Moisés nasceu de uma pulada de cerca de
seu pai, um hebreu que trabalhava em uma obra pública no Egito e sua mãe era
uma mulher da corte do faraó egípcio. A passagem do Mar Vermelho não passou de
uma travessia em um brejo onde a água não passava da canela, os soldados do
Faraó tiveram o azar de atravessar na hora em que a maré subiu. Pelo menos esta
é a versão imaginada por Gerald Messadié em seu romance “Moisés”.
Mas o maior expoente contemporâneo da
fértil imaginação de alguns romancistas, que exploram personagens e eventos
históricos, talvez seja “O código Da Vinci” de Dan Brown. Neste best-seller, o
escritor, embasado em algumas teses históricas e outras nem tanto, imaginou um
Jesus Cristo muito diferente do casto senhor responsável pelo surgimento do
cristianismo. No livro de Dan Brown, Jesus tinha uma mulher, Maria Madalena, e
até mesmo gerou uma prole, cujos descendentes foram governantes de grandes
impérios. Como todo livro mundialmente conhecido, já nasce como um roteiro de
Hollywood, “O Código Da Vinci” foi parar rapidamente nas telonas, estrelado por
Tom Hanks e a belíssima atriz francesa Audrei Tautou.
Apesar da polêmica provocada pelo fenômeno “Código Da
Vinci”, Dan Brown não foi o primeiro a usar sua imaginação para falar de um
Jesus diferente daquele que apregoam os líderes cristãos. Andrew Lloyd Webber
em seu musical para o cinema “Jesus Cristo Superstar” imaginou Jesus como uma
estrela pop. Até mesmo os humoristas do grupo “Monty Python” usaram de seu
humor britânico para criar um Jesus Cristo com super poderes, nos moldes dos
super-heróis dos quadrinhos.
Como podemos notar, quando se conta a saga
de um personagem histórico muito conhecido, cabe a quem a conta, usar de sua
criatividade para temperar a biografia destas figuras. Como historiador, eu
deveria - na opinião de muitos de meus colegas – execrar esses escritores e
roteiristas que escrevem coisas muitas vezes absurdas distorcendo a “realidade”. Mas vou me abster de criticá-los neste texto,
pois acredito que a criatividade artística não deve ser negligenciada, até
mesmo por nós, que nos fazemos acreditar como cientistas da história e ao contrário,
gostaria de exaltar o talento de alguns dos autores que estão inseridos dentro
do rótulo "romancista histórico".
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Se você é um leitor de romances em geral,
saiba que é difícil para um leigo saber quando um texto literário se utiliza de
elementos históricos ou até mesmo quando um livro de história passa a se
utilizar de uma narrativa hipotética para preencher lacunas que as pesquisas
históricas por ora não revelam. A questão é que, de toda forma você tem algo a
ganhar lendo romances históricos, ou não, isso depende do seu propósito ao lê-lo. Caso você busque entretenimento, leia o
romance como se fosse uma obra de ficção, afinal por mais que um romance tente
se aproximar dos fatos ele será no final sempre uma obra ficcional, pois um romancista não tem compromisso firmado com a ciência. Agora se quer se aprofundar, use esse
romance para entender a abordagem desta obra, respondendo as seguintes
questões: Por que a obra aborda este evento com esse viés? Será que há outras
obras que mostram o outro lado da história? Sempre questione.
Por exemple, em “Jogos funerários”, Mary
Renault esboça o que provavelmente ocorreu após a morte de Alexandre da Macedônia.
Me deparei com esse livro na prateleira de um restaurante de beira de estrada quando
era um adolescente que viaja para shows de rock e digo que me apaixonei pela
obra já no primeiro capítulo. O Livro é o final de uma série que conta a
história de Alexandre o Grande. Nesse livro os generais de Alexandre disputam os
territórios do conquistador após a sua morte. Temos aqui a História da queda de
alguns generais e a ascensão de outros como Ptolomeu que se instalou no Egito e
criou a dinastia Ptolomaica que se findou cerca de 3 séculos depois com Cleópatra
a última soberana desta linhagem.
Mary Renault |
O que quero dizer é que se você ler “Jogos Funerários”
como uma obra de ficção e puro entretenimento, você terá seu desejo atendido,
no entanto, se você quiser se aprofundar nos fatos descritos ali, terá que ler
textos acadêmicos que corroboram ou não tal história e é justamente isso que
torna os romances históricos fascinantes, vocês não têm compromisso com o fato
e sim com uma boa forma de contar uma história.
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Erich Maria Remarque |
O autor viveu de perto os horrores desse
conflito quando era um soldado do exército alemão e descreve detalhadamente
todos os pormenores vividos pelos soldados nas trincheiras. Ou seja, neste caso
temos um romance baseado em uma experiencia pessoal vivida pelo autor, em
alguns momentos parece um diário, mas Maria Remarque é um romancista e estamos
falando de uma obra de ficção, mas é a descrição mais realista que temos da
vida nas trincheiras da primeira guerra mundial.
A conclusão é a seguinte. Os romances
históricos não nos dizem o que realmente aconteceu, mas nos apresentam, na melhor
das hipóteses, uma ideia do que poderia ter ocorrido e cabe aos historiadores
se aprofundarem nos documentos históricos e corroborarem as versões
apresentadas pelos romancistas ou negarem completamente. No final, mesmo que
uma ideia apresentada por um autor seja descartada completamente pela ciência,
o seu valor ainda permanece vivo como texto literário e literatura é sobretudo
a arte de criar histórias que nos dizem algo sobre nós mesmos.
Diga ai o que você pensa. Você gosta de
romances históricos? Tem algum para sugerir?
André
Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro
"O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley
Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash.
Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys.
Também é fotógrafo e artista digital.
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