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sábado, 9 de maio de 2020

Little Richard – O gay evangélico que deu forma ao Rock n’ roll






Little Richard, que nos deixou aos 87 anos, vítima de um câncer ósseo, foi um daqueles gays que ao encontrar Jesus busca diluir sua pulsão sexual em uma retórica evangélica onde o homossexualismo é visto como aberração antinatural e passível de ser punido com o eterno fogo do inferno.  No caso, de Little Richard, ele não precisou ir muito longe para encontrar Jesus. O pequeno Richard foi o terceiro filho, de um total de 12, de um traficante de bebidas que também era um diácono da igreja batista que sempre o influenciou a seguir o evangelho.

Richard passou toda sua carreira oscilando seu discurso entre a aceitação e a negação de sua homossexualidade – na verdade, nunca negou que era homossexual, mas houve momentos em que não aceitou ser – muitas vezes levado a uma postura radicalmente evangélica, que segundo o próprio, foi o que o curou de seus vícios. Richard teve problemas sérios com drogas pesadas e com seu comportamento promíscuo enquanto vivia seus dias de celebridade, como um dos pioneiros do recém-nascido Rock n' Roll. 

Apesar de sua postura ortodoxa, adotada ainda no final da década de 1950, Richard já havia construído uma base sólida o bastante como um dos arquitetos do Rock, o que o impossibilitou de se despir de sua postura subversiva e sensual que o havia levado ao estrelato. Ele até tentou levar adiante sua carreira como um cantor de música gospel, mas foram os impulsos onomatopeicos de seus rocks que o fez permanecer no baixo inferno da música popular. Afinal, Little Richard, por vezes tentou renegar seu passado como um dos fundadores de um estilo que até hoje é associado a algo satânico, mas diante da impossibilidade mediante a força de suas obras, nunca pode se desvencilhar de suas melodias repetitivas e maliciosas.

Em suma, a genialidade desse músico só se concretizou pela sua capacidade de transgredir, de esticar limites e se transfigurar em cima de um palco, quebrando as etiquetas que já eram convencionais até mesmo para o novo estilo que surgia. Little Richard era um músico negro em uma indústria impregnada com a imagem de um belo cantor branco chamado Elvis Presley, era pianista em um gênero que tinha a guitarra como instrumento símbolo. Se trasvestia de formas espalhafatosas, como uma Drag Queen hiperativa cantando refrãos repetitivos, isso já no início da década de 1950. 

E foi justamente essa fase maluca e transgressora de Richard que ajudou a dar forma à um gênero musical que tomou o mundo. Será, portanto, essa faceta do pequeno Richard, cheia de malícia e sensualidade que se solidificará na história da música mundial como ingredientes essenciais para a formação do que hoje conhecemos como Rock n’ roll.


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O que é Aculturação? Como pesquisar e entender o choque entre culturas.

Créditos: Imagem extraída do google imagens




Entendendo o termo Aculturação dentro da abordagem de Nathan Wachtel


A "Aculturação" se tornou um termo muito utilizado na antropologia e na sociologia, mas também muito recorrente em história, principalmente quando se trata do período colonial, onde temos geralmente uma cultura subjugada por uma cultura dominante. No entanto, seria muito simplista dizer que a aculturação diz respeito apenas a esta forma de dominação. Falar de aculturação em história chega a ser quase uma intervenção filosófica, tamanha a complexidade léxica desse conceito. O termo aculturação tem a função de conceituar o processo resultante do contato entre duas ou mais culturas. No entanto, esse processo nunca segue uma regra geral, ou seja, não há um conceito de aculturação que se encerra em si mesmo. 



Natan Wchtel - imagem divulgação

Os primeiros estudos de aculturação tinham em voga o período colonial e havia uma conotação evolutiva nesse termo, ou seja, esboçava a ideia de uma supremacia da cultura européia. Sendo que o adjetivo “aculturado” significava claramente “evoluído” evocando a ideia de que o processo de aculturação correspondia a um progresso da sociedade dirigindo-se a um modelo ocidental. Essa noção de aculturação está evidentemente superada. Como observa Nathan Wachtel:

Com efeito, a aculturação não se reduz a uma única marcha, à simples passagem da cultura indígena à cultura ocidental; existe um processo inverso, pelo qual a cultura indígena integra os elementos europeus sem perder suas características originais. Essa dupla polaridade confirma que a aculturação não pode ser reduzida à difusão, no espaço e no tempo, de traços culturais arbitrariamente isolados: trata-se de um fenômeno global que compromete toda a sociedade.  (WACHTEL, 1976 ,p 114)
            Ainda que a noção - nos dizeres de Nathan Wachtel  -  “conserve de sua origem colonial duas características complementares: uma interna, a heterogeneidade das culturas em presença, outra externa, a dominação de uma pela outra.”(WACHTEL 1976, p. 114). Wachtel ainda sugere que essas duas noções devem ser consideradas e deve ser aplicada na pesquisa sobre aculturação para depois termos elementos nos quais possamos fazer alguma generalização, no entanto, o próprio autor desmistifica tal abordagem dizendo que:

Mesmo se limitarmos a aculturação ao campo restrito da situação colonial, a extrema complexidade de processos e resultados parece, contudo, desafiar toda tentativa de generalização: nada mais arbitrário que isolar uma seqüência ou uma evolução que é declarada válida para todos os casos. Tantos quanto forem os exemplos concretos, tantas serão as aculturações diferentes.  (WACHTEL, 1976, p. 114)


            Sendo assim para cada abordagem sobre aculturação, um método deve ser utilizado caso não haja nenhum modelo na literatura, deve-se realmente criar uma metodologia. Wachtel estudou a fundo a dominação espanhola na América e para ele a aculturação pode ser imposta, ou espontânea. A primeira é quando a dominação estrangeira se dá de forma completa, no campo político, econômico e religioso, esse sistema é baseado na violência. A cultura dominante se impõe em detrimento da cultura dominada. Já a aculturação espontânea ocorre através de contatos comercias e pacíficos.
Ainda considerando os diversos fenômenos de aculturação, podemos distinguir uma outra divisão no seu processo. Trata-se – ainda usando Wachtel – da “integração” e no pólo oposto a “assimilação”: “No processo de integração os modos de uma cultura estrangeira são incorporados pela cultura dominada, que por sua vez modela esses elementos de acordos com seus próprios meios de vida. Wachtel nos dá um exemplo ao abordar a dominação espanhola da America:

Os elementos estranhos são incorporados ao sistema indígena que os submete a seus próprios esquemas e categorias; e mesmo se provocam mudanças no conjunto da sociedade, essa reorganização adquire sentido no interior dos modelos e valores autóctones ... Os navajos representam o caso clássico de uma sociedade constantemente enriquecida por contribuições exteriores, livremente selecionadas; originalmente caçadores –coletores e seminômades, receberam de seu contato com os pueblos determinados elementos de agricultura que favoreceram uma relativa estabilização de seu habitat (exemplo original de aculturação entre sociedades indígenas, mas de tipos diferentes).   ( WACHTEL, 1976, p. 118)


            Já no processo de assimilação ocorre o inverso, os elementos da cultura dominante substituem os elementos tradicionais dos seus dominados, por exemplo:

A adoção de elementos europeus se acompanha da eliminação das tradições indígenas, submetendo-se aos modelos e aos valores da sociedade dominante; ao final dessa evolução, a identidade étnica se dissolve nas variantes da cultura ocidental. (WACHTEL, 1976, p. 118)


Mas, o complexo de elementos contidos no tema, aculturação não param por aí. Entre assimilação e integração podem ser identificados outros tipos intermediários de aculturação. “É o caso de diversos sincretismos, combinações de elementos saídos de culturas diferentes, mas que dão lugar a um novo sistema ordenado segundo princípios distintos daqueles que regiam os sistemas de origem. No entanto não podemos pensar que esses diversos elementos de aculturação: integração, assimilação, sincretismo, disjunção, etc, são processos únicos de uma determinada sociedade, muitas vezes são processos que se alternam dentro de uma mesma sociedade. A estabilidade cultural dentro de uma sociedade que sofreu algum tipo de aculturação não segue, entretanto, uma lei linear que vai da integração á assimilação passando necessariamente por suas intermediárias, tudo depende de suas raízes intrínsecas, ou seja, cada sociedade ou sistema cultural definirá o que introduzir, assimilar ou rejeitar.
             Temos condições nesse momento de definir alguns pontos conclusivos para o uso do conceito de aculturação em uma pesquisa sobre história. Primeiro, comparar os elementos pertinentes ao objetivo da pesquisa, com a noção de colonialismo nos termos de Nathan Wachtel – cultura dominante, cultura dominada. Segundo, identificar através da bibliografia especializada - mesmo que seja na área de sociologia - o processo pelo qual a aculturação se dá - de forma espontânea, ou imposta. Terceiro, como é concretizada a aculturação, ou seja, como é feita a assimilação ou integração de novos elementos culturais na sociedade pesquisada, como são abandonados os elementos tradicionais dessa sociedade -  para essa etapa da pesquisa acho importante a utilização de fontes orais, já que são os membros dessa sociedade que participaram e participam do processo descrito. Quarto, já que se trata de uma aculturação contemporânea, onde quem vive esse processo é minha própria geração, é necessário inserir esses elementos dentro da ótica da modernidade, onde não será possível fugir á termos como, globalização, modernização, multiculturalismo dentre outros.     

Fontes:

  • Natan Wachtel - História e Antropologia de uma America "subterrânea". Disponível em: PDF  http://www.scielo.br/pdf/sant/v4n1/2238-3875-sant-04-01-0259.pdf. Acesso em 25 de dezembro de 2017. 
  • WACHTEL, Nathan. A aculturação. In: História: novos problemas. Direção de Jacques Le Goff e Pierre Nora, tradução de Theo Santiago. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976.  


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital. 



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