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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mansfield Park: Quase tudo que se sabe sobre Jane Austen está errado

Até que ponto uma obra literária pode nos esclarecer sobre a sociedade retratada pelo autor?

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Mansfield Park Kindle Edition (Amazon)


Mansfield Park (Palácio das Ilusões)
de Patricia Rozema de 1999

As obras da autora inglesa Jane Austen, são popularmente associadas a histórias de amor vividas por suas protagonistas mulheres, sobretudo após um período onde o cinema hollywoodiano passou a interessar-se pela autora e a criar releituras para o cinema de suas obras. Para alguns analistas, as histórias de amor, apesar de cativantes e extremamente vendáveis no formato cinematográfico, não são o cerne da escrita de Austen e muitos dos elementos abordados pela autora acabaram sendo ignorados pelo grande público.

Segundo Helena Kelly, professora de literatura em Oxford “quase tudo que se sabe sobre Jane Austen está errado”. Pesquisadora de Jane Austen, Kelly lançou em 2017 o livro “Jane Austen: The Secrete Radical (Jane Austen: A radical secreta) onde defende a tese de que as obras de Austen trazem muito mais à tona uma crítica à sociedade de seu tempo do que simples e rasas histórias de amor. E uma das obras citadas por Kelly, que possuiria fortes evidências de que Jane Austen foi uma crítica mordaz da escravidão, por exemplo, é “Mansfield Park”, romance que por sinal, não é um dos mais populares de Austen se compararmos com “Orgulho e Preconceito” e “Persuasão”.


MansfieldPark – hoje um dos clássicos da literatura inglesa – foi publicado em 1814 e conta a história de uma jovem que é adotada por seus parentes abastados como forma de aliviar os custos de sua família original. Será que por trás desse trama aparentemente trivial – e de certa forma corriqueira na literatura – onde uma menina pobre, sofrendo as desavenças de sua condição em meio a uma família de posses, se esconde uma visão refinada da autora sobre a sociedade aristocrática em que vivia? É isso que pretendemos analisar neste presente trabalho, comparando a obra original de Austen com a adaptação para o cinema da diretora Patricia Rozema e com suporte teórico de alguns pesquisadores da literatura inglesa.


A adaptação cinematográfica de Mansfield Park

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Cena do filme de Patricia Rozema de 1999


É necessário recorrer como ponto de comparação a obra cinematográfica “Mansfield Park” (no Brasil, Palácio das ilusões), filme escrito e dirigido por Patricia Rozema em 1999. Nesta adaptação para o cinema a diretora canadense optou por tratar com mais ênfase a escravidão, que não é tratada de forma explícita na obra de Jane Austen. Mas a grande controvérsia gerada pelo filme foi a reconstrução da protagonista Fanny Price, que ao contrário da heroína passiva e apática da obra de Austen passa a ter voz ativa e se posicionar diante das adversidades que surgem a sua frente.

Segundo Alison Shea, em seu artigo intitulado: “’I am a wild beast”: Patricia Rozema’s Forward Fanny’ (“’Eu sou um animal selvagem’”: A ousada Fanny de Patricia Rozema), a versão cinematográfica de Rozema é enfraquecida por uma leitura equivocada da diretora – que também é a roteirista do filme – que modifica radicalmente a trama criada por Austen, como podemos notar abaixo:


[…] A versão cinematográfica de Mansfield Park de Rozema fica enfraquecida tanto pela interpretação incorreta da relação entre silêncio e personagem quanto pelo fracasso no filme em modificar suficientemente aspectos da trama e dos personagens do romance que validam as qualidades que Rozema despreza.


A crítica de Alison Shea vai além ao estabelecer que 

Prejudicado por preconceitos que vêem o silêncio como uma marca de fragilidade e tolice, Rozema considera Fanny uma personagem subdesenvolvida". (SHEA, p.52)

Outro pesquisador de Austen, David Monaghan, diz que Rozema comete um anacronismo ao recriar sua Fanny Price em sintonia com valores apreciados no século XXI, onde o discurso feminista já se tornou parte da pauta social. Assim podemos notar em sua citação:


Ao que tudo indica, Patricia Rozema atribui os valores humanistas liberais do final do século XX à sua heroína do início do século XIX, porque ela acredita que essas qualidades a tornarão mais aceitável para um público moderno do que uma personagem que não demonstra qualquer desaprovação óbvia a um tio, que é sexista, esnobe e dono de escravos.


Monaghan, no entanto, defende a criação de Rozema dizendo que seu filme se aproxima mais de “um trabalho artístico independente do que uma adapitacão do romance de Austen". (MONAGHAN, 2006, p.60) É possível notar, mesmo na discordância entre os dos analistas supracitados – afinal, Shea faz uma crítica mordaz ao filme, enquanto Monaghan o defende como uma obra independente do livro – que a heroína do filme de Rozema não é a Fanny Price criada por Austen no início do século XIX.






Edward Said
Os debates acerca de Mansfield Park não estão restritos ao comportamento da protagonista. Há algo mais profundo na estrutura do romance que parece ter sido negligenciado por mais de um século. Em sua obra “Cultura e Imperialismo” de 1993, o crítico literário palestino-americano Edward Said analisa Mansfield Park dentro de uma ótica pós-colonialista, expondo aspectos implícitos na obra que aludem a escravidão e sua importância na manutenção da estrutura colonial. 

Quem lê de forma descompromissada o romance de Austen, pode nem perceber essa alusão, afinal são poucas as vezes que a narradora expõe ao leitor a ausência de sir Thomas, por estar ele em Antígua. Said diz que: “Os Bertram não poderiam existir sem o tráfico de escravos, o açúcar e a classe dos fazendeiros coloniais.” (SAID, 2011) Ou Seja, é justamente a ausência de Sir Thomas no enredo que demonstra o poderio imperialista inglês no início do século XIX, afinal, “o que sustenta materialmente essa vida (em Mansfield Park) é a propriedade de Bertram em Antígua, que não está indo muito bem.” (SAID, 2011)


Jane Austen se refere à escravidão em um momento específico do romance que transcreverei abaixo:


“Você não me ouviu perguntar sobre o tráfico negreiro na noite passada?”
“Eu ouvi si e tinha esperança de que o assunto fosse comentado pelos outros. Você agradaria mais se tivesse continuado perguntando.!
“Eu até que queria, mas houve um silêncio mortal! (AUSTEN, 2010, p.122,123)

Neste diálogo entre Fanny e seu primo Edmund, a autora expõe de forma muito sutil que assunto escravidão pertencia ao seu repertório de conhecimento. Principalmente quanto usa a frase “Silêncio mortal” para se referir à reação de seus parentes quando explicitou uma dúvida sua. No entanto, se Jane Austen estava ciente da utilização de mão-de-obra escrava, por que não mencionou de forma explicita em seu romance na forma de uma crítica social? Sobre isso Said vai dizer que:



A fim de ler obras como Mansfield Park com maior acurácia, é preciso ver que, de modo geral, elas resistem ou evitam esse outro contexto (do surgimento de uma visão pós-colonial), o qual, porém, não pode ser inteiramente dissimulado pela abrangência formal, a honestidade histórica e a sugestionabilidade profética desses romances. Com o tempo, já não se faria um silêncio mortal quando se comentasse a escravidão, e o assunto se tornaria fulcral para uma nova compreensão do que era a Europa. (SAID, 2011)



Said conclui que Mansfield Park – e outros romances da autora de certa forma – demonstra que Jane Austen justifica a atuação do Império em suas relações com as colônias, e expõe a cultura doméstica desse tipo de relação, como veremos na citação abaixo:


Tendo lido Mansfield Park como parte da estrutura de uma aventura imperialista em expansão, não podemos simplesmente devolvê-lo ao cânone das “grandes obras-primas literárias” — ao qual sem dúvida pertence — e o deixar lá, sem mais. Em vez disso, creio eu, o romance inaugura de maneira firme, ainda que discreta, um vasto campo de cultura imperialista doméstica sem a qual não seriam possíveis as subsequentes aquisições territoriais britânicas. (SAID, 2011)



Como vemos, as visões de Said na crítica do romance Mansfield Park, de certa forma inauguram uma visão pós-colonialista na forma de analisar esta obra e a literatura inglesa de uma forma geral. Podemos notar que Patricia Rozema teve acesso a essas ideias ao escrever o roteiro para sua versão cinematográfica de Mansfield Park. Afinal fica nítido na dramática cena (1:27:27) onde Fanny encontra um caderno de desenhos de Thomas, o primogênito que esteve com o pai cuidando dos negócios em Antígua. Os desenhos mostram que as práticas de Sir Thomas na colônia envolviam açoitamentos, tortura, estupro e toda sorte de violência praticadas aos seus escravos.

Neste sentido podemos dizer que Patricia Rozema talvez iluminada pelas ideias de Edward Said, enxergou as lacunas deixadas na penumbra por Jane Austen em seu romance original, utilizando-se desses elementos de forma explícita em seu filme destinado a um público já familiarizado com as lutas abolicionistas e as conquistas históricas deste período.

Na contramão do pensamento de Said, Hellena Kelly atribui um caráter abolicionista e militante à Jane Austen quando diz que: 


Me surpreendi quando notei referências muito frequentes e óbvias à escravidão em Mansfield Park. Qualquer pessoa que soubesse ler na época sabia que Lord Mansfield era presidente do Supremo Tribunal inglês, e que contribuiu imensamente para a abolição do tráfico de escravos. Seria impossível não fazer a ligação. Além disso, a Sra. Norris, vilã da história, teve o nome inspirado em Robert Norris, um infame traficante de escravos. Eu já estava convencida de que havia ligações com o tema no romance, e muitos críticos já haviam apontado isso, mas quando eu me foquei em encontrar essas referências, me pareceu clara a crítica de Austen à escravidão. Isso me deixou perplexa, porque muitas pessoas leem sua obra apenas pensando no romance e no protagonismo feminino, que de longe não são os únicos ingredientes de seus escritos. (KELLY, 2017)



Notamos que a obra Mansfield Park de Jane Austen, longe de ser a simples história de uma Cinderela do período colonial, está cheio de referências aos modos de vida da sociedade de sua época. E que um clássico da literatura sempre é redescoberto de tempos em tempos e novos modelos de reflexão sobre os temas propostos por ele vêm à tona.

A importância inegável desta obra não diz respeito apenas ao território da teoria literária, mas também para a história da literatura e da História propriamente dita, afinal nesta obra entramos em contato com temas ainda muito em voga na sociedade moderna e nos deixam lacunas que atiçam nossa capacidade reflexiva. Afinal Jane Austen viveu durante um período de transição marcado por grandes transformações na nossa sociedade.


Referências bibliográficas


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Filme: Escola da Vida - Um diálogo raso entre abordagens de ensino.



Nome: Escola da Vida
Nome original: School of Life
Direção: William Dear
Ano de produção: 2005
País: Canadá/EUA


A rotina de uma escola muda completamente com a entrada de um novo professor de História. Sr. D, como ficará conhecido, contagiará a todos com sua metodologia de ensino. Com aulas mais dinâmicas e divertidas logo se torna o comentário da escola. Até mesmo seus colegas de trabalho irão se afeiçoar a ele. Apenas um dedicado professor de biologia não o verá com bons olhos.

Warner tem motivos para ver Sr. D com um certo desprezo, pois, ele é filho de uma lenda, um sujeito que ganhou o prêmio de professor do ano por 43 anos seguidos, e em decorrência de sua morte, escolhem um jovem e petulante professor para substitui-lo, Sr.D.

Warner está obstinado e tem pela frente a árdua tarefa de vencer Sr. D na corrida para levar o prêmio de professor do ano. Mas com seu método tradicional de aulas, será facilmente repudiado pelos alunos que o consideram, no mínimo, um chato. Esta disputa ainda se torna mais desfavorável para Warner quando o próprio filho é um fã declarado de Sr. D.

Esta é uma comédia que pega o espectador pela emoção. Há momentos onde as relações familiares se tornam o foco, principalmente na relação pai e filho, onde o pai desesperadamente tenta ser o melhor pai do mundo ao mesmo tempo, que tem como meta primordial, a conquista do prêmio que há 43 anos pertenceu a seu pai. Seu intuito é prejudicado quando não percebe ao ridículo que seu filho é obrigado a se submeter por esta brincadeirinha de seu pai.

A trama vai evoluindo de forma previsível e no decorrer dos acontecimentos, tudo que parecia que iria acontecer, realmente acontece, e no final quando um segredo do Sr. D é revelado todos choram muito e aprendem a lição.

Crítica:

Mais um filme que enfoca a relação professor aluno. Desta vez não está em foco, adolescentes rebeldes que marcaram clássicos como "Ao mestre com carinho" dentre outros. Desta vez o que conduz o filme é a disparidade entre dois métodos de ensino, que são encarnados na disputa entre dois professores.
Um privilegia o método tradicional onde o professor tem seu lugar bem definido na sala de aula, e o aluno tem seu lugar e seu tempo de falar controlados pelo professor. O outro, procura deixar o aluno a vontade e muda totalmente a estrutura física da sala de aula fazendo os alunos se sentarem em círculo deixando-os olhando uns nos olhos dos outros privilegiando também o contato bilateral entre eles. Apesar dos típicos clichês do cinema norte-americanos que acompanha todo o desenrolar da história, este filme é minimamente pertinente ao contestar a rigidez estrutural do sistema de ensino tradicional.

E, incorporado no personagem Mr. D, é exposta uma alternativa com mais dinamismo. Não fosse esta, uma forma eficaz na formação de indivíduos que se enquadram no grupo dos que sabem muito, certamente é muito eficaz na formação de indivíduos que sabem aprender por si próprios. Logicamente que tudo isto no filme é bastante limitado pelo enredo sentimental que foi criado.
O filme passa ileso pelas generalizações explícitas, como: "o cara só é um bom professor porque é jovem". Na verdade Sr. D está substituindo um velho professor que por 43 anos consecutivos foi considerado o melhor da escola. "História é uma matéria envolvente, todo professor de história é legal, os professores de biologia são muito chatos". A professora que substituiu Sr. D quando este estava doente era uma bruxa, já o professor Warner aderiu ao sistema de Sr. D.

O filme, no entanto, como todos os filmes que visam o público adolescente, deixa uma mensagem edificante, que é na verdade uma concepção clonada do filme "Sociedade dos poetas mortos": "Viva cada dia como se fosse o ultimo". Não é um filme contestador no sentido social por mostrar a visão de mundo de uma classe média americana já bem acomodada no seu espaço como cidadãos, sendo assim, é difícil de utilizar esta obra no intuito de se ter uma visão dinâmica da sociedade.

É, entretanto, um bom inicio de diálogo entre métodos de ensino divergentes, e além do mais um bom entretenimento.


André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quinta-feira, 22 de março de 2018

(Filme) As Horas: Uma visão cronológica da homossexualidade feminina vista por três gerações.





Nome: As Horas
Nome original: The Hours
Direção: Stephen Daldry
Ano de produção: 2002
País: Reino Unido/EUA
Baseado no livro “As horas” de Michael Cunningham


Esta obra possui uma formula peculiar de apresentar a metamorfose da mentalidade da sociedade no decorrer do século XX até o início do XXI. Focando três personagens de épocas diferentes Stephen Daltry contrasta o conservadorismo da década de 40 em uma Inglaterra ainda sob influência vitoriana, a sociedade de aparências da Los Angeles da década de 50, e a chamada sociedade dos “extremos” que vivemos atualmente.

Clarissa, personagem de Maryl Streep, prepara uma festa para comemorar o prêmio recebido  por seu amigo Richard. Um poeta que vive seu inferno particular em decorrência do estado avançado de sequelas provocadas pela aids. O que liga esta personagem que vive na Nova York do início do século XXI com Virginia Woolf, não é o simples fato de seu nome ser o mesmo que a personagem principal do livro “Mrs. Dalloway”escrito por  Woolf . A Clarissa contemporânea parece reviver a original idealizada por woolf na década de 20, com as proporções da nossa era de “liberdades conquistadas”. 

E o personagem Richard é tido como um simples coadjuvante, mas este esta ligado diretamente a Laura Brown, a outra protagonista do filme. Richard Brown é o único personagem da trama mostrado em dois momentos diferentes. É interessante quando notamos que o Richard, amigo de Clarissa na Nova York do inicio do século XXI, é o mesmo mostrado ainda garoto na Los Angeles dos anos 50 vivendo com a mãe e o pai uma vida que era certamente uma “pintura” bem feita do “American way of life”. Esta trama que intermedia as outras duas mulheres citadas acima tem como protagonista Laura Brown que é interpretada pela ótima atriz Juliane Moore .

    Laura Brown é a típica dona de casa da década de 50. Todos os elementos foram introduzidos nesta personagem, para que sua imagem simbolizasse a submissão feminina, mesmo sendo seu marido indiferente a isto. É uma submissão convencional da sociedade àquela época. E é justamente neste pano de fundo que esta fluindo o drama particular de Laura Brown . A esposa que aos olhos do marido é perfeita, e que diante do filho simula uma ternura incontestavelmente falsa até mesmo pelo pequeno Richard. 

O drama pessoal de Laura se torna evidente ao telespectador na belíssima cena do beijo da protagonista em sua vizinha, que também vem sofrendo sua mazela de não poder engravidar. Este beijo é um dos momento altos do filme. Simboliza a quebra dos valores tradicionais daquela sociedade. É quando a personagem deixa transbordar seu desejo encarcerado por detrás das cortinas do estilo de vida americano.



O diretor se utiliza destas três personagens para traçar a evolução do homossexualismo durante o século XX, Virginia Woolf representa o início do século, com seu casamento infeliz apesar do empenho do marido. E uma depressão que ira desencadear uma forte vontade de acabar com sua própria vida, o que ocorre na vida real em 1941. Laura Brown encarna a infeliz dona de casa que tem que manter seu segredo guardado de uma sociedade que via na manutenção da boa aparência  a maior busca da vida. Compartilhava da mesma  infelicidade de sua antecessora. 

Também tinha pensamentos suicidas, mas sua educação para o servir, em detrimento do viver, sempre foi mais forte que seu desejo mórbido, preferiu entretanto abandonar seu marido e filho em busca de se libertar de tamanha hipocrisia. 

Clarissa é uma lésbica do século XXI, que usufrui de todas as liberdades conquistadas no decorrer deste século. Clarissa entretanto não esta isenta de sofrimentos. O amigo homossexual que definha vitima da aids, é seu maior pesar.

O fio condutor que liga as três histórias, é em um primeiro momento um tanto obscuro. O que  pode dificultar o entendimento do espectador é o fato de as três histórias surgirem na tela de forma caótica traçando um  paralelo entre as protagonistas da trama. A base utilizada é o romance “Mrs Dalloway” escrito por Virgínia Woolf que é interpretada no filme por Nicole Kidman. O conflito interior Desta personagem - que é a única personagem histórica do filme - é   a inspiração para o desenrolar da história. Casada com Leonard Woolf, Virgínia vê sua conturbada vida se afunilando rumo ao desespero. Sua criatividade parece se esvair a cada dia. O apego de Leonard tentando de tudo pela sua recuperação a machuca profundamente. E o seu desejo incessante de voltar a Londres alimenta seu profundo sentimento de cárcere. Mas o que culmina em seu ato suicida certamente será melhor esclarecido, analisando as outras duas personagens e sua ligação com esta.





    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

quarta-feira, 21 de março de 2018

(Filme) Cruzada - Uma reconstrução histórica.


Nome: Cruzada
Nome original: Kingdom of Heaven
Direção: Ridley Scott
Ano de produção: 2005
País: Reino Unido/Alemanha/EUA


Apesar desta trama retratar um episódio real, não possui um compromisso histórico bem acentuado. O roteirista teve a ousadia de se utilizar de personagens históricos, comprovadamente reais para construir sua trama. Entretanto isto não tira o seu mérito profissional. Trata-se das preliminares da reconquista de Jerusalém pelos árabes em 1187. Em uma Jerusalém caótica dominada pelos cristãos sob o reinado de de Balduíno IV – o Rei Leproso – e no limiar de uma acirrada disputa política entre as duas principais ordens cristãs que detinham o poder politico-militar em Jerusalém. 

Em meio a este cenário se desenvolve a fantástica história de Balian. Um simples ferreiro de uma pacata vila medieval na Inglaterra que se transformara em um cavaleiro e em um respeitável líder militar que o levará a comandar um exército cristão contra a invasão muçulmana em Jerusalém. Um fato improvável. Sobretudo em um época onde a ascensão social era quase impossível. Balian encarna o herói incorruptível, comum a qualquer produção épica de Hollywood. Lança-se em um covil de vilões que travam uma ímpia disputa pelo poder em Jerusalém, que se mantém como um reino cristão sobre um pilar moribundo. 

Balduíno IV é o rei que sofre de uma doença incurável àquela época, (hanseníase) portanto seu estado terminal alimenta a disputa pela ascensão ao trono. Guy de Lusingnan casado com Sybila – irmã de Balduíno – é o líder templário que certamente assumirá o trono. O que o filme negligencia - certamente para dar ênfase na personalidade destes indivíduos – é o fato de Sybila já ter um filho de um casamento anterior, filho este que viria a ser o herdeiro natural do trono de Jerusalém com o nome de Balduíno V. A figura de Balduíno IV é certamente relevante para este enredo. Imponente com sua máscara de metal para esconder seu rosto desfigurado pela “lepra”, é mostrado sempre como um sábio rei que busca acima de tudo se manter em paz com os árabes, sendo ele o único elemento que ainda evoca tal paz. O templário Guy de Lusingnan, seu natural sucessor, deseja se sobrepor ao exército de Saladino – o líder muçulmano. 

O filme mostra uma sociedade onde a religiosidade é preponderante. Ao mesmo tempo os detentores do poder político se utilizam de premissas religiosas para incentivar e justificar seus atos usando a típica frase “ esta é a vontade de Deus”. Saladino encarna o guerreiro prudente e ao mesmo tempo ambicioso que valoriza seus inimigos. Nos instantes finais o exército de Saladino ataca Jerusalem e vence depois de uma resistência heróica organizada por Balian com os próprios habitantes de Jerusalem, já que a maioria dos soldados cristão foram dizimados por Saladino em um campanha desastrada liderada por Guy de Lusingnan que nete momento já era o rei de Jerusalem. Balian ao negociar os termos de rendição com Saladino pergunta a este: “ O que significa Jerusalem? Saladino então responde: “ Nada” . E em seguida diz: “Tudo”. 


Podemos notar uma possível indiferença de Saladino em relação a Jerusalem. Talvez Saladino buscava apenas triunfar sobre um grande inimigo. Talvez tudo fosse uma questão de honra. 

Este filme possui uma boa reconstituição de época, mostra aspectos do cotidiano em Jerusalem. Cavaleiros com armaduras surradas, curcifixos por todos os lados, uma peregrinação constante de fiéis aos locais sagrados de Jerusalem. É importante que notemos também a mistura da cultura árabe com a cultura ocidental (cristã). Como no caso do cumprimento usado pela princesa Sybila, e na pintura de henna usada pela princesa cristã – um costume inerente à cultura árabe. 

As disputas políticas entre as ordens cristãs – templários e hospitalários – é recheada de discussões que eram realmente pertinentes aquela época. As convenções cristãs construídas ao longo de toda a idade-média são mostrados em meio a trama. Como a mulher do protagonista Balian que é impedida de ter um enterro cristão por Ter cometido suicídio. Um gravíssimo pecada que a condenaria ao fogo do inferno. Balian só aceita ir com o cruzado no intuito de “apagar” os pecados de sua esposa em Jerusalém. 

A nomeação de Balian como cavaleiro mostra um certa peculiaridade deste filme. Geralmente para ser nomeado cavaleiro este deveria pertencer a ema classe nobre. Balian ao herdar os bens de seu pai era a partir daquele momento um membro da nobreza. O filme se mostrou fiel também em relação aos relatos históricos a respeito da situação terminal em que se encontrava o rei Balduíno IV após a batalha de Kerak, onde este não conseguia mais se manter de pé, e era então carregado em uma cama com cortinas. 

A batalha final onde Jerusalem é tomada pelos árabes é reconstituída retratando as técnicas de guerra utilizadas na ocasião. A catapulta era a principal arma de artilharia pesada e era largamente usada tanto por muçulmanos como cristãos. A religião era um instrumento para se obter o poder. Isto é expresso no dialogo entre Balian e Tibérias, quando este último percebe que Jerusalem logo cairá. 

“_ Não existe mais Jerusalem... dediquei toda minha vida a Jerusalem e só agora percebo que o que queríamos era poder”. 

Um outro aspecto que podemos notar é a desmistificação dos muçulmanos, que sempre foram retratados como brutais e “bárbaros” remetendo ainda à uma ideologia romântica difundida pela ótica cristã.


    André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

(Documentário)Paradise Lost - A trilogia que tirou um homem do corredor da morte.









Essa sequencia de três documentários envolve anos de trabalho seguindo a série de acontecimentos que deu inicio com o assassinato brutal de três crianças em West Memphis no estado do Arkansas. Para se instruírem a respeito do caso leiam artigo publicado nesse blog descrevendo como se deu os acontecimentos (clique aqui). Esses documentários foram tão importantes para o caso que muitos o consideram de fundamental importância para reverter a decisão judicial que condenou três adolescentes por assassinato sem evidencias suficientes e ainda deixou um deles a beira da morte por injeção letal. 


*Infelizmente até o fechamento desses artigos ainda não havia versões dubladas ou legendadas em português, e meu tempo anda curto para fazer esse trabalho, mas para quem tem um minimo de fluência em inglês creio que é uma ótima maneira de assistir três grandes documentários e treinar suas habilidades linguísticas.

Paradise Lost - Part 1 (Assassinatos de criança em Hobin Hood Hills)




Musica: Metallica
Distribuído por: Home Box Office (HBO)
Data de Lançamento: 10 de junho de 1996
Tempo: 150 minutos
País: EUA
Língua:  Inglês

Esse é o primeiro documentário dessa série. Mostra cenas fortes das crianças mortas sendo retiradas do pântano onde foram submersas. Mostra também a prisão dos três suspeitos até suas condenações. A comoção dentro do meio artístico foi tamanha que a banda de Heavy Metal Metallica cedeu os direitos de uma música como apoio para ser usada na trilha sonora dessa produção. 









Paradise Lost - Part 2 ( Revelações)





Musica: Metallica
Distribuído por: Home Box Office (HBO)
Data de Lançamento: 22 de junho de 2000
Tempo: 130 minutos
País: EUA
Língua:  Inglês



Nessa sequencia lançada em 2000, as cenas de julgamento são dominantes, e mostra evidencias que causam uma desconfiança por parte do público e da imprensa no envolvimento de  John Mark Byers , padrasto de uma das crianças no crime. Byers se mostra uma figura constante desde o primeiro documentário de 1996, com uma atuação performática sempre exaltando sua dor e seu desejo de vingança apoiado pela citação de elementos religiosos e textos bíblicos. A equipe de filmagens mostra as diversas manifestações de apoio aos condenados e revisita os familiares.










Paradise Lost - parte 3 (Purgatório) 





Direção de:Joe Berlinger and Bruce Sinofsky


Musica:Metallica

Distribuído por:Home Box Office (HBO)
Data de Lançamento: 11 de setembro de 2011
País: United States
Língua: Inglês


Nessa última sequencia já se passaram 18 anos da prisão dos três condenados pela morte das crianças de West Memphis. Depois de muito apelo da defesa, geralmente negados pelo Juiz, o julgamento é aceito pela suprema corte do estado do Arkansas, e ameaça ir para a suprema corte dos EUA. Desta vez a equipe de filmagem acompanha  a repercussão do caso entre os familiares que pela primeira vez declaram não acreditar na culpa dos três condenados. Evidencias físicas são encontradas nesse ínterim, que colocam Terry Hobbs na cena do crime. Os responsáveis pela investigação policial e pelo julgamento continuam firmes declarando que acreditam na culpabilidade dos suspeitos, mas agora com declarações mais ponderadas. 


Assista ao trailer:







Como vemos esses documentários acompanhou de perto toda a trajetória desse caso que chocou o país e revelou incríveis falhas nas investigações policiais e que colocou em cheque a decisão judicial que em primeira instancia sentenciou Damien Echols a morte. O caso ainda não foi resolvido já que os suspeitos se declararam culpados para se livrarem da prisão em um acordo surreal com o estado do Arkansas, e nenhuma ação contra Terry Hobbs foi acionada até os dias atuais já que para o estado os três suspeitos são realmente os culpados. Esses três documentários, e outros, tiveram importância crucial na divulgação do caso à opinião pública o que certamente influenciou nas decisões tomadas pela corte de West Memphis. Não seria exagero dizer que as exposição das informações desses documentários salvou a vida de um homem que vivia no corredor da morte. Assista em ordem cronológica pois é impressionante as reviravoltas que notamos na opinião dos envolvidos. 



André Stanley é escritor e professor de História, Inglês e Espanhol, autor do livro "O Cadáver", editor dos blogs: (Blog do André Stanley, Stanley Personal Teacher). Colaborador do site especializado em Heavy Metal Whiplash. Foi um dos membros fundadores da banda de Heavy Metal mineira Seven Keys. Também é fotógrafo e artista digital.

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