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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Bolsonarismo vs. Nazismo. Há algo em comum?

Entre o cabo Hitler e o capitão Bolsonaro - Carta Maior



No fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha estava prestes a cair nas mãos dos aliados, muitos generais e ministros da cúpula do partido Nacional Socialista encabeçado pelo Chanceler Adolf Hitler, começaram a planejar suas fugas. Talvez a tentativa mais desastrada, e por isso, mais emblemática, de buscar um acordo de paz para salvar a Alemanha de uma derrota já evidente, foi quando Rudolf Hess, um dos oficiais mais influentes do governo, voou para Escócia para negociar uma rendição honrosa com os ingleses. Óbvio que nesta tentativa desesperada Hess buscava sobretudo salvar sua própria pele, afinal tinha ciência que todos os crimes cometidos pelos nazistas seriam expostos tão logo fossem derrotados. 

Aqueles que permaneceram ao lado de Hitler até o fim já haviam, ao menos a grande maioria, planejado sua fuga para a América do Sul e EUA. Somente um núcleo bem restrito optou por permanecer ao lado de seu líder supremo até seu suicídio em 1945. Os mais fanáticos doutrinados pelo Fuhrer também tiraram suas próprias vidas, como Goebbels e Himmler e a “primeira dama” Eva Braun.

A questão é: todos sabiam que enfrentariam um tribunal internacional, e as chances de serem condenados eram grandes, levando em conta a gravidade inerente de seus crimes contra a humanidade. E todos, sem exceção, tinham plena ciência disso. Por isso, a principal estratégia de defesa deles foi tentar se desvencilhar da ideologia nazista, dizendo que estavam apenas cumprindo ordens e não eram coniventes com as ideias exóticas de seu líder. Fato é que durante os julgamentos de Nuremberg todos alegaram inocência e que foram vítimas da doutrinação nazista. Alguns conseguiram se livrar da condenação à morte, dentre eles o próprio Rudolf Hess, no entanto, 10 dos carrascos nazistas mais próximos de Hitler foram condenados à forca. 

A história, não tão longínqua, desses criminosos coniventes com o ideário inconsequente de um psicopata megalomaníaco pode nos trazer luz para a situação que vivemos hoje em nosso país. Há uma banalização do discurso de ódio sustentada por uma presumida liberdade de expressão, que, no entanto, burla as diretrizes legais contidas na nossa constituição de 1988.

Um grupo de políticos e apoiadores de um outro psicopata antidemocrático, desenvolveram uma retórica lunática de que estão sendo perseguidos por apoiar um político, e por isso estão vivendo uma ditadura do poder judiciário. Não percebem que estamos prestes a sofrer sanções internacionais devido à falta de compromisso do governo de Jair Bolsonaro com a democracia. Não percebem que, qualquer regime déspota, de relevância, que surgiu na idade contemporânea foram construídos nas periferias de sistemas presumidamente democrático, assim como o nazismo que se tornou exemplo onipresente nesse tipo de análise. 

Apoiar um político que convive sob o jugo da constituição que rege uma determinada república é legitimo, por outro lado, apoiar um político que defende abertamente – e devido a vigência de um sistema democrático –  a legalização de milícias e a prática da tortura, assim como pretende destruir as bases democráticas com as quais não consegue se harmonizar por falta de ética e sensatez, é dar guarida a criminosos sociopatas que ao fim do processo autodestrutivo que eles deram início, serão condenados ao lixo da história e seus seguidores viverão sob o anátema da opinião pública.

Quando vemos ministros fugindo do país, por medo de sofrer as consequências das diretrizes democráticas vigentes, com a ajuda do próprio governo, notamos que há uma briga entre o sistema democrático e o exercício do poder executivo, que vê riscos potenciais à sua continuidade.

O que se coloca agora ao fim dessa análise é que esses mafiosos que governam nosso país não se igualam aos carrascos nazistas citados acima, simplesmente pela falta de qualidade intelectual, afinal, não são capazes de teorizarem sua ideologia como um bloco plausivel de ideias, como foi o caso do próprio Adolf Hitler com o nazismo e Giovanni Gentile com o facismo italiano. Outra distinção histórica entre bolsonarismo e nazismo é o fato de contarmos hoje com uma maior transparência imposta pela tecnologia avançada, algo que não havia na década de 30 e 40. 


Se há algo de positivo nessa loucura toda é o fato de que nossa democracia apesar de machucada, se mostra viva e rígida e ainda é sustentada por uma série de freios e contrapesos que os poderes judiciais e legislativos ainda têm capacidade de exercer. No entanto, se até mesmo a maior democracia do mundo moderno foi abalada recentemente por fanáticos defensores de um déspota que invadiram o Capitólio em busca de deslegitimar um presidente eleito pelo voto popular, não sei se poderemos confiar na vitalidade de nossa jovem e cambaleante democracia por muito tempo. 
O que acham?



André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Como nossa personalidade é formada? Como aprendemos a viver?

Stanley Creation




Se a vida é uma forma de nos esculpir como pessoas como dizia Foucault, de que forma executamos esse processo?

Houve uma época em que se acreditava que o desenvolvimento humano era um fator puramente biológico, ou seja, cada um de nós já nascemos equipados com certas aptidões e que o meio em que vivemos tem pouca ou nenhuma influência no nosso desenvolvimento psicológico. Para contrapor essa corrente de pensamento, outros vieram a contestá-la, defendendo que o ser humano é totalmente moldado pelo meio em que vive, relegando ao aspecto biológico uma importância menor.

Outros estudiosos do desenvolvimento humano trouxeram uma abordagem mais ampla e condizente com a complexidade do ser humano.
São eles, os interacionistas, que pregam que o desenvolvimento humano não é exclusividade nem do meio social, nem do biológico, mas sim de uma interação entre esses dois fatores. Dentre os cientistas mais conhecidos que defendiam essa abordagem estão Jan Piaget e Vygotsky.

Para Piaget, o ser - incluindo os animais - busca um equilíbrio entre o seu biológico e o meio em que vive. E essa busca por equilíbrio se dá através de dois mecanismos, a assimilação e a acomodação. Através da assimilação o organismo vai tentar encontrar uma forma de significação para sua relação com o meio onde está inserido sem que para isso mude sua estrutura primordial. Através da acomodação, o organismo busca mudar suas estruturas, para se adequar ao que o meio ambiente lhe impõe.

Esses dois mecanismos ocorrem a todo momento durante o processo de desenvolvimento do indivíduo. Se uma criança recebe um brinquedo, como uma bola por exemplo, pela primeira vez, ela fará  assimilação ao esticar o braço para segurar a bola, pois isso já faz parte de seu repertório anterior onde ela teve que esticar o braço para pegar algum outro brinquedo. No entanto, a acomodação vai ocorrer quando ela notar que ela terá que abrir os dedos até um certo limite e terá que pressionar o objeto com uma determinada pressão, e notará que essa bola se difere de uma bolinha de gude, por exemplo.

Para Piaget, o desenvolvimento humano ocorre através de processos sucessivos de maturação comum a todos nós.

1º período: Sensório-motor              (0 a 2 anos)
2º período: Pré-operatório                (2 a 7 anos)
3º período: Operações concretas     (7 a 11 ou 12 anos)
4º período: Operações formais         (11 ou 12 anos em diante)

Essas etapas ocorrem sempre nessa ordem com qualquer indivíduo, podendo variar um pouco a idade em que cada uma delas ocorre. Portanto, Piaget acredita que é um processo biológico, onde o impacto da educação e dos processos de aprendizagem é relativamente baixo, apesar de ser necessário.
Já na concepção proposta por um outro interacionista, o russo Vygotsky, o desenvolvimento humano ocorre em consonância com o ambiente que o rodeia, sendo importante levar em conta os aspectos históricos, sociais e culturais desse indivíduo. Para Vygotsky o desenvolvimento da criança ocorre de forma ativa, ou seja, ela não está totalmente a mercê do ambiente, podendo ela própria agir e interferir em seu desenvolvimento como indivíduo.

Ou seja, a criança se apropria do social de uma forma particular e individual. Vygotsky não aceita a proposta piagetiana de que existe um sistema universal que rege o desenvolvimentismo de toda e qualquer criança, para ele a preponderância dos fatores biológicos sobre os sociais ocorre apenas no início do desenvolvimento da criança.
Vygotsky defende que o homem não nasce homem, ele se torna homem em sua interação com os outros, dando-se então o processo de humanização desse indivíduo.

Como podemos notar, são duas formas clássicas que ajudaram a moldar a psicologia moderna e é estudada, testada e aprovada ou refutada nas disciplinas que buscam uma metodologia de ensino/aprendizagem. No entanto, as discussões não terminam ai. 

Se há uma confluência entre estas linhas de pensamentos, é o fato de que o homem é incontestavelmente um animal social. Ou seja, um primata que devido ao processo de seleção natural, onde os seres mais preparados ao meio em que vive sobrevivem em detrimento dos menos preparados e veio a desenvolver a capacidade de criar sociedades que foram se desenvolvendo de forma cada vez mais complexa em um processo progressivo de humanização. 

Freud foi talvez o pensador que mais se debruçou nessa relação do homem primitivo que ainda há em cada indivíduo, com a sociedade que se desenvolveu ao seu redor. É através da psicologia desenvolvida dentro de um cérebro avantajado que permitiu ao homem, agora sob o genérico Homo Sapiens, criar estruturas para controlar o animal puro que nós somos em essência, para dar lugar agora a um ser social e sociável. 

Somos seres biopsicossociais, sintetizando de forma simplista. Somos estruturas Biológicas formados por células organizadas por meio de um código genético que antecede as questões sociais e psicológicas, ou seja, independe destas questões. Tornamo-nos seres sociais ao longo de nosso desenvolvimento biológico e nesse processo somos regrados pela comunidade na qual estamos inseridos (família, escola, trabalho, religião, etc) e para mediar esses dois fatores, somos levados a cultivar nosso comportamento de modo a nos encaixar dentro das regras básicas do convívio social, através de ferramentas psicológicas que desenvolvemos desde tempos remotos para amenizar esse conflito. 

Aliás, segundo a teoria Freudiana, é através deste conflito interno entre o ser biológico e ser social que vêm a tona em nossas neuroses cotidianas. Como o processo de seleção natural ainda está em curso, e o homo sapiens vem demonstrando especial capacidade de se adaptar ao meio, desenvolvemos a habilidade de deixar essa batalha psicológica velada em um estado de inconsciência. Ou seja, sentimentos como culpa, obsessões diversas, estres emocional, incontáveis crises de ansiedade que não sabemos de onde vêm, é o preço que pagamos por sermos humanos.

Portanto, temos um escopo teórico que nos permite entender, minimamente, que nos diferenciamos dos outro animais, ditos irracionais, pelo fato de termos desenvolvido uma habilidade, até então peculiar, de raciocinar sobre nossa própria existência. Nesse sentido somos capazes de moldar nosso comportamento, no entanto, dentro dos limites bem definidos de fatores biológicos e sociais. 

É assim que surge outra característica de extrema importância no cadinho psicológico que nos forma como indivíduos, a memória. Um fator de grande impacto no desenvolvimento de nossa vida social foi a capacidade que desenvolvemos de registrar por meio de códigos linguísticos a nossa história. Além de organismos biológicos que criaram sociedades complexas com a ajuda de mecanismos psicológicos, somos seres históricos.

to be continued......


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital. 








quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O que é Aculturação? Como pesquisar e entender o choque entre culturas.

Créditos: Imagem extraída do google imagens




Entendendo o termo Aculturação dentro da abordagem de Nathan Wachtel


A "Aculturação" se tornou um termo muito utilizado na antropologia e na sociologia, mas também muito recorrente em história, principalmente quando se trata do período colonial, onde temos geralmente uma cultura subjugada por uma cultura dominante. No entanto, seria muito simplista dizer que a aculturação diz respeito apenas a esta forma de dominação. Falar de aculturação em história chega a ser quase uma intervenção filosófica, tamanha a complexidade léxica desse conceito. O termo aculturação tem a função de conceituar o processo resultante do contato entre duas ou mais culturas. No entanto, esse processo nunca segue uma regra geral, ou seja, não há um conceito de aculturação que se encerra em si mesmo. 



Natan Wchtel - imagem divulgação

Os primeiros estudos de aculturação tinham em voga o período colonial e havia uma conotação evolutiva nesse termo, ou seja, esboçava a ideia de uma supremacia da cultura européia. Sendo que o adjetivo “aculturado” significava claramente “evoluído” evocando a ideia de que o processo de aculturação correspondia a um progresso da sociedade dirigindo-se a um modelo ocidental. Essa noção de aculturação está evidentemente superada. Como observa Nathan Wachtel:

Com efeito, a aculturação não se reduz a uma única marcha, à simples passagem da cultura indígena à cultura ocidental; existe um processo inverso, pelo qual a cultura indígena integra os elementos europeus sem perder suas características originais. Essa dupla polaridade confirma que a aculturação não pode ser reduzida à difusão, no espaço e no tempo, de traços culturais arbitrariamente isolados: trata-se de um fenômeno global que compromete toda a sociedade.  (WACHTEL, 1976 ,p 114)
            Ainda que a noção - nos dizeres de Nathan Wachtel  -  “conserve de sua origem colonial duas características complementares: uma interna, a heterogeneidade das culturas em presença, outra externa, a dominação de uma pela outra.”(WACHTEL 1976, p. 114). Wachtel ainda sugere que essas duas noções devem ser consideradas e deve ser aplicada na pesquisa sobre aculturação para depois termos elementos nos quais possamos fazer alguma generalização, no entanto, o próprio autor desmistifica tal abordagem dizendo que:

Mesmo se limitarmos a aculturação ao campo restrito da situação colonial, a extrema complexidade de processos e resultados parece, contudo, desafiar toda tentativa de generalização: nada mais arbitrário que isolar uma seqüência ou uma evolução que é declarada válida para todos os casos. Tantos quanto forem os exemplos concretos, tantas serão as aculturações diferentes.  (WACHTEL, 1976, p. 114)


            Sendo assim para cada abordagem sobre aculturação, um método deve ser utilizado caso não haja nenhum modelo na literatura, deve-se realmente criar uma metodologia. Wachtel estudou a fundo a dominação espanhola na América e para ele a aculturação pode ser imposta, ou espontânea. A primeira é quando a dominação estrangeira se dá de forma completa, no campo político, econômico e religioso, esse sistema é baseado na violência. A cultura dominante se impõe em detrimento da cultura dominada. Já a aculturação espontânea ocorre através de contatos comercias e pacíficos.
Ainda considerando os diversos fenômenos de aculturação, podemos distinguir uma outra divisão no seu processo. Trata-se – ainda usando Wachtel – da “integração” e no pólo oposto a “assimilação”: “No processo de integração os modos de uma cultura estrangeira são incorporados pela cultura dominada, que por sua vez modela esses elementos de acordos com seus próprios meios de vida. Wachtel nos dá um exemplo ao abordar a dominação espanhola da America:

Os elementos estranhos são incorporados ao sistema indígena que os submete a seus próprios esquemas e categorias; e mesmo se provocam mudanças no conjunto da sociedade, essa reorganização adquire sentido no interior dos modelos e valores autóctones ... Os navajos representam o caso clássico de uma sociedade constantemente enriquecida por contribuições exteriores, livremente selecionadas; originalmente caçadores –coletores e seminômades, receberam de seu contato com os pueblos determinados elementos de agricultura que favoreceram uma relativa estabilização de seu habitat (exemplo original de aculturação entre sociedades indígenas, mas de tipos diferentes).   ( WACHTEL, 1976, p. 118)


            Já no processo de assimilação ocorre o inverso, os elementos da cultura dominante substituem os elementos tradicionais dos seus dominados, por exemplo:

A adoção de elementos europeus se acompanha da eliminação das tradições indígenas, submetendo-se aos modelos e aos valores da sociedade dominante; ao final dessa evolução, a identidade étnica se dissolve nas variantes da cultura ocidental. (WACHTEL, 1976, p. 118)


Mas, o complexo de elementos contidos no tema, aculturação não param por aí. Entre assimilação e integração podem ser identificados outros tipos intermediários de aculturação. “É o caso de diversos sincretismos, combinações de elementos saídos de culturas diferentes, mas que dão lugar a um novo sistema ordenado segundo princípios distintos daqueles que regiam os sistemas de origem. No entanto não podemos pensar que esses diversos elementos de aculturação: integração, assimilação, sincretismo, disjunção, etc, são processos únicos de uma determinada sociedade, muitas vezes são processos que se alternam dentro de uma mesma sociedade. A estabilidade cultural dentro de uma sociedade que sofreu algum tipo de aculturação não segue, entretanto, uma lei linear que vai da integração á assimilação passando necessariamente por suas intermediárias, tudo depende de suas raízes intrínsecas, ou seja, cada sociedade ou sistema cultural definirá o que introduzir, assimilar ou rejeitar.
             Temos condições nesse momento de definir alguns pontos conclusivos para o uso do conceito de aculturação em uma pesquisa sobre história. Primeiro, comparar os elementos pertinentes ao objetivo da pesquisa, com a noção de colonialismo nos termos de Nathan Wachtel – cultura dominante, cultura dominada. Segundo, identificar através da bibliografia especializada - mesmo que seja na área de sociologia - o processo pelo qual a aculturação se dá - de forma espontânea, ou imposta. Terceiro, como é concretizada a aculturação, ou seja, como é feita a assimilação ou integração de novos elementos culturais na sociedade pesquisada, como são abandonados os elementos tradicionais dessa sociedade -  para essa etapa da pesquisa acho importante a utilização de fontes orais, já que são os membros dessa sociedade que participaram e participam do processo descrito. Quarto, já que se trata de uma aculturação contemporânea, onde quem vive esse processo é minha própria geração, é necessário inserir esses elementos dentro da ótica da modernidade, onde não será possível fugir á termos como, globalização, modernização, multiculturalismo dentre outros.     

Fontes:

  • Natan Wachtel - História e Antropologia de uma America "subterrânea". Disponível em: PDF  http://www.scielo.br/pdf/sant/v4n1/2238-3875-sant-04-01-0259.pdf. Acesso em 25 de dezembro de 2017. 
  • WACHTEL, Nathan. A aculturação. In: História: novos problemas. Direção de Jacques Le Goff e Pierre Nora, tradução de Theo Santiago. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976.  


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital. 



quarta-feira, 2 de julho de 2014

O despreparo dos professores para lidar com a diversidade sexual dentro da sala de aula.




Atualmente lidamos com temas que décadas atrás eram rígidos demais para serem questionados e até mesmo analisados. Um tema que permeia hoje em dia na sociedade moderna é a diversidade sexual. Até o dia 17 de Maio de 1990 o homossexualismo era considerado doença. Portando em pouco mais de duas décadas muitos conceitos sociais foram repensados e como a escola reproduz tudo que ocorre na sociedade que a cerca, esse tema é hoje sim muito discutido dentro dos parâmetros pedagógicos mais ousados, no entanto ainda há uma evidente carência reflexiva sobre o tema dentro do ambiente escolar.

Parece notável que a grande maioria dos professores brasileiros não esta preparada para tratar a diversidade sexual em sala de aula e, para agravar mais a situação não há dentro das universidades uma preocupação efetiva sobre o tema, isso somada à hierarquia rígida da escola, gera péssimos educadores que podem até mesmo amplificar no espaço de ensino o preconceito que ele próprio trás em sua bagagem.  O que permite casos como de Fabio Vasconcelos* que era tido como um dos mais inteligentes de sua sala. Aquele que todos recorriam quando não entendiam a matéria direito. Seu professor de física ao invés de elogiá-lo sempre fazia piadinhas do tipo “Você é muito sabichona” com todo teor sexual que você possa imaginar ter essa frase. 

Não há espaço para a reflexão 
dentro do ambiente escolar devido à 
hierarquia militar adotada por essas instituições. 
E as instituições formadoras parecem não ter
uma postura mais ousada que possa tornar 
as escolas mais inclusivas e dentro de 
parâmetros mais aceitáveis para o século XXI.

Fabio que gostava da matéria e tinha muita facilidade de aprender e nunca se queixou, pois o tal professor era tipo, o cara engraçado que fazia todos rir. “Eu não podia simplesmente falar pra ele que eu estava ofendido com a piadinha, afinal todos gostavam dele, eu seria a “bicha chata” da história e o bulling só tenderia aumentar.
Como o preconceito está muito enraizado no seio da sociedade, é muito difícil para uma instituição de ensino simplesmente se adaptar para uma postura mais inclusiva que é a grande busca das sociedades modernas. Não há espaço para a reflexão dentro do ambiente escolar devido à hierarquia militar adotada por essas instituições. E as instituições formadoras parecem não ter uma postura mais ousada que possa tornar as escolas mais inclusivas e dentro de parâmetros mais aceitáveis para o século XXI. Como diz Marcus Cezar psicólogo e Doutorando em Filosofia

“No Brasil a formação e a discussão sobre o que de fato é educação e como ela pode ser vinculada é ainda muito precária. Para quebrar essa estrutura, é necessário preparar os educadores de forma diferente. Por exemplo, a formação universitária, a formação pedagógica e o pensamento crítico sobre o papel do professor não fazem parte de praticamente nenhum programa de formação”.

Enquanto isso nossas universidades continuaram a formar professores despreparados que fazem da sala de aula o seu palco, enquanto a sua platéia – alunos – passivamente recebem na cara o preconceito que deveria sempre ser tema de discussão e não simplesmente algo pronto acabado e concebido como uma verdade social imutável.

No inicio desse ano (2014) o professor Ademir Ferraz da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) publicou críticas a homossexuais em seu perfil no Facebook. O episódio levantou a discussão sobre os limites na internet. Um professor universitário se utilizando de uma rede social para declarar seu repudio aos Homossexuais indica o grau de conservadorismo de muitos de nossos docentes. A UFRPE divulgou notas repudiando a atitude de seu docente. Assista reportagem abaixo:




Um educador de verdade não é um 
reprodutor de preconceitos e tradições 
sociais sem nexo com o mundo em que vivemos, 
mas sim um guia seguro que pode conduzir 
um individuo – aluno – ao ato reflexivo e perguntar 
de vez e quando: por que ele é diferente?

Talvez seja hora de o professor descer do seu pedestal e dar mais voz ativa ao aluno. Ao aluno negro, a aluna mulher, ao aluno homossexual, ao aluno evangélico, ao aluno judeu, ao aluno espírita, etc. Um professor que se presa deve estar preparado para a diversidade, não só sexual, mas também par lidar com todos os tipos de diferenças culturais que possam ocorrer dentro de um mundo globalizado. Um educador de verdade não é um reprodutor de preconceitos e tradições sociais sem nexo com o mundo em que vivemos, mas sim um guia seguro que pode conduzir um individuo – aluno – ao ato reflexivo e perguntar de vez e quando: por que ele é diferente? 

*Nome Fictício.

Fonte:



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); presidiu o Centro acadêmico do curso de História no UNIFEG em 2007, é membro efetivo da Ass. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência

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