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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Revolucionário Judeu



Certa vez, um judeu meio revolucionário resolveu ser bonzinho com todo mundo, inclusive os mais rudes criminosos e, isso incomodou uns sacerdotes que não concordavam com um cara meio hippie fazendo performances de rua, tirando o foco das pessoas da verdadeira fé. Também, o cara era muito impertinente, vivia dizendo para as pessoas que a riqueza não era sinal de sucesso, que as pessoas deviam deixar sua família para sair por ai e pregar o amor entre as pessoas, que o dinheiro deveria ser apenas para pagar os impostos, porque não era de dinheiro que as pessoas precisam, o verdadeiro tesouro de cada um é o que eles fazem aos seus camaradas. Dizia também que, se alguém te bater na cara ofereça o outro lado para levar outra porrada. Ou seja, ele não foi visto com bons olhos. Por outro lado, era difícil competir com um cara que fazia números fantásticos, ele curava cegos, ressuscitava defuntos, levitava, dentre outras coisas. Talvez, se isso fosse feito nos templos ou nas casas dos ricos empresários isso não seria um problema, no entanto, o público do cara era formado por prostitutas, ladrões, fornicadores e todo tipo de escória das mais perigosas. O cara, obviamente, foi preso, acusado de subversão e foi condenado a morte. Assim, o inconveniente judeu foi morto e esquecido para todo o sempre. Afinal, naquela época não havia internet para postar seus incríveis workshops, nem silk-screen para que sua face fosse estampada nas camisetas das pessoas.




    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

sábado, 4 de julho de 2015

A mania de perseguição dos cristãos:

O arquetípico martírio cristão e sua ressonância na atual política brasileira e estadunidense.




Os cristãos norte americanos e brasileiros - e talvez de todo o mundo ocidental - parecem estar sofrendo da "Síndrome do Judeu perseguido". O senador republicano Ted Cruz disse, "Não há mais espaço para cristão no partido republicano atual" - não irei abordar a questão nesse momento mas é sabido que esse partido representa a direita conservadora americana formada basicamente por cristãos protestantes e brancos. O ex- governador do estado do Arkansas, Mike Huckabee foi ainda mais longe ao declarar que "estamos nos movendo rapidamente para a criminalização do cristianismo" - é também importante lembrar que Arkansas é um estado localizado no que hoje se convencionou chamar de "Bible Belt" (cinturão da bíblia), pelo fato de haver uma alta concentração de cristãos conservadores nessa região". O apresentador da Fox News Bill O'Reilly, conhecido pelo seu conservadorismo, foi muito mais dramático que seus colegas ao dizer que "se você é cristão ou um homem branco nos Estados Unidos, está aberta a estação da caça contra você."
Quem persegue os cristãos na América?
David McNew/Getty Images
Estamos falando dos Estados Unidos da America, uma nação onde 73% de sua população se declara cristã. A pergunta é: quem está perseguindo os cristãos na America? Agora ultrapassando a linha do equador e chegando aos trópicos vamos notar que um fenômeno semelhante ocorre por essas terras. Pastores evangélicos comprovadamente charlatões e/ou simplesmente ignorantes, se utilizam desse discurso persecutório para incutir nas pessoas o quanto é difícil ser cristão nesse país. E os católicos que contam com mais de 60% da população não ficam atrás. Padres e entidade dessa corrente religiosa estão usando largamente as redes sociais para descreverem o como sofrem por professarem sua crença em público. Mais de 85% da população brasileira se declara cristã. Quem está perseguindo esses 166 milhões de pessoas? Os homossexuais? Segundo pesquisa realizada em 2009 a capital com maior concentração de homossexuais do Brasil é o Rio de Janeiro com cerca de 19% da população, outras fontes indicam que há no Brasil um número estimado de 18 milhões de homossexuais ou seja, menos de 10% da população brasileira se declara homossexual. Seriam os ateus que perseguem os cristãos? Apesar de ter ocorrido um aumento no número de não-religiosos, aqueles que se declaram ateus constituem um número pífio de 615 mil pessoas. Seriam os praticantes de religiões afro brasileira os perseguidores dos cristãos modernos? Apenas 0,34% da população brasileira se declara praticante destes cultos.

Creio que esses poucos dados citados acima podem nos dar uma ideia de quem de fato são as minorias desse país. E não é difícil notar que são minorias como essas que sofrem perseguição, por parte daqueles que defendem a moral e os bons costumes. Óbvio que todas essas estatísticas podem estar erradas. O número de cristãos que realmente professam e seguem a fé cristã deve ser bem menor, enquanto o número de pessoas que não tem religião ou de ateus pode ser bem maior do que mostram os gráficos. No entanto essa constatação é ainda uma forte evidência da perseguição sofrida por essas correntes em meio a uma sociedade tradicionalmente cristã. Quantas vezes um ateu ou um macumbeiro preferiu se declarar cristão para não sofrer nenhum preconceito por parte de seus vizinhos ou até mesmo de seus próprios familiares?
O Mito fundador do cristianismo
A Última Prece dos 
Mártires Cristãos, 
por Jean-Léon Gérôme, 1883.
Não sei como ser mais explícito ao demonstrar quem são as presas e quem são os caçadores. Mas podemos identificar a origem dessa falácia da perseguição propagada pelos cristãos fundamentalistas do ocidente. Basta considerar a necessidade de uma religião se embasar em um mito fundador. Esse mito que fundamenta toda a razão de ser de uma religião deve ser passado através das gerações inalterável pois é esse o elemento que justifica suas práticas. Os judeus por exemplo se utilizam de um longo histórico de perseguição que vem desde a hollywoodiana fuga do Egito - evento fundador do seu discurso persecutório - até os dias de hoje, e mesmo quando são eles os opressores, suas ações são justificadas por esse mito fundador. A moderna Israel é a terra prometida a eles por deus, mesmo que antes houvesse ali uma sociedade já constituída de palestinos que viviam em relativa paz com seus vizinhos judeus. Não é diferente com a religião de Cristo, um judeu messiânico que pregava o perdão até mesmo às adúlteras e às prostitutas e causou assim um mal estar nas autoridades politicas e religiosas de seu tempo. Mateus concretiza o discurso persecutório dos cristãos quando diz: "E, por causa do meu Nome, sereis odiados de todos. Contudo, aquele que permanecer firme até o fim será salvo"(MATEUS 10:22). 
Cristo foi condenado a morte e martirizado depois que uma multidão preferiu libertar um ladrão em seu lugar. Depois disso sabemos que os romanos temendo uma sublevação contra seu paganismo conveniente, começou a jogar esses cultuadores de Cristo para serem devorados por leões famintos no Coliseu. E o mito fundador do discurso persecutório do cristão foi então concretizado. O cristianismo foi então construído dentro dessa figura arquetípica do cristão perseguido pelas forças opressoras dos maléficos imperadores que tiranicamente e diabolicamente tentavam destruir sua fé. Até mesmo quando o cristianismo se tornou a norma, esse mito fundador serviu como justificativa para seus atos igualmente tiranos - mas não vamos entrar nesse mérito agora.

Os Cristãos e o poder.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Portanto creio que os cristãos atuais não fazem mais do que permanecerem conectados a essa visão arquetípica do martírio de Cristo, enquanto claramente desfrutam de uma influência massiva na politica e nos meios de comunicação dessas "potencias ocidentais". Basta notar que nos Estados Unidos o atual presidente Barack Obama - que é democrata - tem muita dificuldade de aprovar suas medidas mais inovadoras e liberais, pois os republicanos têm maioria na câmara. Enquanto no Brasil vemos um crescimento sugestivo - e preocupante - da Bancada Evangélica. Essa denominação formada por líderes religiosos se fosse um partido seria o 3º maior partido do Congresso, além de terem a presidência da Câmara - Eduardo Cunha. Esse domínio crescente está influenciando até mesmo os deputados católicos que teoricamente formariam a maioria do congresso nacional. Portanto, caros cristãos vocês ainda estão no poder. Entendo que necessitam parecer uma minoria perseguida como foi o caso de seus antepassados nas arenas romanas, e talvez, até sonhem com o martírio na Índia ou na Líbia, mas aqui nas terras frutiferas do novo mundo vocês ainda são os que perseguem.

Fontes:


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

sábado, 14 de março de 2015

Impeachment pôr que?

A situação politica está tão polarizada que se você publicamente critica os potenciais manifestantes de amanhã (dia 15 de Março) você automaticamente é tachado de apoiador do governo...acho legal que se faça essa manifestação, afinal devemos sempre quando possível ou for necessário usar nosso direito constitucional para manifestar nosso descontentamento em relação a politica praticada nesse país. Não sou conivente com o governo atual,que mente descaradamente e manipula os índices tentando nos fazer acreditar que o brasil está ileso nesse cenário, e tenta socializar uma crise  que grande parte foi gerada por incompetência e negligencia politica. Mas vocês vão pedir o Impeachment para que o Michel Temer subir ao poder? Ou acham que é o Aécio que recebe a faixa diretamente? Ou talvez estejam tramando um golpe propriamente dito negando a constituição...Impeachment nessa ocasião é uma medida talvez mais incompetente  do que a própria medida do governo de colocar a Presidente da República em rede nacional para dizer a população que eles devem cortar gastos e que o próprio governo nada em uma quantia exorbitante de dinheiro público que não gera retorno ao bem estar social. Saibam que esse país não vai sair dessa crise enquanto tiver o mesmo sistema politico, portanto, creio que  antes de mudar o presidente, o que não seria assim tão difícil, deveríamos mudar esse sistema viciado em que estamos inseridos...se você acredita que a salvação do Brasil é o Aécio Neves, seu raciocínio está comparativamente muito próximo do de uma criança birrenta que perdeu uma partida de vídeo game. Agora se acha que é um regime militar que vai nos salvar, você simplesmente está doente e precisa tratar sua baixa auto estima e sua ignorância política.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); presidiu o Centro acadêmico do curso de História no UNIFEG em 2007, é membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Escreve para o Blog do André Stanley, sobre assuntos diversos.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Perseguição à cristãos na Índia pode ser indicio do cumprimento da profecia bíblica.

Uma onda de ataques a cristãos na índia e também em alguns países do continente africano, parece reproduzir hoje em dia a perseguição que os cristãos sofriam pelo império romano nos primeiros séculos do cristianismo..agora seus perseguidores são muçulmanos ou extremistas hindus. É uma onda de violência que nos permite refletir sobre o fato de que o livro sagrado dos cristão já apregoava que no fim dos tempos algo assim iria acontecer. Será que enfim uma profecia bíblica parece estar sendo concretizada?....SÓ QUE NÂO.... basta uma rápida pesquisa pela internet e notar que todos os sites que apregoam isso e todos os videos do Youtube que circulam essa ideia de uma perseguição épica ao cristianismos são de origem cristã.Ou seja..é o mesmo que um Corintiano fazer um vídeo contra o aumento da criminalidade - desculpe o sarcasmo. E todas as fotos que esses cristãos usam como evidencias e provas do que estão pregando são na verdade fotos de chacinas urbanas executadas por paramilitares ou mesmo governos militares, ou até mesmo fotos de acidentes. Me pergunto por que fazer uma propaganda tão forte para tentar cumprir uma profecia cujo fim será a nossa destruição? Ainda mais com evidencias falsas facilmente desmascaráveis? É óbvio que há sim perseguição a cristãos na Índia , um país predominantemente Hindu. Mas afirmar que milhares deles vem sendo mortos e usar fotos de corpos carbonizados pela explosão de um caminhão tanque é uma puta de uma charlatanice muito pertinente aos pastores evangélicos atuais... acho que isso é realmente condizente como cristianismo...Vai entender....

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Eliane Brum Fala sobre a crença de que nossos filhos devem crescer sem sofrer.





Publicado originalmente no site da revista época, com o título original: "Meu filho, Você não merece nada."

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.


"Nossa época tem sido 
marcada pela ilusão de que
a felicidade é uma espécie 
de direito."



Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.



"Dizer que “fulano é esforçado” 
é quase uma ofensa. 
Ter de dar duro para 
conquistar algo parece já 
vir assinalado com o 
carimbo de perdedor. 
Bacana é o cara que não estudou, 
passou a noite na balada e 
foi aprovado no vestibular de Medicina. 
Este atesta a excelência dos 
genes de seus pais."



É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.


"Aos filhos cabe fingir felicidade – 
e, como não conseguem, 
passam a exigir cada vez mais 
de tudo, 
especialmente coisas materiais, 
já que estas são as mais 
fáceis de alcançar" 


Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.


O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Eliane Brum é:
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê(Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo). 
E-mail: elianebrum@uol.com.br Twitter: @brumelianebrum

domingo, 12 de janeiro de 2014

Por que não devemos fazer piada com o islamismo? O que você precisa saber antes de fazer humor direcionado ao islamismo.

Charge do profeta Maomé usando um turbante em forma de bomba.
A ilustração é uma das 12 charges publicadas pelo jornal "Jyllands-Posten", em novembro de 2005,
que deu origem a vários protestos por parte de muçulmanos islâmicos


    As vertentes mais conservadoras do islamismo não permite a representação do profeta Mohamed (Maomé em português). Por isso pense duas ou mais vezes antes de querer fazer alguma figura, mesmo que para um trabalho escolar, com uma representação gráfica do profeta Mohamed. Em 2005 o jornal de maior tiragem da Dinamarca – Jyllands-Posten – publicou uma série de caricaturas mostrando o profeta Mohamed. O que para um país democrático ocidental poderia ser algo corriqueiro e inocente foi a causa de uma grande instabilidade diplomática. Varias embaixadas dinamarquesas sofreram retaliação e ameaças diversas em vários países muçulmanos e uma onda de violência que ocasionou em mais de cem mortes. 

    Por esse único acontecimento contemporâneo podemos notar o quanto uma singela manifestação artística e bem humorada pode causar entre uma sociedade fundamentalista. Muitas vezes acompanho pela internet alguns humoristas que se aproveitando da sua liberdade de expressão e de um certo distanciamento da religião islâmica, desferem com o mesmo entusiasmo uma critica muito bem humorada através, não só de charges, mas também de vídeos postados em seus canais no Youtube direcionada ao cristianismo – religião dominante no ocidente. Mas óbvio que conservadores não são exclusividade da religião muçulmana e ocasionalmente vejo a reação desconcertada desses conservadores cristãos contra essa onda de humor que oportunamente critica a religião. 

    O caso mais recente é o vídeo de “Especial de Natal” do pessoal da “Porta dos Fundos” que vem sofrendo muitas criticas de cristãos de todas vertentes no Brasil.




    A maioria das criticas do cristianismo conservador diz respeito ao fato de esses humoristas nunca fazerem piadas com os muçulmanos, valendo ai uma analogia com aquela ideia de que: “você zoa comigo que sou fraco e incapaz de te bater, mas quero ver você mexer com o meu irmão que é forte e já tem varias passagens pela polícia.”

    Mas o próprio “Porta dos Fundos” fez um vídeo bem divertido sobre uma loja de burcas onde claramente criticam a rigidez da cultura islâmica em relação a liberdade feminina (veja o vídeo). 

    Também acho que seria muita ousadia mexer com um pessoal que a qualquer momento pode te ameaçar com uma dinamite. “Ao contrario do Deus imaginário que você acredita, os terroristas muçulmanos são muito reais, de carne e osso... ” assim disse o vloguer Clarion de Laffalot em um de seus vídeos respondendo a uma dessas criticas. (assista aqui) .”

    Na verdade os humoristas brasileiros tem pouca lenha para queimar contra os islâmicos, afinal somos um país historicamente dominado pelo cristianismo, do vale fazer uma piada com uma religião que nem é tão popular por aqui?

    Já o escritor britânico de origem indiana Salman Rushidie em 1989 publicou o livro “Versos Satânicos” onde o islã e principalmente o Corão é criticado por perseguição aos cristão e hindus. Em decorrência dessa publicação vários militantes islâmicos queimaram seu livro e manifestaram contra o autor. Mas foi no Irã onde Rushidie sofreu seu maior revés pois teve sua condenação a morte decretada pelo aiatolá Komeini em 1989. Alguns lideres iranianos ofereceram 6 milhões de dólares pelo assassinato de Rushidie, o que o fez viver escondido desde então. 


Salman Rushidie autor de Versos Satânicos

    Os vloggers americanos, por exemplo, não podem dizer o mesmo, afinal em varias oportunidades seu governo declarou guerra a varias países muçulmanos e batizou essas guerra de “Guerra ao Terror.” E o retardado presidente George Bush teve a brilhante ideia certa vez de chamar de “uma nova cruzada” – se referindo as campanhas militares que os cristãos empenharam contra os islâmicos entre os séculos XI e XIII. 

    Mas devo dizer que uma vlogueira americana de olhar travesso e muita coragem me surpreendeu. Ela postou um vídeo onde respondia exatamente as mesmas criticas sofridas pelos humoristas brasileiros. Tipo: “Por que você não faz piadas com os muçulmanos?” Seu nome é Jaclyn Glenn e já é conhecida na internet por postar vídeos anti-religiosos em seu canal no youtube. Não sei se essa menina estará viva por muito tempo, mas é certo que ela tem muita coragem. 


    A Garota zomba até mesmo dos erros de linguagem cometido por seus críticos e detonando os islâmicos que diziam que o islã é uma religião da paz e que por sua vez escreviam posts muito ofensivos a ela tipo: “Sua puta, você alguma vez já leu o Corão ou conversou com algum muçulmano antes? Pare de falar merda de coisas sem conhecer, sua vadia imunda e horrível.” Em um momento quando um religioso islâmico a critica dizendo que Jaclyn poderia sofrer conseqüências sérias coso nãos se retratasse, afinal o Islã é uma religião que prega o “Olho por olho”. Depois disso essa garota simplesmente pega um quadro branco e começa fazer uma caricatura muito bizarra e depreciativa do profeta Mohamed. Olhos grandes, “cabeça de merda”, boca de palhaço com dentes totalmente detonados e para finalizar um par de chifres, uma clara referencia ao diabo da mitologia cristã. 

    Considerando o que já foi feito contra alguns críticos do Islã, acho que essa menina está entrando em terreno minado, literalmente. Seria uma pena ver uma noticia em um telejornal dizendo que essa garota linda foi feita em pedaços por uma bomba. Ela é bonitinha, não sei se você pegaria mas, posso dizer que ela tem colhões.



André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Por que eu estudo História?





Muitos me perguntam “Por que você escolheu a história? O engraçado é que sempre fico pasmo quando isso ocorre, porque talvez não se tem a medida correta da utilidade da História para a humanidade. Desde Marc Bloch vem se tentando de diversas formas definir a relevância da história. Pois confesso que a aptidão de muitos de meus colegas para história passa pelo crivo da curiosidade. Muitos até são atraídos pela imaginação fértil de alguns escritores de romances históricos que desviam liricamente os rumos dos acontecimentos para criar um romance usando vultos históricos que tiveram certa relevância. 

O fato é que fosse essa curiosidade o único elemento atrativo da história – afinal a curiosidade é que levou o homem a grandes feitos – seria uma razão sublime, principalmente no campo da literatura. Mas podemos identificar um fator mais potente no estudo da história do homem e sua ação no mundo. As grandes religiões por exemplo - óbvio que é um lugar comum sempre trabalhar com as três grandes religiões, apenas por uma questão didática, mas isso se aplicaria a todas a religiões - são fundamentadas sobre bases históricas que a legitimam entre seus praticantes. Essa utilização da história como fundação e legitimação de uma crença é um exemplo de como ela – a história – é poderosa.

Por que os religiosos são tão bem sucedidos na utilização da história? – a própria história nos mostra o quanto essas instituições são poderosas mesmo hoje em dia. Uma das possíveis respostas e justamente a falta de conhecimento histórico da sociedade. Isso não é exclusividade de nossos tempos, pois desde a antiguidade já se destacavam alguns vultos sociais que ao se utilizar de uma história fundadora puderam criar um embrião que por vezes se tornou um credo em comum em toda a sociedade – falo dos grandes profetas que mesmo não tendo a intenção de criar uma religião foram responsáveis pelo surgimento delas. 

Mas a maior causa do surgimento de ideais espiritualistas no meio das sociedades não vem de cima, é a própria incapacidade das pessoas de questionar suas praticas e modos de vida que as tornam suscetíveis a serem guiadas por mentes muitas vezes doentias demais para notarem sua interferência na vida social de suas comunidades. 

Meu interesse pelo conhecimento histórico surge justamente da capacidade que adquiri de questionar a legitimidade de livros sagrados e da história oficial das nações. O selo do sagrado e do oficial são formas de engessar a história. Há de se notar que se a história for sempre vista como uma corrente de fatos retos e inquestionáveis, sempre haverá um tirano ascendendo ao poder e religiosos cometendo atrocidades que desafiam a compreensão. A passividade do homem é uma doença perigosa e fatal não somente por fazer do homem uma ovelha amestrada, mas principalmente por cegá-los a ponto de considerarem aqueles que conseguem se livrar das garras estreitas de seus pastores – analogia mais que pertinente – como insanos.

Quem escolhe ser historiador simplesmente por curiosidade já pode ser considerado um questionador, mas isso somente ainda não faz dele verdadeiramente um historiador. O que conduz alguém a se embrenhar pelo território mágico da história é, sobretudo seu espírito contestador. Questionar as ações do homem é tarefa fundamental de cada historiador que se preze. 

Há uma razão histórica para sermos o que somos, e vivermos no mundo em que vivemos. Somos herdeiros de um processo histórico que jamais acaba. Mas o que devemos ter em mente é o fato de sermos os atores no palco da história. O homem é aquele que age e cria. Não haveria história se não houvesse o homem. O que parece uma redundância as vezes é o que tem de ser dito, pois notamos atualmente uma atrofia do homem em relação a sua história. Um homem apático demais para almejar fazer história. 

Escolhi estudar história por não estar satisfeito com as explicações oficiais. Por não concordar com a tirania de alguns. E principalmente para notar, olhando do lado de fora dos acontecimentos o que realmente ocorreu e como agir mediante esses acontecimentos.

A história que foi por muito tempo pejorativamente tachada de uma simples arte, em detrimento de considera-la ciência, pode ser sim considerada uma arte sem nenhum constrangimento. A História nada mais é do que a arte de questionar e contestar o que está escrito. É a arte da não aceitação do que lhe é imposto como verdade. Pensem nisso.



André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo é artista digital.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Como surgiu o Natal? Tudo que precisa saber sobre a origem do Natal


No dia 25 de Dezembro de um ano qualquer do primeiro século nascia na cidade de Belém um personagem que iria mudar toda a história da humanidade. Devido a tamanha importância a história passou a ser divida em duas eras, antes e depois de Cristo. Depois desse grande vulto passar pela Terra todos os anos após sua morte ocorrida no ano 33 da nossa era, comemora-se o Natal em uma referencia direta ao dia do nascimento de Jesus cristo. Pois a palavra Natal vem do verbo latino “Natalis” que significa exatamente nascer.

Essa seria a explicação mais simplista do porquê comemoramos o Natal. No entanto, uma pessoa com um mínimo de senso crítico e que tenha estudado um pouco de história sabe que acreditar em uma explicação tão simplista assim indica o quão alienada essa pessoa está. Em história, da mesma forma que em uma investigação policial, trabalhamos com evidências. Por isso vamos falar primeiramente da falta de evidências nas afirmações do primeiro parágrafo desse texto.

Não há evidencias consideráveis de que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, ou mesmo de que teria nascido no ano zero da nossa era tendo morrido com 33 anos, ou seja no ano 33 d.C. Não há evidencias consideráveis de que tenha nascido em Belém, pois era conhecido como Jesus de Nazaré, uma cidade insignificante para época. Não há evidencias de que a palavra Natal tenha sido implantada devido ao nascimento de Cristo. Para alguns historiadores não há nem mesmo evidencias fortes o bastante para dizer que Cristo tenha sequer nascido. Muitos acham que é um personagem mítico, e se levarmos em conta as pesquisas recentes do pesquisador americano Joseph Atwill, 64 anos, Jesus foi um personagem fictício criado pelo próprio império Romano para controlar as massas. “É muito claro para mim que os romanos criaram o cristianismo como uma religião de Estado, uma estrutura de autoridade do topo para baixo.” Mais uma teoria conspiratória que pode dar milhões ao autor, ou uma evidencia crível?

Mas então, quem inventou tudo isso? E como as pessoas vêm sendo enganadas esse tempo todo?

Na verdade tudo se trata de tradição. Se você é católico e celebra o Natal tradicional deve estar ciente de alguns pontos cruciais. Foi somente no ano 522 que a Igreja instituiu o dia 25 de dezembro como a celebração do Nascimento de Cristo. Mas o feriado já era comemorado antes pelos cristãos Romanos. Já no ano de 334 o Natal já figurava entre os feriados Romanos. Mas o motivo da instituição dessa data como a comemoração do nascimento de Cristo é incerta, mas é notório que o clero da Igreja romana estava provavelmente se aproveitando de algum festival que já praticavam nessa data. 


Uma corrente historiográfica bem antiga defende que é derivado da comemoração Romana em honra ao deus do Sol (Sol Invictus). No entanto apesar de ter sido considerada uma evidencia forte por séculos, defendida até mesmo por historiadores cristãos que investigaram essa possibilidade, vem perdendo força entre os pesquisadores contemporâneos. Há muitas contas mirabolantes que procura entender a instituição dessa data, uma delas diz que na antiga tradição cristã cristo teria sido morto no dia 25 de março, e como sua passagem pela terra deveria ser representada por um numero exato, Cristo teria sido concebido também no dia 25 de Março. Nove meses depois dessa data é exatamente 25 de dezembro, ou seja, o nascimento de Jesus. 

Representação de Mitra




Entretanto, evidencias mais fortes dão conta de que o Deus Mitra de origem persa, que futuramente foi assimilado pelos gregos e depois pelos romanos nasceu segundo uma antiga tradição no dia 25 de dezembro. Portanto a magnífica estratégia de Roma para acabar com o paganismo após sua conversão ao cristianismo era justamente transformar os antigos festivais de adoração aos deuses pagãos em feriados em comemoração a personagens cristãos. Levando em consideração a importância do Deus Mitra para os romanos, não é de se estranhar que ao mais importante personagem do cristianismo fosse dado o mesmo grau de importância e com isso o que era o dia de Mitra passou a ser o dia de Cristo. 


Muitos outros feriados pagãos estão disseminados hoje em dia em comemorações do calendário cristão. Mas devemos lembrar que o quanto mais regredimos cronologicamente na história desses festivais vamos notando que surgiram de comemorações totalmente ligadas a terra; ao plantio e a colheita e as mudanças das estações do ano. Os povos antigos antes mesmo do surgimento das religiões de estado criavam seu calendário baseados no que conheciam dos fenômenos naturais para que não passassem dificuldades em uma época onde uma boa colheita determinaria a vida dessas pessoas pelos próximos meses. 

Hoje todas essas comemorações perderam seus significados essenciais. E a cada era, novas praticas são incorporadas. No atual cenário do consumismo globalizado o Natal é só uma oportunidade para o comercio de mercadorias. No entanto, é admirável a força dispensada por religiosos ou não em dar um significado majestoso a esse feriado. 






André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Religião: Remédio que pode se tornar veneno.



Apesar de não crer em nenhuma divindade e não ser praticante de nenhuma religião, nunca fui radicalmente contra as religiões. Tenho muitos amigos e amigas religiosos dos quais estimo muito e, essa estima é verdadeira, não é apenas um agrado para manter a amizade. Tanto é que quando um escândalo ou uma inconsistência envolvendo algum religioso ou mesmo alguma instituição religiosa ocorre, não sou econômico nas minhas criticas e procuro falar sobre elas em bom tom, e evito ofende-los com colocações dogmáticas. Sei que as religiões têm papel muito importante nas vidas psicológicas das pessoas, sendo em alguns casos fator preponderante, onde funciona como único elemento a manter certa sanidade a alguns indivíduos.
"A religião pode ser um elemento 
muito confortante e 
consolador na hora de uma 
peleja emocional muito forte....


Tive uma experiência familiar muito pertinente a esse respeito quando um sobrinho meu que se envolveu com drogas e somente encontrou alento e condição de continuar vivendo socialmente por conta de uma instituição religiosa da qual sou eternamente grato. Portanto sou um cético que acredita piamente na afirmação “O melhor remédio contra o abuso de drogas é Jesus”. Não me sinto constrangido como um cientista social dizendo isso. E também nunca fui simpático a certos movimentos neo-ateus que surgiram a rodo por ai nos últimos anos, não creio que o ateísmo seja algo a ser organizado, isso seria uma contra-religião, ou seja, uma religião para combater outras tantas historicamente construídas.

A religião pode ser um elemento muito confortante e consolador na hora de uma peleja emocional muito forte, como a perda de um ente querido ou na perda da motivação para viver e em diversos transtornos que o ser humano pode sofrer. A religião tem o poder de socorrer uma pessoa desesperada dando a ala uma sobrevida que de outra forma ela não conseguiria. A religião é uma terapia que se bem utilizada e por pessoas inteligentes pode surtir em verdadeiros “milagres.”

Portanto quando a religião se presta a dar conforto emocional a uma pessoa que a busca isso, acho louvável, pois conforto psicológico hoje em dia é raro e talvez por isso o número de religiões evangélicas vem crescendo tanto no Brasil.

O problema é quando essas instituições começam a impor seus dogmas como um procedimento padrão que deve ser executado ou a ira divina será implacável. Não vejo problema em você acreditar em Deus e ser caridoso com uma pessoa necessitada. Agora proibir uma família de permitir que seu filho anêmico passe por uma transfusão de sangue baseados em preceitos bíblicos, como testemunhei acontecer com testemunhas de Jeová, é de uma inconseqüência monstruosa. Não é mais do campo religioso, é um crime hediondo de omissão de socorro.

Como alguém em sã consciência pode usar algo tão poderoso quanto uma religião para dissipar a morte? Parece uma pergunta desesperada de uma pessoa assustada demais com a maldade humana, mas estou ciente que a religião, a exemplo de um potente transporte coletivo pode ser maravilhosa para diversas pessoas que não possuem meios para se deslocarem de sua casa ao trabalho e precisam dessa alternativa, mas se você da um ônibus nas mãos de um grande condutor de carruagens algo muito perigoso pode acontecer.

A religião é o remédio que pode ser transformado em veneno nas mãos de pessoas que ignoram a dosagem necessária para cada tipo de pessoa que lhes prestam ajudar.

"Não questiono a importância 
da religião na vida das pessoas, 
o que me preocupa é a possibilidade 
delas se tornarem uma medida 
de moralidade a ser seguida"


Nunca encontraremos a salvação da humanidade nas mãos de nenhuma religião. Criamos as religiões por sermos fracos demais para suportarmos nossa sombra. O ser humano é um ser sombrio. Não somente por ter uma índole notoriamente selvagem e egoísta, mas por possuir grande parte de sua vida psicológica escondida em um abismo aonde a luz nunca chega a iluminar. Somos misteriosos. Não sabemos quem somos se, somos bons ou ruins. Sabemos, no entanto, que seguindo uma cartilha religiosa qualquer nos sentiremos mais seguros por trilhar um caminho já delineado por outros na mesma situação que nós. Mesmo que para isso paguemos o preço da ignorância e abdiquemos da maior virtude humana que é a capacidade de questionar sua existência.


Não questiono a importância da religião na vida das pessoas, o que me preocupa é a possibilidade delas se tornarem uma medida de moralidade a ser seguida. Imagine em uma sociedade ainda metafórica, a quantidade de pessoas que morreriam por não serem submetidas a uma simples transfusão sanguínea, o aumento considerável de ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis pela proibição do uso da camisinha ou quantas famílias seriam desfeitas por conta de discordâncias religiosas. Não vislumbro tal cenário para o Brasil, mas os lideres religiosos hiper-conservadores precisam sim ser responsabilizados pelos crimes que eventualmente cometem em nome de suas diretrizes.


André Stanley
André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); presidiu o Centro acadêmico do curso de História no UNIFEG em 2007, é membro efetivo da Ass. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência.

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