Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2020

O perigo dos líderes religiosos na política brasileira

Image result for edir macedo


A interferência da religião na política é muito eficiente, afinal ninguém irá questionar a idoneidade de seu pastor, seu padre ou seu guru espírita, e justamente por isso é perigosa, desfigura o Estado laico, impõe os interesses de alguns líderes espirituais como se fosse o interesse de uma categoria, no entanto, o mais nocivo é o negacionismo científico, a desautorização das recomendações daqueles que por obrigação devem permanecer lúcidos em meio à essa guerra de narrativas. No final, quem nos socorrerá das epidemias e das mazelas impostas pelo autoritarismo será a ciência através de seus erros e acertos amparada pela prudência e pelo bom senso. Sempre será assim, um eficaz cirurgião nunca é exaltado pelos anos de estudo e apuramento de sua técnica, quando salva a vida de um doente agonizante, no máximo como um instrumento de deus que através das orações alheias curou o doente. E assim caminha nossa pátria, sendo desfigurada pelo ódio que aos olhos de um guru espiritual é "amor", demonstrando a cegueira moral em que as religiões - sim todas - estão imersas.


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

Como se inicia um processo de Impeachment em 8 manchetes



Image result for bolsonaro




Repare que os ingredientes fundamentais para um pedido de Impeachment são uma crise política em sintonia com um crise econômica.

1- Crise política:

Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal foram grandes protagonistas do pedido de Impeachment de Dilma Rousseff, por isso as manchetes abaixo são dignas de serem levadas em consideração.


Estadão - 16/03/2020

O Globo - 16/03/2020

O Tempo - 16/03/2020

Reinaldo Azevedo UOL - 15/03/2020


2- Crise econômica

O Antagonista - 16/03/2020

Folha de São Paulo - 16/03/2020

3- crise de popularidade - As duas manchetes abaixo parecem mostrar que a popularidade de Bolsonaro é grande e ainda o sustenta no cargo, no entanto é preciso ler nas entrelinhas de forma inteligente, as matérias mostram a desespero do presidente por manter seu gado fiel para poder brigar com seus opositores e com o congresso nacional mesmo em meio a uma pandemia mundial.


Folha de São Paulo - 15/03/2020

Correio Braziliense - 15/03/2020

Estejam preparados...


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

sábado, 14 de março de 2020

A baixeza moral e as mentiras compulsivas do clã Bolsonaro em 4 manchetes


Image result for eduardo bolsonaro mentiroso


“Brazil's President Bolsonaro tests positive for Corona virus”
Fox News - 13/03/2020 ( O link foi retirado após a denúncia de fake news)




Para quem não entendeu o degrade de notícias acima, vamos explicar:

Os Bolsonaros (Eduardo Bolsonaro especificamente) chegaram ao cúmulo de plantar uma notícia falsa na "Fox News", dizendo que o presidente Jair Bolsonaro havia testado positivo para o Novo Corona Vírus. O plano era atrair a imprensa brasileira para a armadilha e depois acusá-la de propagar Fake News – afinal esse é o modus operandi desses jumentos.

Quanta imaturidade! A imprensa de uma forma geral obviamente não caiu nessa trama de cinema trash - tirando alguns veículos tendenciosos que se recusam a apurar os fatos e acabam se juntando a horda de imbecis.

Depois dessa atitude inconsequente, Eduardo Bolsonaro acusa a grande mídia de veicular "Fake News" ao divulgar a manchete da Fox News. Entretanto, a própria Fox News emitiu nota revelando que a fonte da sua matéria fora o próprio filho do presidente, Eduardo Bolsonaro.

Óbvio que o “Dudu Surfistinha” negou toda história e disse que nunca conversou com o tal jornalista – John Roberts. Aí eu pergunto: Será que a Fox News mentiu? Vamos pensar um pouco. A Fox News é uma emissora de direita que apoia abertamente os republicanos ostensivamente exaltando o governo de Donald Trump, por que eles mentiriam?


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

"Inacreditável" - Série mostra o drama de vítima de estupro desacreditada. (spoilers)





Esta série da Netflix tem potencial para ser uma peça de destaque entre as melhores séries de investigação criminal do catálogo. Inacreditável (Unbelievable) trata de traumas irreversíveis em vítimas de estupro e da dificuldade encontrada por grande parte dessas vítimas que são desacreditadas por autoridades despreparadas para realizarem um interrogatório.

A série acompanha duas histórias simultaneamente, em uma delas temos duas detetives do estado do Colorado que ao cruzar dados de suas investigações começam a traçar o perfil de um estuprador em série e se depararem com evidências comportamentais e materiais que ligam alguns casos que elas vinham investigando. Em paralelo a essa investigação, podemos acompanhar também a história de uma jovem de 18 anos que denunciou um estupro sofrido por ela no apartamento em que morava em Lynwood, no estado de Washington. Durante o interrogatório foi convencida pelos policiais de que não havia nada de substancial que pudesse realmente identificar que um estuprador estivesse no quarto da vítima. A vítima retira sua queixa e logo em seguida é processado pela cidade por falso testemunho.




A trama foi baseada em um evento real que ocorreu entre 2008 e 2011, quando uma série de mulheres relataram terem sido estupradas durante a noite enquanto dormiam. Todos os casos revelaram um mesmo perfil de estuprador e um mesmo modus operandi.

Depois de uma longa investigação, as detetives Karen Duvall e Grace Rasmussen conseguem todas as evidências necessárias para chegar até o criminoso que foi preso e condenado a mais de 300 anos de prisão pelos crimes.
Visualmente a série explora bastante os modernos quartéis generais da polícia investigativa do Colorado. Salas grandes e arejadas, equipadas com computadores modernos e monitores enormes de alta definição, salas de conferência com mesas de madeira e iluminação natural provinda de uma janela inteiriça com uma bela visão de parte da cidade. Não sei se essas instalações correspondem à realidade, mas a impressão que fica, é de que as delegacias de polícia do interior do Colorado contrastam totalmente com as caóticas delegacias de polícia de Nova Iorque ou Los Angeles que víamos nos filmes policiais dos anos 70 e 80.

Creio que a série, após causar um mal-estar no telespectador, agradará as representantes dos movimentos feministas, afinal todas a protagonistas são mulheres e executam um trabalho técnico primoroso no que diz respeito a investigação criminal. Socialmente falando a série aborda a dificuldade que as vítimas de estupro ainda encontram ao denunciar o crime, em alguns momentos são desencorajadas a fazê-lo. Notamos nitidamente na história de Marie – a jovem de 18 anos que primeiro denunciou ter sido estuprada – que há uma crítica contundente à cultura machista que ainda persiste entre os coletores de depoimentos nos departamentos de polícia por todo o EUA. Afinal de contas, foi preciso que duas detetives, mulheres, se unissem para desvendar o crime, e colocar o criminoso atrás das grades, caso contrário o estuprador estaria solto pelas ruas violentando mais mulheres.

Os personagens masculinos da série são apáticos, aparecendo em segundo plano como meros apoios retóricos e em sua maioria são incompetentes, como os detetives que primeiro tomaram o depoimento de Marie e mesmo depois dos vários relatos da vítima e de evidências materiais do crime decidiram negligenciar tudo para manter um discurso que já tinham previamente, a de que a menina já tinha um histórico de má conduta e que realmente ela estava querendo chamar a atenção, o que levou a depoente a mudar o discurso e negar ter sido vítima de um crime cuja denuncia só lhe rendeu o escárnio e desaprovação dos agentes públicos que tinham por dever defende-la.

Marie representa a garota rebelde e sem pais  e que por isso tem uma adolescência conturbada, mas mesmo assim consegue trabalhar para se sustentar e mesmo debaixo de toda sorte de adversidades provindas de sua situação de desamparo e exclusão social – há momentos que parece que Marie simplesmente é tragada por uma sucessão de eventos traumáticos dos quais ele jamais conseguirá sair e tudo que já era ruim tende sempre a piorar –  ela ainda é capaz de seguir em frente sem a ajuda de ninguém, somente pelo seu mérito e personalidade forte.

A série foi baseada no artigo "An Unbelievable Story of Rape” (Umainacreditável história de estupro) publicado em 2015 pelos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong que trabalharam separadamente na investigação da história e em 2016 receberam o prêmio Pulitzer por esse trabalho. O artigo se tornou um livro chamado “A False Report: A True Story of Rape in America” (no Brasil: Falsa acusação – Uma história verdadeira -Editora Leya).

Os nomes das personagens foram alterados na série, não se sabe porque, sabemos no entanto, que Marie é um dos sobrenomes da jovem que denunciou o estupro pela primeira vez e foi a inspiração para a personagem Marie Adler (Kaitlyn Dever). As detetives Rasmussen (Toni Collette) e Duvall (Merritt Wever) que desvendaram o caso e prenderam o criminoso são baseados em duas detetives reais do estado do Colorado, respectivamente Edna Hendershot e Stacy Galbraith.

A série é muito promissora e certamente será o estopim de muitos comentários de amor e ódio nas redes sociais, afinal trata de um tema difícil de digerir na sociedade moderna, a negligência quase que institucionalizada em relação a mulheres que decidem denunciar um estupro.

Assista o trailer oficial




Fontes:


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Como nossa personalidade é formada? Como aprendemos a viver?

Stanley Creation




Se a vida é uma forma de nos esculpir como pessoas como dizia Foucault, de que forma executamos esse processo?

Houve uma época em que se acreditava que o desenvolvimento humano era um fator puramente biológico, ou seja, cada um de nós já nascemos equipados com certas aptidões e que o meio em que vivemos tem pouca ou nenhuma influência no nosso desenvolvimento psicológico. Para contrapor essa corrente de pensamento, outros vieram a contestá-la, defendendo que o ser humano é totalmente moldado pelo meio em que vive, relegando ao aspecto biológico uma importância menor.

Outros estudiosos do desenvolvimento humano trouxeram uma abordagem mais ampla e condizente com a complexidade do ser humano.
São eles, os interacionistas, que pregam que o desenvolvimento humano não é exclusividade nem do meio social, nem do biológico, mas sim de uma interação entre esses dois fatores. Dentre os cientistas mais conhecidos que defendiam essa abordagem estão Jan Piaget e Vygotsky.

Para Piaget, o ser - incluindo os animais - busca um equilíbrio entre o seu biológico e o meio em que vive. E essa busca por equilíbrio se dá através de dois mecanismos, a assimilação e a acomodação. Através da assimilação o organismo vai tentar encontrar uma forma de significação para sua relação com o meio onde está inserido sem que para isso mude sua estrutura primordial. Através da acomodação, o organismo busca mudar suas estruturas, para se adequar ao que o meio ambiente lhe impõe.

Esses dois mecanismos ocorrem a todo momento durante o processo de desenvolvimento do indivíduo. Se uma criança recebe um brinquedo, como uma bola por exemplo, pela primeira vez, ela fará  assimilação ao esticar o braço para segurar a bola, pois isso já faz parte de seu repertório anterior onde ela teve que esticar o braço para pegar algum outro brinquedo. No entanto, a acomodação vai ocorrer quando ela notar que ela terá que abrir os dedos até um certo limite e terá que pressionar o objeto com uma determinada pressão, e notará que essa bola se difere de uma bolinha de gude, por exemplo.

Para Piaget, o desenvolvimento humano ocorre através de processos sucessivos de maturação comum a todos nós.

1º período: Sensório-motor              (0 a 2 anos)
2º período: Pré-operatório                (2 a 7 anos)
3º período: Operações concretas     (7 a 11 ou 12 anos)
4º período: Operações formais         (11 ou 12 anos em diante)

Essas etapas ocorrem sempre nessa ordem com qualquer indivíduo, podendo variar um pouco a idade em que cada uma delas ocorre. Portanto, Piaget acredita que é um processo biológico, onde o impacto da educação e dos processos de aprendizagem é relativamente baixo, apesar de ser necessário.
Já na concepção proposta por um outro interacionista, o russo Vygotsky, o desenvolvimento humano ocorre em consonância com o ambiente que o rodeia, sendo importante levar em conta os aspectos históricos, sociais e culturais desse indivíduo. Para Vygotsky o desenvolvimento da criança ocorre de forma ativa, ou seja, ela não está totalmente a mercê do ambiente, podendo ela própria agir e interferir em seu desenvolvimento como indivíduo.

Ou seja, a criança se apropria do social de uma forma particular e individual. Vygotsky não aceita a proposta piagetiana de que existe um sistema universal que rege o desenvolvimentismo de toda e qualquer criança, para ele a preponderância dos fatores biológicos sobre os sociais ocorre apenas no início do desenvolvimento da criança.
Vygotsky defende que o homem não nasce homem, ele se torna homem em sua interação com os outros, dando-se então o processo de humanização desse indivíduo.

Como podemos notar, são duas formas clássicas que ajudaram a moldar a psicologia moderna e é estudada, testada e aprovada ou refutada nas disciplinas que buscam uma metodologia de ensino/aprendizagem. No entanto, as discussões não terminam ai. 

Se há uma confluência entre estas linhas de pensamentos, é o fato de que o homem é incontestavelmente um animal social. Ou seja, um primata que devido ao processo de seleção natural, onde os seres mais preparados ao meio em que vive sobrevivem em detrimento dos menos preparados e veio a desenvolver a capacidade de criar sociedades que foram se desenvolvendo de forma cada vez mais complexa em um processo progressivo de humanização. 

Freud foi talvez o pensador que mais se debruçou nessa relação do homem primitivo que ainda há em cada indivíduo, com a sociedade que se desenvolveu ao seu redor. É através da psicologia desenvolvida dentro de um cérebro avantajado que permitiu ao homem, agora sob o genérico Homo Sapiens, criar estruturas para controlar o animal puro que nós somos em essência, para dar lugar agora a um ser social e sociável. 

Somos seres biopsicossociais, sintetizando de forma simplista. Somos estruturas Biológicas formados por células organizadas por meio de um código genético que antecede as questões sociais e psicológicas, ou seja, independe destas questões. Tornamo-nos seres sociais ao longo de nosso desenvolvimento biológico e nesse processo somos regrados pela comunidade na qual estamos inseridos (família, escola, trabalho, religião, etc) e para mediar esses dois fatores, somos levados a cultivar nosso comportamento de modo a nos encaixar dentro das regras básicas do convívio social, através de ferramentas psicológicas que desenvolvemos desde tempos remotos para amenizar esse conflito. 

Aliás, segundo a teoria Freudiana, é através deste conflito interno entre o ser biológico e ser social que vêm a tona em nossas neuroses cotidianas. Como o processo de seleção natural ainda está em curso, e o homo sapiens vem demonstrando especial capacidade de se adaptar ao meio, desenvolvemos a habilidade de deixar essa batalha psicológica velada em um estado de inconsciência. Ou seja, sentimentos como culpa, obsessões diversas, estres emocional, incontáveis crises de ansiedade que não sabemos de onde vêm, é o preço que pagamos por sermos humanos.

Portanto, temos um escopo teórico que nos permite entender, minimamente, que nos diferenciamos dos outro animais, ditos irracionais, pelo fato de termos desenvolvido uma habilidade, até então peculiar, de raciocinar sobre nossa própria existência. Nesse sentido somos capazes de moldar nosso comportamento, no entanto, dentro dos limites bem definidos de fatores biológicos e sociais. 

É assim que surge outra característica de extrema importância no cadinho psicológico que nos forma como indivíduos, a memória. Um fator de grande impacto no desenvolvimento de nossa vida social foi a capacidade que desenvolvemos de registrar por meio de códigos linguísticos a nossa história. Além de organismos biológicos que criaram sociedades complexas com a ajuda de mecanismos psicológicos, somos seres históricos.

to be continued......


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital. 








quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Da Folia de Reis ao Halloween.

Foto: Pit Thompson - 62º Encontro Nacional de Folia de Reis de Muqui ES


Hoje em dia muito se fala na coexistência pacífica de várias culturas distintas em uma mesma sociedade, e para isto se cunhou o termo multiculturalismo. O Brasil, devido às suas proporções continentais e aos vários povos distintos que ajudaram a construir sua cultura, seria um exemplo de país multicultural, pois em um mesmo território politicamente constituído, podemos ter o privilégio de ver danças de origem indígena, como a Catira, danças rituais provindas de povos africanos, como a Congada, e ainda rituais da religiosidade popular que foram trazidas pelos portugueses, como a Folia de Reis, sendo todas praticadas em uma atmosfera de relativa paz. Tanto a Catira, como a Congada e a Folia de Reis são manifestações culturais de origens distintas que fazem parte do que se convencionou chamar de “cultura tipicamente brasileira”.

O Brasil possui uma rica e complexa atividade cultural, e podemos notar que estas atividades coexistiram paralelamente durante séculos de colonização, escravidão e imigração. Será que nossa rica cultura será agora nesta era da internet, suplantada por este emaranhado de culturas estrangeiras, que em muitas ocasiões se impõem em detrimento das nossas? 

        Desde o fim da Guerra Fria, quando o capitalismo vem conseguindo status de vencedor, gerando até algumas teses que decretavam o fim da União Soviética como o fim da própria história, o mundo vem passando por uma aceleração do processo de globalização. Processo esse que grosso modo, teve início com a expansão marítima dos países ibéricos no início do século XVI. Foi se intensificando com a Revolução Industrial na Inglaterra do século XVIII. Mas foi somente com o fim da bipolarização entre os “blocos" capitalista e comunista, que esse processo vem se evidenciando de forma realmente global.

A queda do Muro de Berlim pode ser considerado o marco simbólico que ilustra uma ideia de propagação do capitalismo como regime que democratizaria todo o globo. A dominação ideológica do capitalismo foi responsável, dentre outras coisas, por uma visão global de uma cultura dominante, fundamentada sobretudo, no padrão cultural norte-americano. O “American way of life” se espalhou mundo afora como um modelo a ser atingido pelos cidadãos dos países periféricos. 

Neste sentido, manifestações culturais provindas dos Estados Unidos são introduzidas no Brasil como elemento que integra uma noção de cultura superior, por estar vinculada à modernidade. Isto ocorre muitas vezes em detrimento da cultura tradicional local que passa a habitar um campo secundário nas relações culturais em um mundo cada vez mais globalizado. Esta globalização que se intensifica continuamente gera, no entanto, em âmbito nacional, alguns antagonismos provocados, sobretudo pela ação do Estado no intuito de fortalecer a identidade nacional. 

Assim, a introdução de uma manifestação cultural provinda dos Estados Unidos, como o “Halloween”, encontra alguns empecilhos internos, como movimentos de cunho nacionalistas, frentes formadas por políticos – muitas vezes oportunistas – tentando demonstrar algum amor a pátria ou de religiões evangélicas realizando uma verdadeira “Cruzada” contra o paganismo.

No entanto, o “Halloween” praticado no Brasil hoje está isento do significado que esta festa possuía para aqueles que viviam nos países onde ela surgiu, ou que foram colonizados por estes. Nos Estados Unidos, de onde esta prática se espalhou para o mundo, o “Halloween” ganhou status de uma das datas do ano de maior faturamento no comércio, perdendo apenas para o Natal. Além disso, o cinema comercial norte-americano deu a essa festa um certo padrão às suas práticas. É essa noção que veio a se instalar no Brasil nas últimas décadas. As crianças e adolescentes que praticam o “Halloween” no Brasil, não estão com isso, celebrando um festival folclórico, mas sim se integrando ao mundo do entretenimento global.

São os próprios atores sociais dessas manifestações que podem descrever melhor o que estas práticas significam para suas vidas como seres sociais. Neste contexto, o objetivo de um pesquisador da história cultural brasileira passa a ser, contrastar opiniões e analisar os mecanismos que levam uma tradição estrangeira a se impor perante uma cultura que possui seus próprios valores intrínsecos. 

A Folia de Reis faz parte de uma comemoração cristã difundida essencialmente pelo catolicismo popular. Já o “Halloween” de origem pagã, sofre uma dura reprovação por parte das instituições cristãs. Católicos e principalmente protestantes, investem arduamente no intuito de desviar seus fiéis do caminho desta “festa demoníaca”. No entanto, essas performances religiosas e, ou nacionalistas não são capazes de estancar o avanço mundial da cultura global de rede. Fica aqui essa reflexão. O que acontecerá com a cultura popular?


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Professor – A arte de ser eternamente frustrado.



Você preparou sua aula detalhadamente. Sua folha de preparação de aula parece uma receita de bolo, mostrando o passo-a-passo e que ingrediente usar a cada momento especifico. Você fez tudo certinho, cada pingo no “I” foi previamente calculado para que na hora da execução tudo ocorresse bem. Uma boa preparação de aula te dá segurança, e você entra na sala de aula como um detetive que desvendou um caso e tem toda sua ação documentada. Na sala de aula, diante da primeira adversidade encontrada, geralmente em decorrência de uma indisciplina de algum aluno, você se perde, pois tudo que havia planejado já não parece aplicável.

Professores jovens podem passar por essa experiência em seu primeiro dia de aula, mas também experientes doutores se frustram diante de situações decepcionantes que encontram em uma sala de aula. A profissão de professor é sem dúvida a mais frustrante que você pode escolher.

Mas se você é um jovem professor e está se preparando para enfrentar uma sala de aula no ensino privado ou público, não desanime, pois, uma frustração é na verdade uma forma de fazer você fixar um pouco mais os pés no chão. É óbvio que o que nos move a escolher o magistério é geralmente uma questão muito subjetiva que na maioria das vezes nem mesmo nós sabemos como nos tornamos assim tão entusiastas da educação. 

Muitas vezes é uma incapacidade nata de não aceitar o mundo de injustiças em que vivemos e queremos proporcionar uma boa educação às gerações futuras para que eles não cometam os mesmos erros que nós cometemos ao formar a sociedade atual. Outras vezes é a necessidade inerente e narcísica de cada um de nós de expor ao mundo nossas diretrizes ideológicas através de uma educação direcionada. 

Ou seja, somos levados por motivos diferentes à mesma peleja, almejando um mundo melhor através da educação. Quando somos enviados ao campo de batalha – quase sempre sem uma preparação efetiva – somos obrigados a encarar nossos piores demônios.

Portanto, a frustração é e sempre será a consequência mais óbvia do processo de ensino-aprendizagem. Mas depois de algum tempo você pode transformar sua frustração em causa e não mais efeito.

O professor deve ser sempre – se quiser tirar proveito de sua frustração – um profissional reflexivo. A cada acerto ele deve fazer uma avaliação subjetiva de como tudo ocorreu e adicionar isso a seu repertório de sucessos – sempre lembrando que cada aluno, cada escola, e cada sala tem características próprias onde uma mesma postura pode ter efeitos diferentes.

Como disse o historiador Leandro Karnal em seu mais novo livro (Conversas com um jovem professor). “Uma aula brilhante ou uma aula fracassada devem ser analisadas. Há motivos para isso. Quanto mais você conseguir (e você poderia até pedir ajuda nesse processo aos alunos) avaliar, mais terá consciência. Saber que uma coisa não deu certo num ano não é rejeitá-la. Não existem fórmulas...”  

Ou seja, quando seu plano não dá certo, deve da mesma forma avaliar tudo que deu errado e tratar sempre a situação como uma forma de aprender. Utilizar cada derrota como uma forma de atualizar e fortalecer sua técnica é a virtude mais importante de todo lutador. Portanto, a frustração só pode gerar, no professor competente, o desejo de aprimorar ainda mais sua abordagem.

O processo de formação dos professores geralmente não dá a atenção necessária às adversidades com as quais os professores lidarão enquanto estiverem em sala de aula. Por isso nosso maior trunfo é saber lidar com as frustrações da profissão e tê-las como nossas maiores fontes de aprendizagem.

Algo deve ficar bem claro quando analisamos nossas atuações. O ser humano é corruptível e o mundo em que vivemos hoje foi o melhor que nossas sociedades conseguiram construir. Somos os seres mais instáveis que existem, portanto, não cabe a você querer construir uma sociedade ideal com a matéria-prima que temos, devemos progressivamente trabalhar para fortalecer essa matéria-prima. Nesse sentido sim, a educação tem papel fundamental.


Ouça o áudio no



Fontes:





André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.


Postagens Populares