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sábado, 4 de julho de 2015

A mania de perseguição dos cristãos:

O arquetípico martírio cristão e sua ressonância na atual política brasileira e estadunidense.




Os cristãos norte americanos e brasileiros - e talvez de todo o mundo ocidental - parecem estar sofrendo da "Síndrome do Judeu perseguido". O senador republicano Ted Cruz disse, "Não há mais espaço para cristão no partido republicano atual" - não irei abordar a questão nesse momento mas é sabido que esse partido representa a direita conservadora americana formada basicamente por cristãos protestantes e brancos. O ex- governador do estado do Arkansas, Mike Huckabee foi ainda mais longe ao declarar que "estamos nos movendo rapidamente para a criminalização do cristianismo" - é também importante lembrar que Arkansas é um estado localizado no que hoje se convencionou chamar de "Bible Belt" (cinturão da bíblia), pelo fato de haver uma alta concentração de cristãos conservadores nessa região". O apresentador da Fox News Bill O'Reilly, conhecido pelo seu conservadorismo, foi muito mais dramático que seus colegas ao dizer que "se você é cristão ou um homem branco nos Estados Unidos, está aberta a estação da caça contra você."
Quem persegue os cristãos na América?
David McNew/Getty Images
Estamos falando dos Estados Unidos da America, uma nação onde 73% de sua população se declara cristã. A pergunta é: quem está perseguindo os cristãos na America? Agora ultrapassando a linha do equador e chegando aos trópicos vamos notar que um fenômeno semelhante ocorre por essas terras. Pastores evangélicos comprovadamente charlatões e/ou simplesmente ignorantes, se utilizam desse discurso persecutório para incutir nas pessoas o quanto é difícil ser cristão nesse país. E os católicos que contam com mais de 60% da população não ficam atrás. Padres e entidade dessa corrente religiosa estão usando largamente as redes sociais para descreverem o como sofrem por professarem sua crença em público. Mais de 85% da população brasileira se declara cristã. Quem está perseguindo esses 166 milhões de pessoas? Os homossexuais? Segundo pesquisa realizada em 2009 a capital com maior concentração de homossexuais do Brasil é o Rio de Janeiro com cerca de 19% da população, outras fontes indicam que há no Brasil um número estimado de 18 milhões de homossexuais ou seja, menos de 10% da população brasileira se declara homossexual. Seriam os ateus que perseguem os cristãos? Apesar de ter ocorrido um aumento no número de não-religiosos, aqueles que se declaram ateus constituem um número pífio de 615 mil pessoas. Seriam os praticantes de religiões afro brasileira os perseguidores dos cristãos modernos? Apenas 0,34% da população brasileira se declara praticante destes cultos.

Creio que esses poucos dados citados acima podem nos dar uma ideia de quem de fato são as minorias desse país. E não é difícil notar que são minorias como essas que sofrem perseguição, por parte daqueles que defendem a moral e os bons costumes. Óbvio que todas essas estatísticas podem estar erradas. O número de cristãos que realmente professam e seguem a fé cristã deve ser bem menor, enquanto o número de pessoas que não tem religião ou de ateus pode ser bem maior do que mostram os gráficos. No entanto essa constatação é ainda uma forte evidência da perseguição sofrida por essas correntes em meio a uma sociedade tradicionalmente cristã. Quantas vezes um ateu ou um macumbeiro preferiu se declarar cristão para não sofrer nenhum preconceito por parte de seus vizinhos ou até mesmo de seus próprios familiares?
O Mito fundador do cristianismo
A Última Prece dos 
Mártires Cristãos
por Jean-Léon Gérôme, 1883.
Não sei como ser mais explícito ao demonstrar quem são as presas e quem são os caçadores. Mas podemos identificar a origem dessa falácia da perseguição propagada pelos cristãos fundamentalistas do ocidente. Basta considerar a necessidade de uma religião se embasar em um mito fundador. Esse mito que fundamenta toda a razão de ser de uma religião deve ser passado através das gerações inalterável pois é esse o elemento que justifica suas práticas. Os judeus por exemplo se utilizam de um longo histórico de perseguição que vem desde a hollywoodiana fuga do Egito - evento fundador do seu discurso persecutório - até os dias de hoje, e mesmo quando são eles os opressores, suas ações são justificadas por esse mito fundador. A moderna Israel é a terra prometida a eles por deus, mesmo que antes houvesse ali uma sociedade já constituída de palestinos que viviam em relativa paz com seus vizinhos judeus. Não é diferente com a religião de Cristo, um judeu messiânico que pregava o perdão até mesmo às adúlteras e às prostitutas e causou assim um mal estar nas autoridades politicas e religiosas de seu tempo. Mateus concretiza o discurso persecutório dos cristãos quando diz: "E, por causa do meu Nome, sereis odiados de todos. Contudo, aquele que permanecer firme até o fim será salvo"(MATEUS 10:22). 
Cristo foi condenado a morte e martirizado depois que uma multidão preferiu libertar um ladrão em seu lugar. Depois disso sabemos que os romanos temendo uma sublevação contra seu paganismo conveniente, começou a jogar esses cultuadores de Cristo para serem devorados por leões famintos no Coliseu. E o mito fundador do discurso persecutório do cristão foi então concretizado. O cristianismo foi então construído dentro dessa figura arquetípica do cristão perseguido pelas forças opressoras dos maléficos imperadores que tiranicamente e diabolicamente tentavam destruir sua fé. Até mesmo quando o cristianismo se tornou a norma, esse mito fundador serviu como justificativa para seus atos igualmente tiranos - mas não vamos entrar nesse mérito agora.

Os Cristãos e o poder.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Portanto creio que os cristãos atuais não fazem mais do que permanecerem conectados a essa visão arquetípica do martírio de Cristo, enquanto claramente desfrutam de uma influência massiva na politica e nos meios de comunicação dessas "potencias ocidentais". Basta notar que nos Estados Unidos o atual presidente Barack Obama - que é democrata - tem muita dificuldade de aprovar suas medidas mais inovadoras e liberais, pois os republicanos têm maioria na câmara. Enquanto no Brasil vemos um crescimento sugestivo - e preocupante - da Bancada Evangélica. Essa denominação formada por líderes religiosos se fosse um partido seria o 3º maior partido do Congresso, além de terem a presidência da Câmara - Eduardo Cunha. Esse domínio crescente está influenciando até mesmo os deputados católicos que teoricamente formariam a maioria do congresso nacional. Portanto, caros cristãos vocês ainda estão no poder. Entendo que necessitam parecer uma minoria perseguida como foi o caso de seus antepassados nas arenas romanas, e talvez, até sonhem com o martírio na Índia ou na Líbia, mas aqui nas terras frutiferas do novo mundo vocês ainda são os que perseguem.

Fontes:


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Os Assassinatos de West Memphis e a caça as bruxas.



Há exatos 25 anos, um crime brutal teria revelado a face mais rude do conservadorismo religioso americano, devorando 18 anos de vida de três adolescentes headbangers de famílias pobres e ainda quase ceifou a vida de um desses jovens com uma injeção letal. Apesar de terem se declarado culpado em um acordo frente a justiça, os acusados alegam inocência.

Tudo começou com uma hedionda ocorrência que colocou a pacata cidade americana de West Memphis no mapa da criminalidade. Três crianças de 8 anos de idade foram assassinadas com requintes de crueldade quando foram andar de bicicleta perto de um pântano em sua vizinhança. Os três meninos sumiram na tarde do dia 5 de maio de 1993.
Vizinhos e familiares dos garotos conduziram uma busca pela região, mas não encontraram nada. Somente na manhã seguinte a polícia fez uma varredura mais detalhada do lugar chamado “Robin Hood Hills”, lá havia um córrego lamacento onde por volta da 13:45 o policial Steve Jones viu um sapato preto de criança no meio da lama, e uma busca posterior da área revelou os corpos dos três garotos.


Steve Edward Branch, Christopher Mark Byers e James Michael Moore foram encontrados submersos na água lamacenta, estavam todos nus e seus pés estavam amarrados a seus punhos pelos cadarços de seus respectivos sapatos. Essa característica ritualística, logo criou uma atmosfera que ligou os assassinatos com a prática de cultos satânicos que segundo os moradores ocorriam naquela região. A polícia imediatamente começou a interrogar possíveis suspeitos que tinham alguma ligação com a prática de cultos satânicos inspirados por bandas de Heavy Metal.


Os três garotos assassinados



Jessie Misskelley Jr. de 17 anos, Jason Baldwin de 16 anos e Damien Echols de 18 anos eram garotos problema que viviam em uma vizinhança pobre de West Memphis e logo foram relacionados ao crime. Jason e Damien eram grandes amigos e andavam pelas ruas vestidos de preto com camisetas de bandas, como METALLICA e SLAYER e justamente por isso, sempre foram vistos com maus olhos pelos vizinhos e colegas de escola que os acusavam de bruxaria e satanismo. Jessie Misskelley foi submetido a um interrogatório que durou 12 horas quase ininterruptas sem a presença de um representante legal. Misskelley confessa ter estado com os outros dois acusados na cena do crime e ter presenciado Damien e Jason assassinarem aquelas crianças brutalmente e sem piedade.


Com a confissão de Misskelley os três suspeitos foram a julgamento. Misskelley por se recusar a depor contra os outros dois, foi julgado separadamente, enquanto Jason e Damien foram julgados juntos. Depois de uma batalha judicial onde muitas falhas na investigação policial foram apontadas e onde nenhuma evidência foi encontrada para colocar qualquer um dos três adolescentes na cena do crime e mesmo com os três se declarando inocentes, pois Misskelley voltou atrás e disse que foi persuadido pelos policiais e que sua confissão foi forçada, os três foram condenados pelo crime de assassinato, sendo que Damien recebera a sentença de morte ainda vigente no estado do Arkansas por ter sido considerado o idealizador do massacre satânico.


Com o passar dos anos os advogados dos três condenados, que agora eram chamados pela imprensa de “West Memphis Three” – O trio de West Memphis – fizeram vários apelos a justiça pedindo novo julgamento, devido a várias evidências encontradas por investigadores particulares, como o teste de DNA feito no cadarço que amarrava uma das vítimas, onde não foi encontrado o DNA de nenhum dos acusados. O DNA encontrado, no entanto, era o de Terry Hobbs o padrasto de Steve Edward Branch uma das vítimas. O evento ganhou notoriedade nacional e logo internacional quando grupos de apoio aos condenados começaram a pedir que um novo julgamento fosse aberto para que essas novas evidências pudessem comprovar a inocência dos acusados.

Várias celebridades entraram na onda e conseguiram chamar a atenção para o caso, dentre eles Eddie Vedder (PEARL JAM), Flea (RED HOT CHILI PEPPERS) Johnny Depp, HENRY ROLLINS – que encabeçou um projeto musical que contava com LEMMY KILMISTER, TOM ARAYA, IGGY POP, dentre outros, par arrecadar dinheiro para ajudar nas investigações. Tamanha comoção fez com que o caso fosse levado à suprema corte do estado do Arkansas em 2011 – 18 anos depois de estarem atrás das grades - onde os acusados receberam a oportunidade de saírem da prisão, contanto que se declarassem culpados do crime. 




A história desse crime brutal e da condenação imprecisa dos acusados foi largamente difundida pela imprensa americana, livros foram lançados, como "Devil's Knot"(O nó do diabo) da jornalista investigativa Mara Leveritt. Uma série de três documentários produzidos pelo canal HBO batizada de "Paradise Lost" (Paraíso perdido) conta toda essa jornada cheia de reviravoltas, má conduta policial, má vontade do juiz local e mobilização nacional em prol de três condenados, incluindo um deles condenado à morte por injeção letal. O METALLICA liberou os direitos autorais de uma de suas músicas para ser a trilha sonora destes documentários, em solidariedade aos acusados

Em 2012 um outro documentário chamado "West of Memphis" dirigido por Amy J. Berg e com a produção de Peter Jackson (Senhor dos Anéis) foi lançado abrangendo todo o caso e ainda toda a repercussão da libertação dos suspeitos depois de se declararem culpados.

Em 2013 o filme "Devil's knot" (no Brasil - Sem Evidências) do diretor Atom Egoyan com Colin Firth, Reese Witherspoon foi lançado tendo como base o livro de mesmo nome de Laveritt.



Há muitas evidencias de que 

esse caso é o que podemos chamar 
de uma verdadeira caça as bruxas




Damien Echols - 2012
Os acusados ainda lutam até hoje para limpar seus nomes da acusação de assassinato e paralelamente descobrir quem é o verdadeiro responsável pelo brutal assassinado dos garotos, a maioria dos pais das vítimas já declararam que não acreditam mais que Jason, Jessie e Damien sejam culpados do crime que ceifou a vida de seus filhos e que as novas evidências deveriam ser avaliadas.

Aqueles que acreditam na inocência dos headbangers, apontam algumas considerações sobre o caso, que fortalecem a tese de que tudo foi uma verdadeira “caça às bruxas.” West Memphis está localizada em Arkansas, estado que fica no coração do que se convencionou chamar de "Bible Belt" - cinturão bíblico, devido à grande concentração de fundamentalistas religiosos cristãos nessa região.

Ou seja, pessoas que costumam enxergar tudo ao seu redor como uma luta entre o divino, e as forças do mal. Onde um garoto com uma camisa de Heavy Metal representa uma ameaça aos bons costumes e se um crime dessas proporções ocorre, certamente não será obra de um devoto temente a Deus, mas obviamente de um delinquente que se veste de preto e adora músicas “do diabo.” Esse caso seria um clássico exemplo de como mentes conservadoras e religiosas tendem a julgar tudo dentro dos limites estreitos de suas crenças e mesmo com todas as evidências físicas, permanecem negando a inocência dos condenados. Baldwing declarou em uma entrevista à revista Rolling Stone que “o estado usou nosso gosto musical para nos destruir... e no fim muitos desses mesmíssimos artistas nos ajudaram a ganhar a liberdade.”

Ainda há muito mistério envolvendo esse caso, muitas perguntas sem respostas, provas negligenciadas e confissões plantadas. Os três suspeitos ainda são considerados culpados pelo estado e o caso permanece encerrado. Há muita controversa e um emaranhado de opiniões divergentes a serem pesadas. Ainda há muitos que acreditam na culpa dos três. O grande problema é que lançam evidências muitas vezes embasadas em pesquisadores, no mínimo, levianos como o escritor William Ramsey que escreveu um livro descrevendo que os três acusados assassinaram as três crianças como parte de um ritual satânico inspirado pelas bandas que ouviam. Dale W. Griffis um autoproclamado especialista em mortes por ritual satânico foi usado como testemunha de acusação. Ou seja, se ainda almejam alguma esperança de colocar Jason, Jessie e Damien de volta atrás das grades, acho que deveriam primeiro encontrar evidências físicas dentro do mundo real. Como aliás foram encontradas na cena do crime e apontavam para a presença do padrasto de um dos meninos, mas nunca foram consideradas ou avaliadas.


Fontes:


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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