segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Bicho de sete cabeças, uma critica à psiquiatria, ou uma crítica "histórica" à sociedade que construímos?

Ficha Técnica

Gênero: Drama
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco: Caco Ciocler, Cássia Kiss, Gero Camilo, Jairo Mattos, Luis Miranda, Marcos Cesana, Othon Bastos,Rodrigo Santoro, Valéria Alencar
Produção: Fabiano Gullane, Maria Ionescu
Fotografia: Hugo Kovensky
Trilha Sonora: André Abujamra, Arnaldo Antunes


Que sociedade construímos?

Parece que toda a estrutura psicológica do homem vem sendo moldada, através dos séculos pelo processo histórico que de alguma forma limita a ação desse homem em seu meio, ou em alguns casos derruba velhos limites, como por exemplo, os acontecimentos históricos que marcaram o século XVI. Sabemos que foi neste século que surgiram as primeiras contestações racionais a respeito das escrituras sagradas. A reforma protestante marcou uma ruptura interna, abalando toda a base dogmática da Igreja cristã. A teoria geocêntrica de Ptolomeu que era atestada pela Igreja católica, não mais se enquadra nos cálculos dos astrônomos daquela época. Copérnico através de novos cálculos chega à uma nova estrutura planetária onde a Terra passa a ser um simples astro que gira em torno do Sol, e não o contrário, como se pensava. Já no alvorecer do século XVII, Galileu consegue confirmar a teoria Copernicana com o auxílio do telescópio. E por esta atitude é condenado pela santa inquisição tendo que se retratar. Ou seja, muitos dogmas religiosos que determinavam a vida do homem até aquele momento estavam sendo questionados por cientistas. Surge o embate entre a Igreja e a ciência que se torna determinante na vida do homem a partir de então. Neste processo o homem passa a ser responsável por seus próprios atos.


A partir deste momento o homem passou a temer por seu destino, pois este não era mais uma vontade divina. De certa forma o homem fica um tanto desamparado sem aquela figura divina que o conduzia . Surge então os conflitos internos ( ou seja os conflitos que eram travados dentro da própria mente do homem) que viriam a se intensificar no decorrer dos séculos seguintes até os dias de hoje. Vários pensadores vieram a desenvolver teorias a respeito destes conflitos da mente humana. Somente no século XX surgem as primeiras teorias no intuito de resolver tais conflitos, dentre essas, a psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud.


Bicho de sete cabeças



Com o advento da psiquiatria no intuito de tratar as doenças da mente, surge também o preconceito em relação ao paciente que se submete a tal tratamento. No filme "Bicho de sete cabeças" de Laís Bodansky vemos um rapaz que sofre preconceito após deixar um hospital psiquiátrico, onde estava internado, por desejo dos pais. 

O circulo social que antes aceitava este jovem como uma membro comum, depois da internação passa a rejeita-lo, por se tratar de um "lunático". É nítido a linha anti-psiquiátrica que o filme adota fazendo uma crítica mordaz a esse tipo de instituição. No hospital psiquiátrico este jovem é submetido a um tratamento um tanto ortodoxo, que chegara ao extremo de de ser submetido à uma sessão de eletro-choque. 

Para muitos analistas da sociedade moderna este filme parece anacrônico, pois era geralmente na idade média que tratamentos que implicavam em dor para o doente mental eram praticados. Em pleno final do século XX ( período em que se passa o filme ) não existiria tal procedimento. Porém o grande mérito deste filme é mostrar que em pleno século XXI ainda nos encontramos perdidos em meio à tantas convenções humanas que influenciam nossa conduta social. Por exemplo: até que ponto é ilícito fumar maconha e não é ilícito fumar cigarro. O que sempre determinou isto foi uma simples questão legislativa do Estado. Tal lei proíbe o uso de tal produto que causa tanto mal quanto um produto similar que não há nenhuma proibição.

Vemos que o rapaz - interpretado por Rodrigo Santoro - foi internado à força depois que o pai achou um cigarro de maconha na roupa deste, no entanto a própria mãe do rapaz é uma fumante compulsiva. Um personagem que retrata melhor a crítica de Bodansky é o médico que dirige o hospital, pois este é dependente de medicamentos que usa em conjunto com álcool. Talvez Bodansky tenha extremado o enredo desta obra, mas tinha, a meu ver, um fim nobre, que era denunciar a nossa hipocrisia em relação a todo o comportamento dos indivíduos que nos rodeiam. Se não temos parâmetros racionais para definir o que é uma droga que implica em prejuízos para a saúde do indivíduo e o que é um remédio ou um simples controlador de euforia como são muitas vezes considerados o álcool e o cigarro, também não temos tais parâmetros para dizer quem é louco e quem é normal

Esse artigo foi originalmente publicado no blog "Analisando o Cinema" em 22 de dezembro de 2006.



Assista o Trailer: 




André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta atividades para todos os níveis.

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