segunda-feira, 4 de julho de 2016

Como água para chocolate: Uma reflexão sobre o poder da tradição.


Como água para chocolate, romance publicado em 1989 pela autora mexicana Laura Esquivel tem um caráter muito peculiar de usar uma narrativa de vanguarda para relatar a história de uma família tradicional do México no início do século XX. A obra tem o formato de um livro de receitas de família que teria sido escrito por uma das filhas de Mamá Elena, a matriarca da Família De Garza. O narrador é uma descendente dessa família que relata os acontecimentos pela ótica da escritora do livro de receitas, no caso, a filha caçula e protagonista do romance, Tita.
O livro foi um sucesso mundial quando foi lançado e alguns anos depois –  em 1992 – foi levado ao cinema pelo diretor Alfonso Arau, que na ocasião era marido da escritora. O projeto contou com os roteiros da própria autora e, portanto, é um dos raros casos onde a ótica do autor está em sintonia com a tradução da obra literária para a linguagem cinematográfica.  O objeto de análise desse artigo, se baseou além da obra escrita, também pela tradução cinematográfica dá obra. O importante para nossa análise é usar a narrativa para elucidar elementos externos às duas obras. Não é objetivo desse texto analisar a forma, nem mesmo os aspectos vanguardistas contidos na obra de Esquivel, mas sim estabelecer uma sintonia desta com aspectos históricos e sociais que o livro descreve.


O romance, dentre outros fatores, narra a história da dominação de um povo pelas suas tradições, e podemos notar aqui um aspecto universal de grande valia tanto para a crítica literária quanto para os estudos sociais. Tita já havia nascido com a sina de não poder se casar ou ter filhos, pois um costume familiar dizia que a filha mais nova deve ser a responsável por cuidar de sua progenitora até que essa venha a falecer. Notemos aqui que esse é um aspecto corriqueiro em todas as sociedades existentes. Todas as sociedades da era moderna têm a necessidade de exaltar as peculiaridades da sua cultura para criar sua identidade. Essa identidade será o aspecto que a diferenciará das outras. Há aqui a concretização da história desse sistema de crenças que servirá de apoio para as gerações seguintes.
Nosso objetivo é traçar dentro da obra de Esquivel aspectos que trazem à tona essa concretização da crença tornando-a um sistema de valores que serão compartilhados pelos descendentes dessa dada sociedade. Não somente pinçar do texto esses aspectos, como também, problematizá-los através de teorias que visam entender e solucionar os conflitos decorrentes do choque das gerações. Pois todos os membros das novas gerações receberão esse sistema de crenças já prontos e geralmente de forma passiva sem contestar a razão pela qual as praticam. A escolha desse tema dentro da obra “Como água para chocolate” é fruto de reflexões causadas após a leitura do romance que dentre todos os temas abordados parece ser a questão do choque entre as gerações o mais evidente.
Laura Esquivel, de alguma forma, expõe ao leitor à força e vitalidade das tradições que ela própria como mexicana, pode ter vivenciado. Portanto a obra que propomos analisar aqui está repleta de crenças populares e metáforas que nos permite identificar a força motriz e até mesmo destruidora que por séculos permanece como elemento fundamental da criação de uma identidade social.


O Conceito de tradição


Em “A Invenção da tradição” o historiador Eric Hobsbawn diz que o estudo das tradições é uma questão interdisciplinar. Segundo ele o termo tradição pode ser uma contribuição historiográfica que merece ser estudada por outras ciências sociais e humanas. Partindo dessa premissa do historiador britânico achamos pertinente empregar em nossa analise literária esse conceito.
Segundo o “dicionário de conceitos históricos” em sua definição mais simples, “tradição é um produto do passado que continua a ser aceito e atuante no presente. É um conjunto de práticas e valores enraizado nos costumes de uma sociedade”. Ou seja, em uma sociedade onde já se estabeleceu historicamente que as mulheres permaneçam na cozinha ou cuidando de seus filhos enquanto os homens saem a fazer suas revoluções, isso é tido como algo natural e inquestionável. Os questionamentos sobre o porquê isso deve ser assim vão parecer anacrônicos e infrutífero quando o inconsciente coletivo dessa comunidade já concretizou essa tradição.
No romance “Como água para chocolate” a protagonista Tita que já nascera carregando o fardo de nunca poder se casar por ser ela a filha mais nova da família e segundo o costume secular de sua família caberia a ela a tarefa de cuidar de sua mãe até que ela morra, questiona seu fado já no primeiro capítulo do livro. Nos dizeres da narradora:

Si Tita no podía casarse ni tener hijos, ¿quién la cuidaría entonces al llegar a la senectud? ¿Cuál era la solución acertada en estos casos? ¿O es que no se esperaba que las hijas que se quedaban a cuidar a sus madres sobrevivieran mucho tiempo después del fallecimiento de sus progenitoras? ¿Y dónde se quedaban las mujeres que se casaban y no podían tener hijos, quién se encargaría de atenderlas? Es más, quería saber, ¿cuáles fueron las investigaciones que se llevaron a cabo para concluir que la hija menor era la más indicada para velar por su madre y no la hija mayor? ¿Se había tomado alguna vez en cuenta la opinión de las hijas afectadas? ¿Le estaba permitido al menos, si es que no se podía casar, conocer el amor? ¿O ni siquiera eso? (ESQUIVEL, p.8)

Nesse relato que pode parecer um tanto inverossímil dentro da nossa análise a autora parece usar sua personagem para argumentar sobre a utilidade de um costume que parece distante da realidade contemporânea a que se passa a história. Tita se torna, portanto, a portadora da faceta anti-tradicional da família De Garza. Seus questionamentos vão de encontro à conduta extremamente tradicional empregada pela matriarca Mamá Elena que não aceita esses questionamentos, “ainda mais vindo de uma de suas filhas”.
Notamos aqui,  que a autora do romance, estabelece uma dicotomia que será evidente em toda a obra. Ela procura assim permitir ao leitor, analisar os fundamentos das tradições familiares aos quais somos submetidos antes mesmo de nascermos.
Segundo o conceito de dominação e poder proposto pelo sociólogo Max Weber, podemos identificar na personagem Mamá Elena uma representante da dominação por meio da legitimação de seu poder através da tradição. Aliás, poder e dominação são conceitos distintos segundo a análise weberiana. Poder, para Weber, é a capacidade de induzir ou influenciar o comportamento de outra pessoa, por meio de coerção, manipulação ou de outras formas estabelecidas, já a dominação é o direito adquirido de se fazer obedecido e influenciar um dado grupo de pessoas. Essa autoridade de dominação é adquirida e mantida por meio dos costumes e tradições aceitas por todos os membros desse grupo. Portanto a mãe de Tita tinha autoridade sobre suas filhas, no entanto, como veremos adiante não fora capaz de exercer seu poder sobre todas as filhas. Nesse sentido podemos encerrar o conceito de tradição, ainda sob a ótica do sociólogo alemão, como um dos elementos de dominação mais eficientes em uma sociedade.


Três filhas, três maneiras de encarar a tradição familiar.



O romance de Laura Esquivel desde seu lançamento vem sendo fonte de discussões nos meios literários. Por abordar todos os acontecimentos narrados sempre pela ótica de uma mulher, movimentos ligados ao feminismo e outros nichos sociais se apropriam da narrativa para criar argumentos cheios de aspectos ideológicos. Não é o caso desse trabalho que procura analisar o romance sob o viés da tradição, mas eventualmente e inevitavelmente cairemos nas mesmas discussões já elencadas por essas análises. O universo feminino parece ser o fio condutor da obra. Vamos analisar agora como as quatro personagens femininas que dão o tom do romance se comportam diante da tradição familiar.
Mamá Elena é uma mulher dura que representa a manutenção dos aspectos tradicionais familiares. Ela é a legitima detentora do papel de autoridade da casa. Todas as decisões devem passar pelo seu jugo. A vontade própria das três filhas nunca é respeitada. Rosaura, a filha mais velha, é a que se aproxima mais da mãe em termos de respeito as tradições familiares. Apesar de estar sob o jugo da autoridade da mãe, ela sempre se mostra passiva e nunca a vemos questionar a autoridade de Mamá Elena. Sua passividade dá a ela um aspecto apático e conservador. É a única que tem planos explícitos de se casar e ter filhos propagando a continuidade da família. Fato que se consolida quando essa é oferecida em matrimonio a Pedro, que aceitou se casar com Rosaura com o único intuito de ficar próximo de sua paixão, a imã caçula de Rosaura, Tita, que como sabemos não podia se casar.
Gertrudis é a filha do meio, uma jovem que até sua pós-adolescência conseguiu manter seus desejos mais íntimos reprimidos sob a influência autoritária da mãe. No entanto, foi a primeira das filhas a romper os laços tradicionais de sua família. Quando em um acesso de pura entrega aos seus instintos mais legítimos – por que não dizer suas necessidades humanas mais íntimas – fugiu com um revolucionário para ter a partir de então uma vida errante em locais impensáveis para a mentalidade extremamente conservadora de sua mãe. Gertudis representa a quebra brusca com a tradição familiar. Encontra uma saída para se ver livre das amarras da autoridade de sua mãe e faz isso de forma extrema. Sua conduta pode ser descrita como libertária para os partidários dos direitos da mulher e como promiscua para os mais conservadores. Mais uma vez cabe ao leitor julgar sua atitude baseado em seu próprio histórico pessoal.
Tita é a personagem principal do romance, pois é ela que escreve o livro de receitas que conduz o romance. Sua relação com as tradições familiares sempre foi de desconfiança e de incompreensão. Afinal, como já vimos, ela é diretamente afetada pelo costume familiar de não poder se casar por ser a mais jovem das filhas. Tita questiona a legitimidade da tradição e em várias oportunidades contesta diretamente a autoridade da mãe. No entanto, sua conduta até certo ponto da obra permanece incorruptível. Submete-se ao jugo materno até quando pode. Tita encontra uma forma que de canalizar seus desejos mais íntimos para a culinária. É ela a responsável pela mesa. Sua vida praticamente se resume ao ambiente culinário, já que não pode almejar explorar suas vontades íntimas. Dessa forma suas aspirações e desejos são materializados em suas receitas. As pessoas que desfrutam de seus pratos acabam por sentir seus anseios e vontades, não porque ela magicamente manipula seus ingredientes como uma bruxa a fazer uma poção, mas porque essas são as vontades humanas mais intrínsecas e universais.
Tita, mesmo em um ambiente tradicionalmente legado as mulheres passivas e sem anseios, consegue mostrar que os desejos pessoais e sobretudo carnais são aprisionados pelos aspectos tradicionais. A filha mais nova de Mamá Elena se torna então o fator de questionamentos sobre o quanto é legítimo dar ou não vazão a essas tentações do íntimo.





Nos atemos ao conceito de tradição que parece ser recorrente na narrativa. Sabemos que não há como esgotar todos os elementos sobre esse tema em tão pouco espaço, por isso foi nossa intenção fazer uma análise superficial no intuito de aprofundar esse estudo em outra oportunidade.
No entanto, como conclusão desse texto podemos elencar que o livro de Laura Esquivel pode ser fonte de estudos sobre a permanência da tradição nas sociedades modernas. Sabemos que são sistemas de crenças construídos historicamente para dar sentido à vida. Não podemos construir uma sociedade do zero, sempre vamos nos apoiar no passado para construir nossa mentalidade. No entanto, as vontades inerentes ao ser humano sempre irão contradizer essas crenças conforme as sociedades se desenvolvem e, uma sociedade desenvolvida, tanto tecnologicamente quanto moralmente só chega a um patamar eficiente de conduta quando está disposta a rever seus conceitos e adaptá-los às novas necessidades que surgem no decorrer do processo histórico. A grande contribuição dessa obra literária aos estudos sobre a tradição é a sua utilidade não somente como uma metáfora da vida cotidiana, mas também como um gerador de questionamentos sobre o porquê de ainda permanecermos aprisionados à princípios que nem mesmo paramos para perguntar sua razão de existirem.
Laura Esquivel








Bibliografia:




        André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

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