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sábado, 9 de maio de 2020

Little Richard – O gay evangélico que deu forma ao Rock n’ roll






Little Richard, que nos deixou aos 87 anos, vítima de um câncer ósseo, foi um daqueles gays que ao encontrar Jesus busca diluir sua pulsão sexual em uma retórica evangélica onde o homossexualismo é visto como aberração antinatural e passível de ser punido com o eterno fogo do inferno.  No caso, de Little Richard, ele não precisou ir muito longe para encontrar Jesus. O pequeno Richard foi o terceiro filho, de um total de 12, de um traficante de bebidas que também era um diácono da igreja batista que sempre o influenciou a seguir o evangelho.

Richard passou toda sua carreira oscilando seu discurso entre a aceitação e a negação de sua homossexualidade – na verdade, nunca negou que era homossexual, mas houve momentos em que não aceitou ser – muitas vezes levado a uma postura radicalmente evangélica, que segundo o próprio, foi o que o curou de seus vícios. Richard teve problemas sérios com drogas pesadas e com seu comportamento promíscuo enquanto vivia seus dias de celebridade, como um dos pioneiros do recém-nascido Rock n' Roll. 

Apesar de sua postura ortodoxa, adotada ainda no final da década de 1950, Richard já havia construído uma base sólida o bastante como um dos arquitetos do Rock, o que o impossibilitou de se despir de sua postura subversiva e sensual que o havia levado ao estrelato. Ele até tentou levar adiante sua carreira como um cantor de música gospel, mas foram os impulsos onomatopeicos de seus rocks que o fez permanecer no baixo inferno da música popular. Afinal, Little Richard, por vezes tentou renegar seu passado como um dos fundadores de um estilo que até hoje é associado a algo satânico, mas diante da impossibilidade mediante a força de suas obras, nunca pode se desvencilhar de suas melodias repetitivas e maliciosas.

Em suma, a genialidade desse músico só se concretizou pela sua capacidade de transgredir, de esticar limites e se transfigurar em cima de um palco, quebrando as etiquetas que já eram convencionais até mesmo para o novo estilo que surgia. Little Richard era um músico negro em uma indústria impregnada com a imagem de um belo cantor branco chamado Elvis Presley, era pianista em um gênero que tinha a guitarra como instrumento símbolo. Se trasvestia de formas espalhafatosas, como uma Drag Queen hiperativa cantando refrãos repetitivos, isso já no início da década de 1950. 

E foi justamente essa fase maluca e transgressora de Richard que ajudou a dar forma à um gênero musical que tomou o mundo. Será, portanto, essa faceta do pequeno Richard, cheia de malícia e sensualidade que se solidificará na história da música mundial como ingredientes essenciais para a formação do que hoje conhecemos como Rock n’ roll.


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Portrait One: Álbum Time é lançado pela banda paulistana


A banda paulistana PORTRAIT ONE lançou nas plataformas digitais, no final de 2019, seu mais novo trabalho intitulado "Time". Uma obra que, já de cara, impressiona pela qualidade dos músicos; afinal estamos falando de uma banda que vem atuando desde 1989 e já tem três demos na bagagem, todas lançadas na década de 90. Período em que foram escolhidos, mais de uma vez, para ser a banda de abertura de medalhões consagrados do Heavy Metal como, PAUL DI' ANNO, GAMMA RAY e BLIND GUARDIAN.

O lançamento de "Time" marca o ressurgimento da banda após alguns anos de hiato e com renovações importantes, por exemplo, a entrada do excelente vocalista Ricardo Cassal e uma pequena adição ao nome da banda, já que os direitos de uso do nome "Portrait" é de propriedade de uma grande empresa do ramo fonográfico. A partir de então a banda passou a se chamar PORTRAIT ONE, sem, no entanto, alterar de forma significativa seu clássico logotipo. (A título de curiosidade, há uma banda sueca, surgida em 2006, que também se chama Portrait", creio que também terão problemas com isso.)

Para quem gosta de se orientar por meio de rótulos, esta é uma obra de Heavy Metal Melódico, sendo que em vários momentos se aventuram em uma pegada mais progressiva, criando boas passagens intrincadas que vão agradar fãs de Prog Metal. Neste quesito, eu destacaria a faixa "Voices", "Shadows and Doubts" e "Mask".

O uso de teclado é intenso, mas bem dosado, cria uma atmosfera interessante que oscila entre sonorizações "psicodélicas" e sinfônicas. Creio que os fãs de Hard Rock clássico apreciarão as melodias cativantes dos refrãos, como em "Prision" e "I Believe" - que aliás conta com um lyric vídeo que você pode conferir aqui.

Em "Déjà Vu" temos um andamento mais cadenciado, quebrando um pouco a pegada Power Metal das primeiras músicas. A música conta com um coral marcante no refrão. Destacaria também a bela balada "Liberty (Mirror of Dreams)" que mostra a versatilidade de cada músico.

Em suma, não é novidade dizer que o Metal brasileiro sempre lutou para assumir seu lugar ao sol na indústria da música. E desde sempre tivemos excelentes bandas que representam essa resistência no mundo underground. O PORTRAIT ONE é uma destas que permanece na luta, compondo material autoral de qualidade a despeito das dificuldades.

"Time" é um trabalho digno de respeito e certamente merece destaque dentre os lançamentos nacionais de 2020. Você pode ouvi-lo em qualquer plataforma de streaming. O disco físico foi lançado pela Die Hard Records e pode ser adquirido no site oficial da loja.
Portrait One - I Believe (Lyric video)





Tracklist Time - Portrait One
1.Lord Of Time
2.Great Maker
3.I Believe
4.Prision
5.Déjà Vu
6.Thorns On The Way
7.Liberty (Mirror Of Dreams)
8.Voices
9.Pharisee
10.Shadows And Doubts
11.Mask


Line Up - Portrait One
Rinaldo Zupelli (Guitar)
Emerson Barcos (Bass)
Ricardo Cassal (Vocals)
Marcelo Rocha (Drums)
Théo Lima (Guitar)
Alexandre Lofiego (Keyboards).


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

FOLLOW THE CIPHER: A nova grande promessa do Metal sueco.



Já não é mais surpresa anunciar ótimas bandas de Metal oriundas da Suécia. A nova promessa dessas terras gélidas se chama FOLLOW THE CIPHER. Esta banda de Metal Melódico segue à risca a escola que a formou, mas ainda assim, consegue estabelecer sua identidade. Seu fundador, o guitarrista Ken Kängström, já é conhecido da cena, pois ele é o coautor de várias músicas do SABATON, além de ter participado das gravações das guitarras nos três últimos álbuns desta banda.

Em 2014, Ken decidiu se tornar protagonista e criar sua própria banda, começou a trabalhar duro compondo material inédito e buscando os integrantes certos. Foi nesse interim que conheceu a vocalista Linda Toni Grahn, com quem firmou uma parceria muito frutífera. Nascia então o FOLLOW THE CIPHER. Começaram a recrutar novos músicos e depois de experimentar algumas formações, se estabilizaram com 5 membros. Na bateria temos Karl Löfgren, na guitarra Viktor Carlsson e Jonas Asplind é o baixista. Agora com o time completo acabaram de lançar seu álbum de estreia (2018) autointitulado. É notório o uso de teclados e sintetizadores nas canções, mas a banda não conta com um tecladista fixo, portanto, ao vivo eles se utilizam de samplers pré-gravados, o que é largamente utilizado por bandas de Metal Sinfônico.

Sei que o Metal Melódico enfrenta uma fase de saturação, onde muitos clichês vêm sendo reproduzidos ao longo dos anos e que já nos acostumamos a não esperar nada de inovador nesse estilo, no entanto, apesar desta banda recorrer a vários moldes consagrados, como refrãos grandiloquentes, solos rápidos e vocais melódicos, há algo de peculiar nessa banda.

Estou falando da atmosfera criada pelas canções, que se encaixa perfeitamente à temática proposta pela banda. Eles criaram um mundo – explícito nas artes gráficas, figurino dos músicos e nas letras das canções – onde um grupo de rebeldes, conhecidos como “The Cipher,” lutam contra uma nova ordem mundial pós apocalíptica. Apesar de ser um enredo também explorado em demasia por séries e filmes hoje em dia, FOLLOW THE CIPHER é uma experiencia auditiva única.

Vestidos a caráter, os próprios membros da banda encarnam as personagens dessa trama, inclusive em suas apresentações ao vivo, mas é inegável que a vocalista Linda Toni rouba cena com seu cabelo rosa e sua voz robusta – e apenas como curiosidade, ela parece ser uma profissional da maquiagem, já que você pode encontrar alguns vídeos dela fazendo tutoriais de maquiagem no youtube.

Comparações com outras bandas do estilo serão feitas, como sempre. Há algumas músicas que lembram um pouco NIGHTWISH na época de Anete Olson. Há algumas intervenções de vocais masculinos que podem levar alguns a compararem com seus conterrâneos do AMARANTHE, mas a verdade é que os caras conseguiram criar uma identidade própria, mesmo com o mercado saturado.

Esse álbum é altamente recomendável para quem gosta de vocais femininos de alta qualidade, refrãos melódicos e de sociedades distópicas.

Assistam o clipe de Valkyria, do primeiro álbum de FOLLOW THE CIPHER.




Tracklist Follow The Cipher – Follow The Cipher




1.           Enter The Cipher
2.           Valkyria
3.           My Soldier
4.           Winterfall
5.           Titan’s Call
6.           The Rising
7.           A Mind’s Escape
8.           Play With Fire
9.           I Revive
10.       Starlight
11.       Carolus Rex
Line Up – Follow The Cipher
§     Linda Toni Grahn (Vocals)
§     Ken Kängström (Gitarre)
§     Karl Löfgren (Schlagzeug)
§     Viktor Carlsson (Gitarre, Vocals)
§     Jonas Asplind (Bass)


Fontes:



André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 29 de março de 2018

História: 7 Músicas de Heavy Metal que podem ser usadas em uma aula de História.




O site “Loudwire” especializado em Heavy Metal publicou em 2013, uma matéria onde selecionou 10 músicas de Heavy Metal que são uma verdadeira aula de História. Como professor de História, achei-me no dever de eleger minha lista de músicas de Metal que podem ser usadas em uma aula de História e acrescentar umas dicas de como usar as músicas em uma boa aula, onde pelo menos aqueles seus alunos cabeludos que vão todo dia à escola de preto, irão adorar. 

O simples fato de se trabalhar com uma música de Heavy Metal já pode causar um certo furor, pois saímos da rotina e mostramos que estamos interessados em conhecer o mundo de nossos alunos. Vamos às músicas. 

Ok, bem-vindos ao nosso curso de História. Durante esse curso nós vamos cobrir tópicos históricos abrangendo desde a ascensão do império Alexandrino até eventos mais recentes, como a queda do muro de Berlim. No entanto, esta aula será dada de uma forma diferente do padrão do curso de História convencional. 

Esqueçam seus livros didáticos de História por enquanto, pois nessas aulas usaremos como ferramenta pedagógica 7 músicas de Heavy Metal que abordam os temas de nosso interesse, e para aqueles que não curtem Metal, eu tenho um bônus ao final do curso. Vamos as 7 músicas de Metal que nos ajudarão a entender um pouco mais sobre a história da humanidade, incluindo uma pequena inserção da participação do nosso país no maior conflito bélico da História, a Segunda Guerra Mundial

Só um esclarecimento, as músicas não estão em ordem de preferência, mas em ordem cronológica em relação aos eventos que elas descrevem.


1- Alexander the Great - Iron Maiden 

O IRON MAIDEN é uma banda que sempre apostou muito em letras sobre história, afinal o vocalista, BRUCE DICKINSON, além de ser piloto, doutor em música e palestrante de empreendedorismo, é também historiador. Mas creio que nunca foram tão descritivos e detalhista quanto em “Alexander the Great” (Alexandre O Grande). Enquanto a maioria das músicas do Maiden, envolvendo História, oferecem uma reflexão, esta canção especificamente é mais uma breve história de um dos maiores conquistadores da história do mundo. A música oferece insights sobre a vida de Alexandre, filho de Felipe da Macedônia, e detalha uma série de eventos cronológicos. Os locais das batalhas mais importantes e de seus oponentes já são o bastante para qualquer um tirar um “10” em um teste de História. A banda até mesmo menciona a influência que o conquistador teve ao espalhar o Helenismo mundo afora o que pavimentou o caminho para o cristianismo. Considere “Alexander the Great” como um guia para sua aula de história da Grécia. 


Ouça “Alexander the Great” do IRON MAIDEN no Youtube: 
https://www.youtube.com/watch?v=1oTEQf1d9Iw







2- Crusader – Saxon 

Essa canção dos britânicos do SAXON que assim como o IRON MAIDEN são remanescentes da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), é uma visão a partir dos cavaleiros cristãos que se engajavam para lutar na terra santa, para recuperar Jerusalém tomada pelos Muçulmanos. Esses movimentos militares conhecidos como “cruzadas” se estenderam do século XI ao XIII. Os cavaleiros cristãos chamados de “cruzados” partiam de seus reinos europeus para lutar no oriente em nome de Cristo. É uma canção de caráter militar, inclusive no andamento ritmado, que poderia ser considerada uma marcha de chamada aos verdadeiros cavaleiros de Cristo para a guerra. Óbvio que como bons britânicos descendentes de saxões, a visão do SAXON é monocromática e se baseia na campanha cristã de libertação da Terra Santa. Dizem em um momento da música “Warlords of England, Knights of the Realm spilling their blood in the sand” (Senhores da Guerra da Inglaterra, Cavaleiros do Reino que derramam o sangue deles (inimigos muçulmanos) na areia). Ou seja, uma excelente introdução ao pensamento do cristão europeu médio do século XIII. Como não temos nenhuma banda de Metal alegadamente muçulmana, creio que não teremos uma música para contrapor essa visão de mundo, portanto, cabe ao bom professor de História dar sua contribuição às origens desse conflito. Mãos a obra. 

Ouça "Crusader" do SAXON no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=JPbSjmToWXY





3- Declaration Day – Iced Earth 

Em uma lista que fala sobre músicas de Heavy Metal baseadas em História, creio que seria impossível não citar nenhuma música do ICED EARTH. Esta banda americana tem vários exemplos de letras com temas históricos. O líder da banda, o guitarrista JON SCHAFFER é um fanático por História, principalmente quando se trata da Guerra Civil Americana. Em 2007 o ICED EARTH lançou o álbum “The Glorious Burden”, que se trata de um trabalho conceitual que explora vários momentos da história dos EUA. A música que extraímos desse álbum é “Declaration Day” que é como uma ode aos americanos que lutaram pela independência em relação ao Império Britânico. O povo americano, que guiado pelo seu ideal de liberdade lutou até a morte para viver em uma nação livre da dominação colonial. É uma típica letra que enfatiza as virtudes dos que lutaram e poderia ser facilmente o hino da independência americana caso, não fosse uma música de Heavy Metal. 

Uma música desse tipo pode servir à uma aula de História como um recurso crítico e reflexivo para provocar no aluno o sentimento de patriotismo e depois é importante que esse sentimento seja confrontado com o sentimento de revolta dos séculos posteriores a independência, algo que podemos trabalhar na próxima canção desta lista. 

Ouça "Declaration day" do ICED EARTH no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=RVOEoo1oXBs




4- Creek Mary's Blood – Nightwish 

Os finlandeses do NIGHTWISH, criaram uma bela narrativa sobre a colonização da América do Norte pelos europeus. Pelo ponto de vista de um indígena, a letra explica como os povos nativos foram dizimados pela invasão do homem branco. Sua cultura, sua religião e suas terras se transformaram em “uma trilha de lágrimas” como o refrão da música diz. Para dar mais fiabilidade à narrativa essa música foi gravada com a participação de JOHN TWO-HAWKS, um cantor e ativista da causa indígena. Two Hawks participou tocando um instrumento nativo das tribos norte-americanas e é o responsável por recitar o poema que é a parte final da canção na sua língua nativa (há controvérsias sobre a origem indígena de Two Hawks). A música se desenvolve de uma forma nostálgica traçando as lembranças que o protagonista tem de uma terra paradisíaca, antes da chegada dos europeus. Aqui podemos explorar a musicalidade e a linguagem das tribos indígenas americanas. Uma boa oportunidade de estudar de forma crítica a dominação do índio, pelo homem branco naquele país. 

Não há como precisar o número de indígenas que viviam no território americano antes do aparecimento dos europeus, mas há estimativas baseada em estudos etnográficos que afirmam que no início do século XIX, havia mais de 25 milhões de indígenas nos territórios norte-americanos, principalmente no oeste dos EUA, e mais de 2 mil línguas distintas. Após o genocídio indígena levado a cabo pelo governo no decorrer deste século restaram 2 milhões de indígenas espalhados por algumas reservas. 

A música de forma melancólica expõe a aniquilação irreversível dessas várias culturas ao longo do século XIX. A música se finda como um recado de um povo que agora só resta a memória. “Our spirit was here long before you, long before us and long will it be after your pride brings you to your end" (Nosso espírito estava aqui, muito antes de você chegar, e muito antes de nós, e aqui estará depois que seu orgulho trazer o seu fim).

Ouça "Creek Mary's Blood" do NIGHTWISH no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=FB6nCwoVCYw







5- One – Metallica 

Esse clássico do METALLICA conta a trágica história de um soldado que foi gravemente ferido durante uma batalha. Depois de ter seu corpo praticamente destruído por um morteiro, ou uma mina terrestre, o soldado ainda vive em um leito de hospital. Sem poder usufruir de nenhum de seus sentidos físicos só lhe resta o sofrimento e a reflexão desse sofrimento. Como a letra não menciona qual conflito vitimou esse soldado, que fala em primeira pessoa sobre sua vontade de morrer, é um tema que poderia ser usado para falar explicitamente de todos os combates ocorridos durante o século XIX e XX, onde muitos soldados foram mutilados e tiveram que viver uma vida vegetativa por conta disso. Foi nessa época que foram usadas as primeiras armas de destruição em massa, como foguetes de longo alcance, o lança chamas e o gás mostarda, que deixou muitos homens com sequelas terríveis. No entanto, sabemos que “One” foi inspirada no romance Johnny Got His Gun (Johnny vai à Guerra) de Dalton Trumbo, que se passa durante a Primeira Guerra Mundial. É uma boa descrição do sofrimento exacerbado que muitos homens, em sua maioria, jovens que ainda não haviam constituído família. Muitas vezes, esses jovens soldados chegavam a desesperadora situação de terem ferimentos tão graves que a morte parecia sempre como uma salvação e esse aspecto a música do METALLICA consegue transmitir dentro de uma atmosfera melancólica e trágica, tornando desesperadora a narração do protagonista. 

Ouça "one" do METALLICA no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=WM8bTdBs-cw






6- Smoking Snakes – Sabaton 

Os suecos do SABATON se orgulham de escrever sobre história militar. São fascinados por temas relacionados a Segunda Guerra Mundial e prestam um serviço grandioso ao estudo da História do Brasil no século XX. O SABATON se refere a participação brasileira na Segunda Grande Guerra na música “Smoking Snakes” (Cobras fumantes) do álbum HEROES de 2014. A letra desta música é uma exaltação a 3 soldados brasileiros que enfrentaram no dia 14 de abril de 1945 durante o ataque a cidade de Montese na Itália, uma das situações mais adversas dos pracinhas brasileiros. 

Creio que nenhuma banda de Metal antes, mesmo bandas brasileiras, se preocupou em homenagear um episódio heroico, desses soldados que saíram do Brasil desacreditados e despreparados para enfrentar um dos maiores exércitos do mundo na Europa. O título da canção é uma alusão à um ditado que se popularizou no Brasil durante a Guerra, pois os mais pessimistas, diziam que “é mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra.” O fato é que o Brasil foi obrigado a entrar na guerra e o brasão oficial da FEB (Força Expedicionária Brasileira) era uma cobra fumando, justamente uma provocação a crença popular de que o Brasil jamais entraria naquela guerra. 

Ouça "Smoking Snakes" do SABATON







7- Wind of Change – Scorpions 

Esse hit da banda alemã SCORPIONS é talvez uma das mais conhecidas baladas dessa banda, que é especialista em fazer esse tipo de canção. Fala a respeito da queda do muro de Berlim que foi um momento tão emotivo para aqueles que o presenciaram. “Wind of Change” (vento da mudança) descreve o sentimento a respeito do muro que dividiu Berlim ocidental da Berlim Oriental e o que isso significa para o futuro. A queda do muro viu a Alemanha unificada pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Isso significou muito para aqueles que viviam na Berlim Oriental, por causa da grande disparidade de qualidade de vida que eles enfrentavam comparando com seus conterrâneos do lado ocidental. O muro de Berlim era uma lembrança melancólica da guerra que agora os cidadãos poderiam deixar para trás. Em um trecho da música é dito “Let your balalaika sing what my guitar wants to say” (Deixe sua balalaica cantar o que minha guitarra quer dizer). Uma forma genial de dizer para a cultura fechada da Alemanha Oriental simbolizada pela balalaica – instrumento popular da Rússia, que à época controlava esse país – se abrir ao som do ocidente, simbolizado pela guitarra – instrumento símbolo do Rock N’ Roll, música libertária que dominou o mundo. 


Ouça “Wind of Change” do SCORPIONS no Youtube: 






Estes são apenas 7 exemplos escolhidos arbitrariamente levando em conta meu próprio gosto musical, mas é nítido que um número infinito de músicas de Heavy Metal refere-se a temas históricos que tiveram importância para a humanidade. Cabe ao professor estar em sintonia com sua sala para notar a necessidade de usar ou não uma dessas canções em suas aulas de História. Mas por outro lado, muitas outras canções de estilos diversos foram escritas inspiradas em eventos históricos. O segredo é construir um ambiente propício para que os alunos se interessem pela matéria e essas músicas são uma alternativa para chamar a atenção dos alunos e de alguma forma entrar em seus mundos tão particulares. 

É inegável o maior interesse dos músicos e fãs de Heavy Metal por temas históricos, por isso sempre quando ver um headbanger, saiba que pode ter dele o seu melhor se cativá-lo corretamente. No entanto, podemos pensar em músicas alternativas para temas semelhantes. 


Bonus

A famosa banda U2 que tem um estilo mais popular e aceitável entre a juventude tem dois exemplos de músicas que podem ser trabalhados em sala de aula: “Sunday Bloody Sunday” que descreve o massacre de manifestantes irlandeses que protestavam contra a dominação britânica, evento que até hoje gera muita reflexão. Pride (In the name of Love) fala de forma subjetiva do assassinato do grande líder americano Martin Luther king Jr, que lutou bravamente pelos direitos da população negra dos EUA e foi assassinado por isso. 

Ouça "Pride (In the name of love) do U2 no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=LHcP4MWABGY






Mãos à obra caros professores de História, vamos fazer nossos alunos curtirem nossas aulas... 

Qual música de Metal você gostaria de usar em uma aula de História?

Fonte: 
10 Metal Songs That Make a Great History Lesson
Leia a matéria em inglês do site Loudwire escrita por Joe DiVita, que inspirou esse artigo.




    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulheres no Metal: A revolução feminina no Metal.

Imagem- Stanley Creation



Hoje em dia parece até comum ver uma banda de Heavy metal com vocal feminino, na verdade, de uma certa forma já até virou moda. Por outro lado, acho que demorou muito para que a as mulheres adentrassem à cena.

Para os detratores –  velhos e atuais – dos vocais femininos no Heavy Metal, as mulheres nunca passaram de simples adornos de palco. Veja as bandas clássicas dos anos 80, um Blackie Lawless fazendo uma performance bizarra com uma mulher nua no palco, os caras do KISS tirando uma casquinha de umas boazudas durante o show, sem contar as letras de algumas músicas dessas bandas que deixariam alguns fanqueiros com inveja.
Creio que o movimento chamado de “Glam Rock” que tinha como representantes mais ilustres, o MOTLEY CRUE e o próprio KISS, ilustra bem a utilização das mulheres como forma de atiçar os hormônios da garotada nos anos 80s. No entanto, mesmo nessa época já podíamos ouvir uma voz feminina ou outra que berrava em meio a enxurrada de trogloditas cabeludos.

DORO PESH, por exemplo, capitaneava a banda alemã WARLOCK nos idos dos anos 80s, nessa época pode-se dizer que era um grande feito, no entanto, a voz da vovó Dorothee (Este é o nome verdadeiro dela) mesmo quando desfrutava de sua juventude, nunca soou suave e doce como se espera geralmente da voz de uma mulher, mas sim como a de um brutamonte afeminado. Alguns poderiam até não identificar se Doro era uma mulher tentando ser um homem ou um homem que parecia uma mulher. – Eu mesmo me recordo de quando peguei um disco do WARLOCK em minhas mãos – em minha juventude – e ao olhar apara a foto da banda, nem mesmo me atentei para o fato de que a vocalista era uma mulher, pois todos os integrantes se vestiam como tal.

Aliás, como curiosidade, todos os caras do “Glam Rock” tinham uma postura e um comportamento afeminado. Às vezes, pareciam drag queens drogadas demais para notarem que usavam uma lingerie rasgada por cima de uma calça de látex.
Durante toda década de 1980, outras vozes femininas pululavam aqui e ali, JOAN JET, se sobressaia como guitarrista e líder do THE RUNNUWAYS, até que com o fim da banda seguiu sua carreira também como cantora. A outra guitarrista desta banda, LITA FORD, também decidiu continuar em carreira solo e, gravou um álbum de Hard Rock de relativo sucesso. Na Inglaterra, a banda feminina GIRLSCHOOL vinha ganhando reconhecimento com a ajuda do pessoal do MOTORHEAD.

Mas foi somente no final dos anos 90s, grosso modo, que as mulheres começaram a se mostrar como mulheres de verdade, muitas vezes, usando sua voz suave e serena em um estilo que apregoava o peso e a agressividade. Para os críticos desta nova leva de mulheres cantoras, eu só tenho a dizer que, elas demoraram, mas chegaram. E chegaram, não para tirar o peso e a agressividade do Metal, mas para enriquecer e dar mais contraste a este estilo que sempre se pautou pela quebra de barreiras.
Um dos maiores críticos das mulheres rockeiras certamente é Paul Stanley, aquele afeminado guitarrista e vocalista do KISS, que certa vez disse. “Nunca pensei que alguém que não tenha saco pudesse fazer Rock n’Roll.” Não sabemos se o Sr. Stanley está se rendendo ao boom das mulheres no Rock de uma forma irônica, ou está fazendo uma dura crítica a esse fenômeno.

Se considerarmos o espaço que as mulheres têm hoje dentro da cena, e o fato de o número de mulheres atuando como protagonistas em suas bandas, escrevendo e criando coisas novas, é notório que elas chegaram para conquistar seu lugar de direito dentro da cena e dar um basta no machismo crônico que sempre dominou esse estilo.



    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.


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