Mostrando postagens com marcador Literatura Antiga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Antiga. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Em Defesa do Romance Histórico






Moisés nasceu de uma pulada de cerca de seu pai, um hebreu que trabalhava em uma obra pública no Egito e sua mãe era uma mulher da corte do faraó egípcio. A passagem do Mar Vermelho não passou de uma travessia em um brejo onde a água não passava da canela, os soldados do Faraó tiveram o azar de atravessar na hora em que a maré subiu. Pelo menos esta é a versão imaginada por Gerald Messadié em seu romance “Moisés”. 

 

Mas o maior expoente contemporâneo da fértil imaginação de alguns romancistas, que exploram personagens e eventos históricos, talvez seja “O código Da Vinci” de Dan Brown. Neste best-seller, o escritor, embasado em algumas teses históricas e outras nem tanto, imaginou um Jesus Cristo muito diferente do casto senhor responsável pelo surgimento do cristianismo. No livro de Dan Brown, Jesus tinha uma mulher, Maria Madalena, e até mesmo gerou uma prole, cujos descendentes foram governantes de grandes impérios. Como todo livro mundialmente conhecido, já nasce como um roteiro de Hollywood, “O Código Da Vinci” foi parar rapidamente nas telonas, estrelado por Tom Hanks e a belíssima atriz francesa Audrei Tautou.

        

Apesar da polêmica provocada pelo fenômeno “Código Da Vinci”, Dan Brown não foi o primeiro a usar sua imaginação para falar de um Jesus diferente daquele que apregoam os líderes cristãos. Andrew Lloyd Webber em seu musical para o cinema “Jesus Cristo Superstar” imaginou Jesus como uma estrela pop. Até mesmo os humoristas do grupo “Monty Python” usaram de seu humor britânico para criar um Jesus Cristo com super poderes, nos moldes dos super-heróis dos quadrinhos.

        

Como podemos notar, quando se conta a saga de um personagem histórico muito conhecido, cabe a quem a conta, usar de sua criatividade para temperar a biografia destas figuras. Como historiador, eu deveria - na opinião de muitos de meus colegas – execrar esses escritores e roteiristas que escrevem coisas muitas vezes absurdas distorcendo a “realidade”.  Mas vou me abster de criticá-los neste texto, pois acredito que a criatividade artística não deve ser negligenciada, até mesmo por nós, que nos fazemos acreditar como cientistas da história e ao contrário, gostaria de exaltar o talento de alguns dos autores que estão inseridos dentro do rótulo "romancista histórico".

 

Se você é um leitor de romances em geral, saiba que é difícil para um leigo saber quando um texto literário se utiliza de elementos históricos ou até mesmo quando um livro de história passa a se utilizar de uma narrativa hipotética para preencher lacunas que as pesquisas históricas por ora não revelam. A questão é que, de toda forma você tem algo a ganhar lendo romances históricos, ou não, isso depende do seu propósito ao lê-lo. Caso você busque entretenimento, leia o romance como se fosse uma obra de ficção, afinal por mais que um romance tente se aproximar dos fatos ele será no final sempre uma obra ficcional, pois um romancista não tem compromisso firmado com a ciência. Agora se quer se aprofundar, use esse romance para entender a abordagem desta obra, respondendo as seguintes questões: Por que a obra aborda este evento com esse viés? Será que há outras obras que mostram o outro lado da história? Sempre questione.

 

Por exemple, em “Jogos funerários”, Mary Renault esboça o que provavelmente ocorreu após a morte de Alexandre da Macedônia. Me deparei com esse livro na prateleira de um restaurante de beira de estrada quando era um adolescente que viaja para shows de rock e digo que me apaixonei pela obra já no primeiro capítulo. O Livro é o final de uma série que conta a história de Alexandre o Grande. Nesse livro os generais de Alexandre disputam os territórios do conquistador após a sua morte. Temos aqui a História da queda de alguns generais e a ascensão de outros como Ptolomeu que se instalou no Egito e criou a dinastia Ptolomaica que se findou cerca de 3 séculos depois com Cleópatra a última soberana desta linhagem.

 

Mary Renault
Mary Renault foi uma autora que elegeu o período helenístico como fonte de inspiração para seus textos e chegou a escreve uma biografia de Alexandre, onde ela tentou ser imparcial o suficiente para não deixar sua veia de romancista intrometer em suas convicções sobre esse personagem histórico, mas a crítica não perdoou sua predileção a declarar abertamente que Alexandre o Grande era um líder de primeira grandeza, quase imaculado.

O que quero dizer é que se você ler “Jogos Funerários” como uma obra de ficção e puro entretenimento, você terá seu desejo atendido, no entanto, se você quiser se aprofundar nos fatos descritos ali, terá que ler textos acadêmicos que corroboram ou não tal história e é justamente isso que torna os romances históricos fascinantes, vocês não têm compromisso com o fato e sim com uma boa forma de contar uma história.

 

Erich Maria Remarque
Em “Nada de Novo no Front” de Erich Maria Remarque, o protagonista descreve detalhadamente a vida nas trincheiras entre a Alemanha e a França onde os soldados de ambos os lados tinham que urinar em suas armas quando acabava a água do sistema de refrigeração - algumas armas deste período tinham uma especie de radiador - porque eles ficaram com sede e não havia onde conseguir água durante os sangrentos conflitos da primeira guerra mundial.

 

O autor viveu de perto os horrores desse conflito quando era um soldado do exército alemão e descreve detalhadamente todos os pormenores vividos pelos soldados nas trincheiras. Ou seja, neste caso temos um romance baseado em uma experiencia pessoal vivida pelo autor, em alguns momentos parece um diário, mas Maria Remarque é um romancista e estamos falando de uma obra de ficção, mas é a descrição mais realista que temos da vida nas trincheiras da primeira guerra mundial.

 

A conclusão é a seguinte. Os romances históricos não nos dizem o que realmente aconteceu, mas nos apresentam, na melhor das hipóteses, uma ideia do que poderia ter ocorrido e cabe aos historiadores se aprofundarem nos documentos históricos e corroborarem as versões apresentadas pelos romancistas ou negarem completamente. No final, mesmo que uma ideia apresentada por um autor seja descartada completamente pela ciência, o seu valor ainda permanece vivo como texto literário e literatura é sobretudo a arte de criar histórias que nos dizem algo sobre nós mesmos.

 

Diga ai o que você pensa. Você gosta de romances históricos? Tem algum para sugerir?

 




André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem (Resumo)

Don Juan y l'estatua del Comendador.

Versão Resumida
Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina.




O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.
Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
O Don Juan de Molina não é um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. 
A figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. 


O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.
Esse mito se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.

Leia o artigo completo AQUI

Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.



    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem







Don Juan y l'estatua del Comendador.

Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina. A escolha da obra em questão está em sintonia com um recorte temporal e temático, que não visa esgotar as reflexões sobre o tema em épocas e contextos diferentes.
O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.

O protagonismo social do homem na obra de Molina
Tirso de Molina

Para analisarmos a obra devemos entender um pouco sobre seu autor. Tirso de Molina era o pseudônimo de Gabriel Téllez, um frei católico abertamente entusiasta de Lope de Vega. Se destacou na dramaturgia escrevendo peças que tinham sempre a defesa da moral cristã como pano de fundo. Ele teria escrito “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” em 1630. Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
Nosso foco, no entanto, é a obra original de Molina, considerando-a como fundadora do mito de Don Juan para a posteridade. Em “El Burlador de Sevilla” Don Juan é um protagonista caricato, sem compromisso com a visão romântica que chegou até nós pelas mãos do poeta britânico Lord Byron. O Don Juan de Molina é um personagem que está estreitamente em sintonia com sua condição privilegiada de um homem com influência na sociedade de Sevilha do século XVII. Sua performance não é de um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. Como podemos notar no verso 1315 da peça.

Sevilla a voces me llama
el burlador, y el mayor
gusto que en mí puede haber
es burlar una mujer
y dejarla sin honor.
(MOLINA, p.35)

Já no início da obra, Don Juan acobertado pela escuridão de um aposento, engana a Duquesa Isabela fingindo ser Duque Octavio, o homem que desejava se casar com ela. Neste episódio, o próprio Duque é preso injustamente pelo ato praticado por Don Juan. Em uma outra oportunidade, Don Juan sofre um naufrágio e é ajudado por uma pescadora de nome Tisbea. Don Juan a seduz e oferece amor eterno e, a pede em casamento, em seguida abandona-a para que viva completamente sem honra. Durante uma conversa com seu amigo, o Marques de Motta, Don Juan descobre que este está apaixonado por sua prima Doña Ana, o burlador não perde a oportunidade de tramar para se aproveitar da bela dama, no entanto, nessa ocasião, Don Juan é impedido pelo pai da vítima, Don Gonzalo, que é morto pelo burlador em uma luta. Isso não o detém, e vai em busca de outra vítima. Aminta é uma lavradora que já estava prometida a Batrício, Don Juan a engana dizendo que seu noivo a abandonara e que ele se casaria com ela.
Como podemos notar, a figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. Sobre isso Paulo Victo Bezerra e José Sterza Justo, ambos da área da psicologia dirão:

[...]são sempre figuras masculinas que protagonizam os diálogos resolutivos. A honra da mulher burlada é apresentada como um problema masculino, no sentido de que, uma vez tirada a honra, é o pai, ou o marido que sofre a degradação social. O grande drama nesse caso é que a mulher ficará imprestável para se casar. E não podemos deixar de enfatizar que foi por isso que Don Juan foi levado ao inferno primeiramente: porque Don Gonzalo tinha a obrigação moral de duelar com aquele que lhe ofendera a honra ao tentar cortejar sua filha. (BEZERRA, JUSTO, 2010, p.6).

O que fica evidente ao analisar essa peça, com o conforto de mais de 300 anos de história ocorridos desde então é a incapacidade das mulheres se emanciparem dentro da rigidez religiosa daquela sociedade. O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.

O contexto social da obra.
Don Juan and Haidee- Alexandre Marie Colin

Podemos notar que Don Juan se comportava como um predador, e essa forma de agir é o que dá o tom didático da peça. A honra (honor), como questão de status social, era muito cara para o espanhol do século XVII. E a mulher sem honra não se casaria, sua desonra afetaria toda sua família e sua reputação a condenaria a viver uma vida marginal, seja ela uma nobre ou uma lavradora. Ou seja, mais importante do que o que você é, é a forma como a sociedade te enxerga.  A honra é um elemento fundamental para a vida, pois entre viver uma vida sem honra (honor) e a morte, a segunda opção sempre parecerá mais atrativa. Isso fica evidente no verso 1590.

¡Ay, que me has dado la muerte! ........... .
Mas, si el honor me quitaste,
¿de qué la vida servía?
(MOLINA, p. 43)

Nessa ocasião, Don Gonzalo está agonizando após ser atingido de morte por Don Juan, ao enfrentar o burlador em defesa de sua filha Doña Ana.
Parece-nos claro que a questão primordial para Molina, era efetivar a honra como elemento crucial para a vida em sociedade, uma clara medida de valor que deve ser buscada. No entanto, o que vem a luz em nossa reflexão é o fato de que eram as ações dos homens que definiam a honra das mulheres, enquanto uma mulher desonrada sofreria as mais deprimentes consequências sociais, o mesmo não parecia ocorrer aos homens que as desonravam.
O próprio Don Juan não acreditava que seria punido – ou pelo menos não tão em breve – afinal ele nunca se mostrava cauteloso em suas práticas de burla. Apesar de sempre ser advertido por seu pai e até mesmo pelo seu criado Catalinon. Em várias ocasiões ele simplesmente respondia com sua frase mais celebre: “¡Qué largo me lo fiáis!” (Ainda  uma expressão que expressa sua indiferença em relação a seus atos presentes, pois ainda há muitos anos para ele pensar em se arrepender.
Nesse sentido, a condenação do protagonista ao inferno, é o desfecho que parecia natural desde o início da trama, afinal o propósito de Molina se mostra claro. Mesmo que você viva impune pelas leis dos homens, jamais será negligenciado pelas leis divinas. Dessa forma Don Juan paga o preço pretendido pelo catolicismo, pois é diretamente encaminhado para o inferno sem nem mesmo passar pelo purgatório. Ou seja, á Don Juan nem mesmo é dada a alternativa de se arrepender, como poderiam pretender os adeptos da reforma protestante de Martinho Lutero que à época era motivo de preocupação para os católicos – esse aspecto revela o caráter antirreformista da obra.
As mulheres enganadas por Don Juan são perdoadas ao final do espetáculo e recuperam sua honra, mas, mais uma vez, não mediante sua própria capacidade de lutar por isso, mas porque os homens assim o fizeram. Nesse sentido a obra de Molina perpetua o protagonismo social do homem como sujeito de ação, enquanto a mulher é o objeto que sempre sofre a ação.

Considerações finais.
As mulheres burladas pelo protagonista desempenhavam papéis secundários naquela sociedade, e sua total submissão ao domínio masculino permitiu que Don Juan desempenhasse suas práticas. Don Juan agia movido simplesmente pelo desejo de burla. Todas os seus atos não tinham um propósito que não fosse o de enganar mais uma vítima. Nesse diálogo entre Don Juan e seu criado Catalinon, o burlador é claro:

CATALINON: ¿Al fin pretendes gozar a Tisbea? (890)
JUAN: ..............                .Si el burlar es hábito antiguo mío,
¿qué me preguntas, sabiendo mi condición?
CATALINON: ..........      Ya sé que eres castigo de las mujeres.
(MOLINA, p. 24)

No entanto, todo o contexto social vivido por Don Juan lhe dava certo conforto. Don Juan era aparentado de pessoas influentes na corte espanhola e desfrutava de toda regalia de um nobre. Por outro lado, a passividade feminina na obra, demonstra com clareza, a total dependência destas em relação aos homens. Afinal não foi dada a nenhuma delas a prerrogativa de se vingar do burlador. Quem defendia e se via socialmente no dever de vinga-las eram seus familiares homens.
O mito de Don Juan se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra. O que a adaptação de Byron revela não é somente uma transformação estética, mas sim uma necessidade de equiparar a mulher e o homem no campo da paixão. Agora Don Juan também poderia ser vítima da beleza feminina. Visão esta, que era impossível na época de Molina e que no século XIX timidamente já encontrava seus algozes dentro do movimento romântico, e no século XX iria se amplificar com os movimentos de emancipação feministas.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.


Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.


    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Édipo - Sêneca vs Sófocles

Édipo e Antígona, pintura a óleo de Antoni Brodowski (1828)

Ao analisarmos as obras Édipo Rei de Sófocles e Édipo de Sêneca, notamos que ambas são definidas como tragédias clássicas, e se assemelham por serem caracterizadas como uma investigação de eventos passados, como disse o pesquisador Giovani Roberto Klein, representam “uma recuperação cognitiva de um evento do passado que na sua objetividade se contrapõe à consciência subjetiva, de acordo com a técnica da ironia trágica” (KLEIN, 2005, p.11). A obra do poeta e filosofo latino Sêneca é mais nova e por isso é baseada no clássico grego Édipo rei de Sófocles que veio a público no século 5 a.C.
O enredo narrado, em grande parte, é o mesmo. Ambos tratam da história de Édipo que sob o estigma de um oráculo pondera sobre os sofrimentos a ele reservados. Ou seja, o pano de fundo das duas obras acaba sendo o destino. Questionamentos sobre a autonomia do homem sobre seu destino, e sobre o quanto estamos sob influencia das vontades dos deuses acabam surgindo no decorrer da leitura de ambas as peças. Para um melhor esclarecimento sobre o tema se faz necessário saber como à época dos autores se concebia a ideia de destino.



Sêneca era um celebre representante do estoicismo e, podemos notar que sua obra está repleta dos ideais dessa escola filosófica. O estoicismo, no entanto, surgiu na Grécia por volta de 300. a.C. como uma corrente de pensamento baseado nos preceitos do filosofo Zenão. A partir de então a concepção de destino para o grego do período Helenístico passa a ter um caráter determinista, onde o destino passa a ser visto como algo predeterminado, e ao individuo cabe aceitá-lo passivamente, pois não é possível alterá-lo – obvio que entre os próprios pensadores estoicos encontraremos divergências em relação a isso. Mas à época de Sófocles que provavelmente escreveu Édipo Rei em 427 a.C. Havia outra concepção de destino. Um destino onde o homem agia paralelamente aos desígnios divinos, como explica Giovane Klein.

No pensamento grego tradicional (do qual o Édipo rei pode ser considerado um produto), a presciência divina acerca do destino não exclui a liberdade humana. O destino não é atribuído incondicionalmente ao homem, mas se serve de causas intermediárias, e mesmo os mortais podem até certo ponto modificá-lo (KLEIN, 2005, p.118)

Já Sêneca imerso em seu estoicismo vai utilizar uma abordagem mais rígida do destino, onde os mortais estariam a mercê dos desígnios divinos. Em outras palavras estamos presos ao nosso destino. Como demonstra esse trecho:

Somos levados pelos fados, cedei aos fados.
Nossos inquietos cuidados não podem
mudar a trama do fuso invariável.
Tudo o que sofremos, raça mortal,
tudo o que fazemos vem do alto,
e guarda Láquesis os decretos da sua roca,
girada com dura mão.
Tudo segue por seu recortado caminho,
e o primeiro dia determinou o último:
nem a um deus é permitido mudar
aquilo que corre segundo suas próprias causas.
Segue para cada um a ordem, por prece alguma
aterável, dos acontecimentos:
a muitos o próprio medo abate,
muitos vão ao encontro do seu fado,
enquanto receiam os fados ( SÊNECA apud. KLEIN, 2005, 121).

            Assim Giovane Klein estabelece que “o mito de Édipo, com algumas adaptações, serve perfeitamente como ilustração da doutrina estoica sobre o destino (KLEIN, 2005, p.123). Ainda segundo mesmo autor, o Édipo de Sêneca se distancia do Édipo rei de Sófocles quando notamos que o primeiro não dispõe de uma autoconfiança poderosa como no segundo, que crê durante grande parte do poema, ainda poder ser inocente e busca a todo custo sanar sua duvida.
Parece que os dois autores divergem, portanto, na construção psicológica do protagonista do poema. Ainda embasado em Giovane Klein pode concluir que:

Se o Édipo sofocleano era o paradigma da incerteza a que a existência humana está submetida,o protagonista da tragédia de Sêneca é o protótipo do tirano perseguido, acossado pela angústia e pelo medo e oprimido por um sentimento de culpa do qual não consegue dar razão (KLEIN, 2005, p.11)

            Uma diferença formal também notada por Klein está na forma de descrição dos eventos e do ambiente. Enquanto na tragédia grega a descrição é mais curta e de certo ponto objetiva, em Sêneca ela se torna extensa e detalhada. Klein diz que isso pode ser um recurso técnico usado pelos poetas romanos para superar dificuldades técnicas. E essa forma diversa de descrição altera o efeito dramática das peças.

A tensão gerada por elas percorre todo o drama, desde seu início; não há, dessa forma, o crescendo dramático conduzido pelo desenrolar da investigação no Édipo rei, que culmina no momento da revelação da verdade. O impacto gerado por esse momento tem muito menos força no Édipo senequiano, devido principalmente ao horror que acompanha a peça desde os primeiros versos (KLEIN, 2005, 152).

            Portanto podemos sintetizar a questão dizendo que os dois autores contaram a mesma história mitológica, que já era parte de suas culturas, no entanto, sendo influenciados por posturas filosóficas pertinentes ao período em que cada um deles viveu. O que de certa forma alterou o impacto dramático que essa tragédia poderia causar no leitor.

Fonte:
Klein, Giovani Roberto. O Édipo de Sêneca : tradução e estudo crítico, Universidade Estadual de Campinas, 2005



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

Postagens Populares