primeiros séculos. 

O sofrimento de El Cid mediante seu desterro é evidenciado quando esse chora ao notar que terá que partir sem o que já havia conquistado. Ao fim do verso notamos que El Cid roga a Deus por tamanha injustiça.

Los ojos de Mío Cid mucho llanto van llorando;

hacia atrás vuelve la vista y se quedaba mirándolos.

Vio como estaban las puertas abiertas y sin candados,

vacías quedan las perchas ni con pieles ni con mantos,

sin halcones de cazar y sin azores mudados.

Y habló, como siempre habla, tan justo tan mesurado:

"¡Bendito seas, Dios mío, Padre que estás en lo alto!

Contra mí tramaron esto mis enemigos malvados".

(Cantar de Mio Cid en Castellano Moderno – Tirada 1)

A exemplo dos grandes mártires cristãos – incluindo o próprio Cristo – El Cid acata seu destino como parte de algo que já fora estabelecido. Algo que deverá ocorrer para que sua trajetória se torne digna de uma biografia, para ele próprio sirva de exemplo para as futuras gerações. Por esse motivo “O Cantar de Mio Cid” é vez ou outra comparado às hagiografias de seu tempo – textos biográficos que se prestavam a narrar os feitos e milagres dos santos da Igreja. 

Outra manifestação ainda ligada a religiosidade do guerreiro cristão medieval é o repudio aos judeus. Como já citamos, viviam nos territórios tanto cristãos quanto muçulmanos algum contingente de judeus, ou cristãos novos, que eram judeus que se converteram ao cristianismo há um tempo ainda recente. Ao ser desterrado, o rei confisca todos os bens de El Cid e ainda proíbe todos aqueles de seus territórios de prestar solidariedade a ele. Ou seja, o Campeador se encontrava empobrecido e sem suporte. Para suprir suas necessidades financeiras El Cid recorre a Martín Antolínez, que propõe encher algumas arcas com areia como se estas contivessem na verdade toda a riqueza do Campeador.


Cuando el Cid cobró las parias, mucho dinero ha ganado,

de allá de tierra de moros gran riqueza se ha sacado.

Quien muchos caudales lleva nunca duerme descansado.

Quedémonos con las arcas, buen negocio haremos ambos,

pondremos este tesoro donde nadie pueda hallarlo.

Pero queremos saber qué nos pide el Cid en cambio

(Cantar de Mio Cid en Castellano Moderno – Tirada 9)


Em troca da proteção de suas arcas de tesouros, El Cid pede uma quantia que seria necessária para continuar sua campanha. Martin Antolinez o mediador do acordo retorna com o dinheiro de onde retirou uma parte que lhe era devida no trato.


"Aquí estoy, Campeador, y buena ayuda os traigo,

para vos seiscientos marcos, y para mí treinta he sacado

(Cantar de Mio Cid en Castellano Moderno – Tirada 11)


O poema não volta a falar do assunto, dando a entender que o Campeador “extorquiu” os judeus. Por mais antiético que possa parecer hoje, essa atitude é previsível dentro da ética medieval. Sob a ótica cristã os judeus eram conhecidos por enriquecer ao emprestar dinheiro a juros, prática inaceitável no dogma cristão.

Começamos a delinear dentro dessa breve análise do poema a figura de um corajoso e ardiloso guerreiro que é o epicentro de uma legião de personagens que o tem como detentor das mais sublimes virtudes. E aqueles que ousam ser seus antagonistas têm seu trágico desfecho como certo, como ocorrerá com os infantes de Carrion, que violentaram as filhas de El Cid porque achavam que não eram nobres o suficiente para eles terem como esposas. Em suma um guerreiro fiel ao Deus cristão e propagador do poder do estado representado pelo rei. Todos os elementos necessários e desejados de um homem que o Estado espanhol ainda em processo de formação não tinha até então. Após a unificação dos reinos cristãos e expulsão consolidada dos muçulmanos da península, com a conquista de granada em 1492, El Cid passa a ser uma referência de valor nacional. Uma representação máxima do herói que inaugurou o processo de criação da identidade espanhola.



Considerações finais.


O Cantar de Mio Cid é a contextualização do que ocorria naquele momento. A ofensiva cristã em direção aos territórios muçulmanos, a aliança entre reinos cristãos e eventualmente alianças amigáveis com os muçulmanos, a repulsa aos judeus dentre outros fatores facilmente identificáveis, são temas abordados pelo poema. Como disse, María Luisa Lanzuela Corella “La obra literaria no es un hecho aislado, es un reflejo, consciente o inconsciente, de la situación social, económica y política de un determinado momento histórico (p.259).” 

O poema é fruto da necessidade, ainda embrionária, de se ter um modelo de homem virtuoso. Um homem que fosse a medida essencial de piedade, justiça e valentia. Formou-se em torno desse personagem a imagem fundamental e incontestável do cavaleiro medieval cristão. El Cid inaugura essa figura arquetípica, que fora construída a partir dos confrontos políticos de afirmação do poder na região ibérica. O ingrediente religioso que deu a El Cid a faceta piedosa e temente a Cristo, está no cerne da retomada do domínio cristão na região em detrimento do islamismo. O mito surge para autenticar a vitória cristã como sendo algo determinado pelo sagrado, mas efetuado por homens de carne e osso. 

“O Cantar de Mio Cid” não é o único texto literário que se presta a construir uma identidade espanhola. No decorrer dos séculos seguintes, quando a Espanha ainda não havia se consolidado definitivamente como estado nacional, obras que confirmarão ou contestarão a narrativa desse poema serão incorporadas ao conjunto canônico de textos que auxiliarão na construção da identidade espanhola. Mas a importância desse poema está no fato de ter sido a primeira obra em língua castelhana a prestar esse serviço.

Bibliografia.
  • · ANÔNIMO. CANTAR DE MIO CID EM CASTELLANO MODERNO. Domínio Público. Disponível em: http://llevatetodo.com/libros/0037.pdf. Acesso em 17 de fevereiro de 2017
  • · ALVARO, B. G. “Por que El Cid não é santo? ”: Subsídios para uma discussão sobre a santidade através da comparação das virtudes encontradas no Poema de Mio Cid e na Vida de Santo Domingo de Silos de Gonzalo de Berceo. In: CALAINHO, Daniela; KNAUSS, Paulo (Orgs.). Caderno de Resumos e Programação. Usos do Passado. XII Encontro Regional de História (14 a 18 de agosto de 2006). Rio de Janeiro: Anpuh-Rio/ Universidade Federal Fluminense, 2006.
  • · ALVARO, B.G. O Poema de Mio Cid e a Vida de Santo Domingo de Silos: reflexões sobre a santidade no decorrer de uma pesquisa. Artigo, Rio de Janeiro: Anpuh-Rio/ Universidade Federal Fluminense, 2006.
  • · BURKE, P. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.EL CANTAR de Mio Cid. – Domínio Público, disponível em:http://www.biblioteca.org.ar/livros/200138.pdf. Acesso em: 30 de agosto de 2016.
  • · CORELLA, M.L.L. La Literatura como fuente histórica: Benito Pérez Galdós. U.N.E.D. (Madrie), Centro Virtual Cervantes, 
  • · ELIAS, N. A Sociedade de Corte. Rio de janeiro: Editora Zahar, 2001
  • · FRAZÃO DA SILVA, Andréia C. Lopes. Literatura e História: Reflexões a partir de um Estudo de Caso. Redes. Rio de Janeiro, 1991
  • · MONGELLI, L.M. (Coord). Mudanças e Rumos: O Ocidente Medieval (Séculos XI-XIII), Ibis, Cotia SP, 1997
  • · OLIVEIRA, B.M. O SENHOR DA GUERRA: Relações políticas e sociais da vida do Cid Campeador. Disponível em: http://docplayer.com.br/1883716-Universidade-federal-fluminense-instituto-de-ciencia-humanas-e-filosoficas-programa-em-pos-graduacao-em-historia.html. Acesso em: 16 de fevereiro de 2017
  • · SANCHÉS, L.I. La literatura como fuente histórica. Disponível em: https://facetashistoricas.wordpress.com/2015/07/28/una-defensa-de-la-literatura-como-fuente-historica/. Acesso em: 16 de fevereiro de 2017
  • · SANTANA, A.L. Arquétipos. Disponível em: http://www.infoescola.com/psicologia/arquetipos/. Acesso em: 17 de fevereiro de 2017.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

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