quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.



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